PCP de comboio para exigir que se deixe de andar a passo de caracol no Vouguinha

Deputados comunistas viajaram cedo entre Águeda e Aveiro para mostrar a "degradação" da via que querem ver requalificada.

Manhã cedo, poucos minutos depois das 8.00, com a chuva a ameaçar, no pequeno apeadeiro da Aguieira, concelho de Águeda, são poucos os passageiros que aguardam a chegada do comboio, o "Vouguinha", que faz a ligação entre Sernada do Vouga, no mesmo concelho, e a cidade de Aveiro, "a passo de caracol", como diz uma passageira já na estação de Águeda. São 37,7 quilómetros do ramal de Aveiro, da Linha do Vale do Vouga, que antes ligava por ferrovia esta cidade a Viseu e a Espinho, pelo interior do distrito.

No troço de Sernada a Águeda, percorrendo as freguesias de Macinhata e Valongo do Vouga, há locais da via onde a automotora não ultrapassa os 10 km/h - as condições de segurança não permitem mais. "Olhem só para a via que está aqui", aponta um homem na Aguieira. Os carris parecem instáveis, a vegetação cresce na própria linha.

A única agitação nesta terça-feira é a comitiva de deputados do PCP e de jornalistas, acompanhados de alguns membros da Comissão de Utentes da Linha, que fazem a viagem no percurso mais movimentado, a partir de Águeda. Mas num dia atípico, diz o revisor: há menos gente do que habitualmente. Em cada uma das duas carruagens, duas mãos cheias de passageiros.

Nada que demova o líder parlamentar comunista, João Oliveira, de defender a manutenção da linha. "O que constatámos nesta viagem é que as pessoas precisam do comboio, utilizam o comboio", diz João Oliveira, já no final da viagem, realizada no âmbito das jornadas parlamentares do PCP, que decorrem até hoje em Aveiro. E, no entanto, o futuro da linha move-se com dificuldades: "Esta necessidade que é sentida pelas populações esbarra com as opções do governo de degradar intencionalmente a linha do Vouga para atingir um objetivo que é o seu encerramento."

De volta ao Vouguinha, de janelas pichadas que não deixam ver a paisagem recortada da pateira e depois do rio Vouga, outra mulher que segue até Aveiro lamenta o desajustamento de horários. Entrou na Aguieira, onde de manhã só tem duas hipóteses para chegar até à capital de distrito: uma pelas seis da manhã, a outra, já às 8.00. Se tiver de ir ao médico ao fim da manhã tem de "gramar" com horas de espera na cidade. "Nem autocarros temos."

João Oliveira não se perde na tradução política: "O governo está a impor condições de degradação tal, em alguns casos com o compromisso da segurança, que prejudica o serviço que é prestado às populações, acabando por as afastar, [apesar de ser] em alguns casos a única solução que existe de transporte."

Já em dezembro passado, o grupo parlamentar do PCP questionou o executivo sobre o anunciado projeto de requalificação da linha (anunciado em abril do ano passado pela Refer), um investimento de 2,5 milhões de euros. Agora, nas mãos dos passageiros, os deputados deixaram um pequeno panfleto a sublinhar que "a Linha do Vale do Vouga é necessária". Os passageiros deram-lhes razão.

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