Para oposição, declarações de Juncker são o reconhecer do falhanço da austeridade

O atual presidente da Comissão Europeia e ex-presidente do Eurogrupo admitiu ontem que a troika "pecou contra a dignidade" dos gregos, dos portugueses e dos irlandeses.

O deputado socialista João Galamba afirmou hoje que o primeiro-ministro "tem de explicar o que pensa" das declarações do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que ontem admitiu que a 'troika' "pecou contra a dignidade" de portugueses, gregos e também irlandeses, reiterando que é preciso rever o modelo e não repetir os mesmos erros.

"Quem já está confrontado com estas declarações é o primeiro-ministro, que aliás terá de explicar o que pensa das declarações de alguém que [a maioria PSD/CDS-PP] apoiou para liderar a Comissão Europeia", afirmou o dirigente do PS.

"São declarações muito importantes e estão em total contraste com a lamentável cena ontem em Berlim da ministra Maria Luís Albuquerque com o ministro das Finanças alemão, onde o que vimos foi Portugal a ser usado indignamente como troféu da austeridade", criticou Galamba no final da reunião do grupo parlamentar socialista, na Assembleia da República.

"Ver Jean-Claude Juncker a reconhecer o óbvio, que os países da periferia foram vítimas de uma estratégia errada e indigna, e ver no mesmo dia o Governo português submisso em Berlim, a prestar-se ser quase um 'pin' na lapela do ministro das Finanças Schäuble é a demonstração que temos um Governo que não defende os interesses nacionais e está do lado errado da História", acrescentou.

Para o secretário nacional do PS, as críticas de Juncker à 'troika' revelam "que há uma maior abertura para reconhecer o falhanço da austeridade e a necessidade de mudar de políticas do que muitas vezes muitos querem fazer crer".

No PCP, a reação surgiu pela voz do secretário-geral, que acusou Juncker de tentar "limpar as mãos à parede", e de reafirmar a continuação da política da UE, defendendo que é preciso "uma rutura com esta política do desastre".

"Creio que esta tentativa de limpar as mãos à parede não resulta na medida em que, na sua declaração, para além dos pecados que confessou, foi a afirmação e a reafirmação que esta política da União Europeia (UE) deve continuar, portanto, a ser executada", afirmou Jerónimo de Sousa, que defendeu "uma rutura com esta política do desastre".

O secretário-geral do PCP constatou ainda que "é o atual presidente da Comissão Europeia a criticar o antigo presidente do Eurogrupo, que por acaso é a mesma pessoa", acrescentando que não considera que o presidente da Comissão Europeia esteja arrependido.

Ainda do lado da oposição, Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, considerou que "se o senhor Juncker entende que as instituições europeias pecaram contra a dignidade dos povos então está numa excelente posição para alterar esse rumo das coisas".

Segundo a eurodeputada, a prova de que a dignidade dos povos foi colocada em causa é espelhada nos indicadores, quer na Grécia, quer em Portugal. Para Marisa Matias, há um "bom caminho para fazer a 'mea culpa'" que passa pela adoção de políticas que deixem de fora a 'troika' e que apontem para a eliminação da austeridade.

O líder parlamentar do CDS, Nuno Magalhães, defendeu que as críticas de Jean-Claude Juncker sobre a 'troika' coincidem com "os alertas" deixados pelo partido nos últimos três anos, mas que essa situação foi "superada" por "mérito dos portugueses".

"Gostaria de deixar bem claro que foi graças ao esforço, à dignidade, à vontade, e às vezes contra a vontade da própria 'troika', que os portugueses se livraram da 'troika'", declarou. "Um governo de protetorado é um vexame, é uma humilhação que o PS nos deixou, foi muito difícil cogovernar com os credores mas conseguimos", realçou ainda.

O eurodeputado social democrata Paulo Rangel também considerou que o discurso de Juncker não teve surpresas. "Não há aí novidade nenhuma. Carlos Moedas já tinha chamado a atenção para o facto de o modelo da 'troika' não ser o mais adequado", disse à agência Lusa.

"O que sempre se disse é que o modelo da 'troika' não era o mais adequado porque punha par a par entidades tecnocráticas e burocráticas com entidades políticas, e às vezes havia alguns bloqueios e até algum desconforto de estados, porque as autoridades democraticamente instituídas tinham que lidar com quadros puramente técnicos", explicou.

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