PAN. Liderança de Inês Sousa Real cada vez mais pressionada

Após o pior resultado de sempre do partido, a liderança, em funções há sete meses, está cada vez mais em risco.

No rescaldo das eleições legislativas do dia 30 de janeiro, seis membros da Comissão Política Nacional (CPN) do PAN vieram esta segunda-feira anunciar a sua demissão. Em comunicado, os demissionários queixam-se de um ambiente de "total asfixia política" no partido.

Esta decisão surge dias depois da direção do PAN se ter reunido para discutir o resultado das últimas eleições legislativas.
Uma das decisões que saiu desse encontro foi a de não convocar, para já, um congresso extraordinário - algo contra a qual os demissionários se manifestaram e com a qual justificaram a sua saída. Na opinião dos seis membros que agora saem da direção do PAN, "apenas uma entropia pode justificar a resistência em não querer reconhecer os próprios erros".

O congresso, referem, devia ser convocado "com vista à discussão e balanço das eleições legislativas de 2022 e retificação dos estatutos", uma vez que o Tribunal Constitucional indeferiu, no início de fevereiro, as alterações estatutárias aprovadas em junho passado. Esta decisão faz com que fiquem de fora de direção nacional "metade dos seus dirigentes por inerência, que foram nomeados por todas as assembleias distritais e regionais do partido". Isto significa que estes membros não têm qualquer direito a votar nas reuniões do órgão.

Após ter perdido três dos quatro deputados eleitos em 2019, o partido conseguiu eleger apenas a líder Inês Sousa Real como deputada nas últimas legislativas. Segundo os demissionários, a direção mostrou "falta de maturidade" e "lucidez política" na leitura dos resultados. Acusam a Comissão Permanente - o órgão mais restrito de direção executiva no topo da hierarquia do partido - de "pouca disponibilidade" para debater as causas para o resultado eleitoral, "cerrando fileiras às opções divergentes", consideram.

O comunicado, assinado pelo ainda deputado Nelson Silva em parceria com os porta-vozes dos Açores e Madeira e vários outros representantes e membros de comissões distritais e regionais, acusa também a direção do partido de ter tido "uma estratégia de comunicação e design falhadas e completamente contrárias às soluções internas que tinham sido bem sucedidas no passado". Além disso, entendem também ter havido "uma mensagem de posicionamento político difuso após eleições", uma "aposta num discurso de campanha monotemático e repetitivo", com "pouco espaço deixado para o PAN continuar a ser disruptivo".

Os dirigentes demissionários criticam também a estratégia de ouvir os membros do partido através de "assembleias de filiados", defendendo que se trata de uma estratégia pouco "democrática e politicamente consequente", visto que "só o congresso" permite traçar consequências políticas, como a continuidade de Inês Sousa Real à frente do PAN.

Segundo o comunicado, a direção do partido "necessita de ser reavaliada" e, ao fugir "ao escrutínio em congresso", acaba por não se pautar "por uma metodologia verdadeiramente transparente nem democrática".

De acordo com o comunicado, "os dirigentes demissionários, independentemente da ponderação subjetiva de cada um dos fatores elencados" consideram que, ao não haver um congresso, "o partido estará sempre numa fragilidade contínua", algo "insustentável".

Reagindo, Inês Sousa Real referiu que a "direção não terá qualquer tipo de receio da ir a congresso" e apelou à união dentro do partido, dizendo não ser altura de haver uma "dissidência". Ainda assim, não afasta a possibilidade de ser realizado um congresso, mas salientou que "devem ser primeiramente auscultadas as bases", relembrando que esta proposta foi aprovada na CPN com apenas um voto contra. Por isso, as demissões anunciadas "vêm denotar que há uma agenda pessoal" por trás destas decisões.

rui.godinho@dn.pt

Notícia retificada com o número correto de demissionários (seis e não dez, como inicialmente avançado) às 14.19 horas do dia 8/2/2022.

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