Negociações do Governo com esquerda e PAN vão prosseguir até à votação na generalidade

As linhas gerais da proposta do Governo para o OE2022 foram apresentadas aos partidos pelo ministro de Estado e das Finanças, João Leão. Primeiro-ministro confia na viabilização do Orçamento, mas Bloco fala em "parcas respostas" do executivo.

No dia em que o primeiro-ministro António Costa reafirmou a confiança num desfecho positivo das negociações em torno do Orçamento do Estado para 2022 (OE2022) e disse esperar poder voltar a contar com o Bloco de Esquerda para a sua viabilização, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares afirmou que as negociações do Orçamento entre Governo, PCP, PEV, Bloco, PAN e deputadas não inscritas vão prosseguir até à votação na generalidade, que está prevista para dia 27.

Este calendário foi comunicado por Duarte Cordeiro após o Governo ter estado reunido com os partidos com representação parlamentar sobre as linhas gerais da proposta de Orçamento do Estado para 2022.

De acordo com o membro do Governo, tal como aconteceu em anos anteriores, as negociações do Orçamento do Estado não terminam com a entrega da proposta no parlamento por parte do executivo, o que acontecerá já na próxima segunda-feira, e vão prolongar-se até à votação na generalidade, que está marcada para o dia 27 deste mês.

No plano político, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares defendeu a tese de que, entre o Governo, os partidos à esquerda do PS e o PAN, "não há afastamento em termos de opções globais" para o Orçamento do próximo ano. "Agora, cada um dos partidos tem o seu caderno reivindicativo e atribui prioridades distintas em relação a matérias específicas", apontou logo a seguir.

Confrontado com as críticas de Bloco de Esquerda e PCP ao atual estado das negociações do Orçamento, Duarte Cordeiro procurou desdramatizar e referiu-se ao período de campanha para as eleições autárquicas de 26 de setembro.

"Com uns partidos tivemos início de conversa já após as eleições autárquicas, mas com outros tivemos a continuação do trabalho no sentido de procurar os entendimentos necessários para a viabilização do Orçamento. Estamos neste momento ainda em conversações com os partidos, o Orçamento ainda não está fechado, vai haver uma reunião do Conselho de Ministros na sexta-feira e a proposta entrará no parlamento na próxima segunda-feira", disse.

Segundo Duarte Cordeiro, caso se atente ao calendário das negociações do ano passado, "verifica-se que a negociação prosseguiu até ao momento da votação da proposta na generalidade".

"Portanto, para este ano, não é de esperar algo diferente do que aconteceu no ano passado. Pelo contrário, até tendo em conta os constrangimentos de calendário por causa das eleições autárquicas. Da nossa parte, é expectável termos um calendário semelhante ao do ano passado e que as conversas com os partidos prossigam durante as próximas semanas, até à votação na generalidade", reforçou.

Em relação às negociações do Orçamento com as forças políticas à esquerda do PS, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares considerou que "têm decorrido com normalidade".

"O Governo tem feito a sua parte, analisando as propostas que são apresentadas. Obviamente, quando entregar a proposta de Orçamento na próxima segunda-feira, espera que muitas destas ideias já estejam refletidas nas opções globais", assim como matérias específicas que já estavam previstas no Orçamento para 2021.

Ou seja, para Duarte Cordeiro, o processo de negociação do Orçamento para 2022 será "nem mais fácil, nem mais difícil do que o do ano anterior".

No plano político, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares defendeu que o Governo "tem opções globais" que caracterizam a sua política orçamental.

"Essas opções globais não nos afastam. Há matérias específicas que os partidos possuem e que têm apresentado ao longo dos últimos anos, podendo ou não condicionar as suas opções. Mas não podemos dizer que nos afastam as opções de aumento do rendimento disponível das famílias, a aposta no reforço da qualidade dos serviços públicos ou no investimento público", argumentou o membro do executivo.

Por isso, de acordo Duarte Cordeiro, "não há um afastamento ao nível das opções globais estratégicas em relação aos partidos" com quem o Governo está a negociar a viabilização do Orçamento.

"Depois, como se sabe, os partidos têm cadernos reivindicativos específicos, têm prioridades específicas. E é nessas matérias que nós podemos chegar ou não a um entendimento, tal como aconteceu no ano passado. Com uns partidos conseguimos chegar a um entendimento, com outros, apesar de ser nosso desejo, não conseguimos", acrescentou, numa alusão ao Bloco de Esquerda.

Costa reafirma otimismo e diz esperar voltar a contar com BE

O primeiro-ministro António Costa reafirmou a sua confiança num desfecho positivo das negociações em torno do Orçamento do Estado para 2022 (OE2022) e disse esperar poder voltar a contar com o Bloco de Esquerda para a sua viabilização.

Na terça-feira, em declarações à imprensa na Eslovénia, à chegada para uma cimeira europeia, Costa manifestou-se convicto de que as conversações com os parceiros parlamentares estão "a correr bem", tendo hoje o líder parlamentar do Bloco contrariado a "veia otimista" do chefe de Governo, ao apontar que o processo está longe de ter sucesso e que "esse otimismo do primeiro-ministro mostrou muitas vezes não ter qualquer adesão à realidade".

Confrontado esta quarta-feira em Kranj com a posição do Bloco, António Costa não só reiterou a sua confiança num acordo, como disse mesmo esperar que este ano não suceda o que aconteceu no ano passado, quando o Bloco "se furtou a contribuir positivamente para o orçamento, tendo votado ao lado da direita".

"A pergunta que me fizeram ontem [terça-feira] era se eu estava confiante. Eu disse que sim e mantenho-me confiante. E creio que isso é estar bem conectado com a realidade, a não ser que essa realidade se tenha alterado de uma forma que eu desconheça", declarou.

Questionado sobre se as posições de Bloco, mas também do PCP - que hoje considerou ainda "mais incompreensível" que o executivo diga não ter margem para aumentar salários na administração pública quando prevê um crescimento económico de 5,5% para 2022 -, não deixam antever negociações mais duras do que nos anos anteriores, o primeiro-ministro disse que tudo passa por tentar conciliar "prioridades".

"Bom, cada um tem as suas prioridades. Estas são as do Governo: é apostar nas novas gerações, é apostar na classe média, é apostar na melhoria do investimento publico, é apostar na melhoria dos serviços públicos. O Bloco de Esquerda tem anunciado quais são as suas prioridades, e obviamente os acordos dependem da forma como conseguimos conjugar todas as prioridades", começou por observar.

"Até agora, em 2016 foi difícil e conseguimos, em 2017 foi difícil e conseguimos, em todos os anos foi difícil e conseguimos quase sempre. No ano passado, como é sabido, o BE entendeu não dever participar no esforço que era absolutamente essencial naquele momento único de pandemia, de grande pressão sobre as nossas finanças, e furtou-se a contribuir positivamente para o orçamento, tendo votado ao lado da direita no orçamento", lembrou.

Costa sublinhou todavia que, "felizmente, o Bloco de Esquerda parece estar com uma posição diferente este ano".

"Assim espero que seja e que, portanto, este ano não tenhamos só o contributo do PCP, do PAN, do PEV e das deputadas não inscritas para a viabilização do orçamento e que possamos voltar a contar com o BE. Mas enfim, aí é o BE que tem de falar por si, não posso eu falar pelo BE", concluiu.

Relativamente às previsões de crescimento para este ano e o próximo, Costa confirmou que "o cenário macroeconómico foi hoje partilhado pelo ministro das Finanças com todos os partidos", e, neste momento, o cenário macroeconómico com que o Governo está a trabalhar "prevê de facto um crescimento de 4,6% este ano e 5,5% no próximo ano", cumprindo assim o objetivo fixado de ter um crescimento de 10 pontos percentuais nestes dois anos, e portanto chegar ao final de 2022 "já numa situação melhor" do que a que havia em 2020, quando a pandemia atingiu a Europa e Portugal.

"Se estas previsões se confirmarem, significa que conseguiremos ter uma recuperação muito forte da nossa economia. Neste quadro, é evidente que a política de rendimentos tem de ser vista, não como um entrave ao crescimento, mas também como um contributo positivo para o investimento. Eu insisto: foi a viragem da página de austeridade que permitiu dar às famílias melhores condições de confiança e agentes económicos que permitiu crescimento sustentado desde 2016 e voltar a convergir com a UE", disse.

BE diz que negociações estão longe de ter sucesso

O líder parlamentar do Bloco de Esquerda contestou, após o encontro com o Governo sobre as linhas gerais do Orçamento do Estado para 2022, o otimismo manifestado pelo primeiro-ministro sobre as negociações do Orçamento para 2022, contrapondo que há "parcas respostas" do Governo e que o processo está longe de ter sucesso.

Esta posição foi transmitida por Pedro Filipe Soares no parlamento, depois de o Bloco de Esquerda ter sido recebido pelo Governo, numa delegação encabeçada pelo ministro de Estado e das Finanças, João Leão, sobre as linhas gerais da proposta de Orçamento do Estado para 2022.

Perante os jornalistas, o líder parlamentar do Bloco de Esquerda começou por contestar declarações proferidas por António Costa, na terça-feira, na Eslovénia, sobre o atual estado das negociações em torno da proposta do executivo de Orçamento para o próximo ano.

"Essa é a veia otimista do primeiro-ministro, porque no que toca a questões concretas ainda há muito trabalho para fazer. Esse otimismo do primeiro-ministro mostrou muitas vezes não ter qualquer adesão à realidade", declarou.

Na perspetiva do líder parlamentar do Bloco de Esquerda, a reunião de hoje, no contexto em que foi convocada pelo executivo, "não trouxe novidade nenhuma, nem desbloqueou problemas que estão em cima da mesa".

"Esperamos que nos próximos dias existam outras reuniões que possam ter essa consequência. No que toca às negociações, elas estão ainda muito longe de ter algum sucesso, pelo menos no que respeita ao Bloco de Esquerda", salientou.

Para Pedro Filipe Soares, é necessário que o otimismo já manifestado pelo líder do executivo "tenha alguma consequência da parte do Governo para que possa ter também alguma consequência na vida das pessoas".

"O Bloco de Esquerda já identificou matérias importantes para o próximo Orçamento do Estado, em particular na defesa da estabilidade da entrada no trabalho por parte dos jovens, a garantia de direitos laborais -- matérias que indicámos como fundamentais -, ou a defesa dos serviços públicos, designadamente na saúde e na educação. Tratam-se de matérias que servem para desbloquear alguns dos pontos que estão neste momento a servir de bloqueio nestas negociações do Orçamento e que esperamos que, mais cedo do que tarde, possam ser resolvidas", apontou.

Pedro Filipe Soares advertiu depois que encara "com dificuldade algumas intransigências do Governo em matérias já sinalizadas há muito tempo" pela parte do Bloco de Esquerda.

"Essas prioridades sinalizadas pelo Bloco continuam a ter uma parca resposta da parte do Governo. Não temos todo o tempo do mundo, mas temos ainda algum tempo para que o Governo possa rever as suas posições, tendo em vista que exista um Orçamento que corresponda às necessidades do país e, acima de tudo, corresponda a um virar de página da pandemia da covid-19, numa retoma económica que se quer com direitos e com futuro para os mais jovens", completou.

Pela parte do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares acentuou que "há toda a disponibilidade" para continuar a negociar com o Governo uma eventual viabilização da proposta de Orçamento.

"Da parte do Governo falta haver um trabalho e uma consequência destas negociações. Pela nossa parte, temos toda a abertura para a qualquer momento nos sentarmos à mesa com o Governo. Sempre o fizemos e os canais de contacto estão mais do que estabelecidos há anos. Está na mão do Governo fazer essa escolha", sustentou.

Confrontado com a posição do PSD de que este Orçamento está preparado para ser negociado à esquerda, o presidente da bancada bloquista respondeu: "Não há aqui um esquerdómetro para medir o Orçamento do Estado".

"Não é no esquerdómetro que validamos o Orçamento, mas nas consequências que tem na vida das pessoas. Nesse aspeto, ainda falta caminho para ser um bom Orçamento do Estado", acrescentou.

PSD diz ter ficado preocupado com linhas gerais do Governo

O PSD afirmou que saiu da reunião com o Governo "mais preocupado" do que entrou, dizendo que nem sequer foi apresentado ao partido o cenário macroeconómico completo.

"Não nos foi apresentado todo o quadro macroeconómico, o que esta reunião deixa muito claro é que saímos daqui mais preocupados do que entrámos", afirmou o vice-presidente da bancada do PSD Afonso Oliveira, no final de uma reunião de cerca de meia hora com o ministro das Finanças e o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, no parlamento.

Afonso Oliveira disse mesmo que, pelo que foi apresentado ao PSD, o documento estaria "numa fase embrionária" e, questionado se tal se deveria a ainda decorrerem negociações com os partidos à esquerda, respondeu afirmativamente.

"Para nós isso é claro, não que isso resulte da reunião com o Governo, resulta da incapacidade do Governo de nos apresentar o quadro macroeconómico total, foram apresentadas algumas linhas gerais sobre as quais não nos iremos pronunciar", afirmou.

Questionado sobre os sinais prometidos pelo primeiro-ministro neste Orçamento para a classe média e o investimento público, Afonso Oliveira respondeu: "Não ficámos com essa evidência".

"Na segunda-feira analisaremos e avaliaremos o que é apresentado pelo Governo", disse, recusando-se a antecipar o sentido de voto do PSD antes de conhecido o documento, o que acontecerá na próxima segunda-feira.

Questionado por que razão o PSD se diz mais preocupado depois da reunião com o Governo, Afonso Oliveira salientou que "o país vive uma situação difícil" na sequência da pandemia de covid-19.

"Haverá necessidade de um Orçamento do Estado que seja capaz de responder a este tipo de necessidades e a necessidade de recuperação do país (...) Saímos preocupados porque conhecemos a política do Governo ao longo destes anos, e percebemos que não foi capaz de responder às necessidades das famílias e das empresas. Não há nenhuma razão hoje para sairmos menos preocupados", justificou.

Quanto ao 'timing' do anúncio do sentido de voto do PSD - que votou contra todos os OE deste Governo, à exceção do Suplementar em 2020, focado na resposta à pandemia, em que se absteve -, Afonso Oliveira referiu que o partido tem sempre reservado essa posição para "o momento certo".

"Na próxima segunda-feira entrará o Orçamento do Estado, nessa altura analisaremos o Orçamento e avaliaremos que políticas e propostas são apresentadas. Hoje não as conhecemos", afirmou, acrescentando que são conhecidas as posições do partido em anteriores documentos "negociados com o PCP e BE".

Afonso Oliveira esteve acompanhado na reunião pela também 'vice' da bancada Clara Marques Mendes e pelo deputado Jorge Paulo Oliveira.

PCP fala em perspetivas de crescimento de 5,5% e questiona ausência de aumentos salariais

O PCP afirmou hoje que o Governo aponta para perspetivas de crescimento económico de 5,5% para o próximo ano, considerando ainda "mais incompreensível" que o executivo diga não ter margem para aumentar salários na administração pública.

"Como é que se compreende, com perspetivas de crescimento económico que este ano são de 4,6% e para o ano podem chegar aos 5,5%, que os trabalhadores da administração pública continuem a perder 11% do seu poder de compra?", questionou o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, após a reunião com o ministro das Finanças e o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, na Assembleia da República.

Questionado se o PCP está mais perto ou mais longe de viabilizar o documento depois desta reunião, João Oliveira afirmou que "os elementos de preocupação" do partido se mantêm.

"Não nos foi transmitido pelo Governo nada que nos permita afastar essa preocupação (...) Neste momento, só podemos sublinhar a nossa preocupação com falta de consideração pelo Governo com os problemas globais do país, que integram o Orçamento, mas vão muito para além disso", admitindo que só depois da apresentação do documento, na segunda-feira, é que o PCP poderá formar uma apreciação que permita definir o seu sentido de voto.

Questionado se ainda existirão reuniões com o Governo antes da entrega da versão final do Orçamento, o líder parlamentar do PCP respondeu afirmativamente: "Há de haver".

CDS-PP apreensivo com carga fiscal e com crescimento este ano de 4,5%

O CDS-PP manifestou esta quarta-feira apreensão face à carga fiscal prevista pelo Governo no âmbito do Orçamento para 2022 e apontou que o executivo prevê para este ano um crescimento de 4,5%, inferior aos projetados 5,4%.

Estas posições foram transmitidas pelo líder parlamentar democrata-cristão, Telmo Correia, e pela coordenadora da bancada centrista para as questões do orçamentais, Cecília Meireles, na Assembleia da República, após uma reunião com o Governo sobre as linhas gerais da proposta de Orçamento do Estado para 2022.

Perante os jornalistas, Cecília Meireles chegou a referir que o Governo aponta para uma meta de 125% em termos de dívida, mas, depois, não confirmou que esse indicador corresponda ao valor estimado para o próximo ano, remetendo então o esclarecimento da questão para o executivo socialista.

A deputada do CDS-PP e ex-secretária de Estado preferiu antes destacar a vertente do crescimento do produto interno bruto (PIB).

"O Governo prevê para este ano um crescimento de 4,5%. Ora, no Orçamento, o que estava previsto era 5,4%. Neste ano, o primeiro trimestre correu de tal forma mal, com os efeitos da pandemia da covid-19, que não vai ser possível recuperar no resto do ano aquilo que estava previsto no Orçamento e que já tinha sido revisto no programa de estabilidade", declarou.

Para a deputada do CDS-PP, em suma, "era essencial que a economia portuguesa tivesse crescido mais este ano".

"Eram necessários estímulos extra, que não passassem pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), mas pela aposta na iniciativa privada. Isto significa que não é o Estado a decidir, através das entidades públicas, onde põe o dinheiro", apontou.

Ainda segundo Cecília Meireles, durante a reunião com o Governo, o CDS-PP procurou obter "garantias de que nenhum contribuinte iria pagar mais impostos em 2022 do que este ano e que haveria um alívio generalizado do IRS".

"Está a falar-se numa revisão de escalões do IRS, que pode significar para alguns - não se sabe quais -- mais ou menos impostos. E a questão do englobamento também nos preocupa muito. O CDS-PP pediu esclarecimentos sobre o englobamento, pediu uma garantia ao Governo de quem ninguém paga mais impostos em 2022 do que em 2021, mas não obteve explicações cabais sobre o englobamento", acentuou.

Perante os jornalistas, Cecília Meireles defendeu "um alívio do IRS e também ao nível do IRC para aumentar a competitividade das empresas portuguesas".

"Mas isso não está em cima da mesa", criticou.

Já o líder parlamentar do CDS-PP preferiu centrar as suas declarações nas questões de fundo de divergência dos democratas-cristãos com o Governo em matéria de política orçamental.

"Existem divergências de opção política que são conhecidas e que não se alterarão neste debate orçamental. Logo à partida é possível registar que, mesmo considerando as circunstâncias da pandemia da covid-19, há uma divergência de fundo em relação àquilo que deve ser o motor da recuperação, o público, ou as empresas", referiu Telmo Correia.

O presidente da bancada do CDS-PP considerou depois que o Governo dá "apenas incidência ao investimento público, o que é uma divergência de fundo".

"Ficam-nos preocupações relativas à proteção dos contribuintes, das famílias e de setores específicos dentro do público, como são a saúde e a segurança. Aí há muita coisa por conhecer", acrescentou.

PAN pede que otimismo do PM se traduza "em medidas concretas"

O PAN apelou esta quarta-feira para que o próximo Orçamento do Estado seja um documento de "viragem" e que o otimismo do primeiro-ministro se "traduza em medidas concretas", registando algumas aproximações em matéria fiscal e ambiental.

"Este orçamento, no entender do PAN, não pode ser um mero manifesto de vias intenções, tem de ter um plano de ação que garanta a retoma socioeconómica, mas também um orçamento que garanta a viragem do ponto de vista da transição energética e da justiça ambiental", afirmou a porta-voz do PAN, Inês Sousa Real, no final da reunião com o Governo no parlamento para conhecer as linhas gerais do Orçamento.

Questionada sobre o otimismo manifestado pelo primeiro-ministro, António Costa, quanto ao sucesso das negociações com vista à viabilização do Orçamento, a deputada do PAN defendeu que "o otimismo do primeiro-ministro tem de se traduzir em medidas concretas".

"O otimismo do senhor primeiro-ministro não se pode traduzir depois em bloqueios do Terreiro do Paço", alertou.

A deputada registou aproximações com o Governo em matérias de revisão dos escalões do IRS, embora dizendo que o PAN pretende "ir mais além" do terceiro e sexto escalões já previstos pelo executivo, e também em matéria ambiental.

"O Governo assumiu uma reivindicação do PAN: o fim da isenção sobre produtos petrolíferos, pelo menos aqueles que têm por base a energia do carvão. Não haverá aqui um adiar, uma moratória", assegurou.

Quanto ao sentido de voto do PAN, que se tem abstido em Orçamentos anteriores, Inês Sousa Real afirmou que "está tudo em aberto", pedindo também que o documento traduza um maior compromisso na área da Justiça e do combate à corrupção.

PV fala em défice em 3,2%, dívida pública em 123% e desemprego a cair para os 6,5%

O PEV adiantou que o Governo lhe comunicou um cenário macroeconómico para o próximo ano com previsões de redução do desemprego para 6,5%, um défice de 3,2% e com a dívida pública a baixar para 123%.

Estes dados do Governo foram transmitidos pelo deputado José Luís Ferreira, após uma reunião com o executivo no parlamento sobre o cenário macroeconómico da proposta de Orçamento do Estado para 2022.

Segundo José Luís Ferreira, durante a reunião, a delegação do Governo, liderada pelo ministro de Estado e das Finanças, João Leão, comunicou que se prevê que "este ano o emprego atinja níveis pré-pandémicos, com perspetivas de melhorar no ano que vem, passando de 6,8% no final de 2021 para 6,5 em 2022".

Em relação ao crescimento da economia, segundo o PEV, "o Governo prevê que seja de 4,6% este ano e de 5,5% em 2022".

"A previsão de inflação é de 0,9%, com o investimento público a crescer 30%. A dívida pública situar-se-á em 123% do PIB (Produto Interno Bruto) e o défice baixará de 4,5% para 3,2% em 2022", adiantou José Luís Ferreira, citando dados que lhe foram comunicados pelo executivo.

Perante estes números, José Luís Ferreira defendeu que, "se há crescimento da economia, esse crescimento tem de ter reflexos na vida material das pessoas, desde logo ao nível do poder de compra".

"Se não valorizamos os salários quando a economia está a crescer, então nunca é oportuno valorizar os salários", advertiu.

O dirigente do PEV manifestou-se depois apreensivo por "a corrida" pela descida do défice poder comprometer as "respostas que são necessárias dar no Orçamento do Estado aos problemas do país".

"Na semana passada, o PEV transmitiu já ao Governo os eixos que considera fundamentais ao nível do Orçamento do Estado: Travar as alterações climáticas, investir na despoluição dos recursos hídricos e na resolução de diversos passivos ambientais, e combater a pobreza, designadamente aumentando a justiça social com o aumento da progressividade do IRS", referiu.

José Luís Ferreira falou ainda em exigências de "serviços públicos para todos e uma aposta séria na produção nacional". "Até agora, não está mais nenhuma reunião prevista com o Governo", acrescentou.

Iniciativa Liberal anuncia voto contra

O presidente da Iniciativa Liberal anunciou que o partido votará contra o próximo Orçamento do Estado, acusando o Governo de não fazer ideia de "como pôr o país a crescer" nem como controlar a despesa pública.

"O nosso sentido de voto vai ser contra este Orçamento que não tem qualquer espécie de ambição relativamente ao crescimento do país", anunciou o deputado único João Cotrim Figueiredo, no final da reunião com o Governo sobre as linhas gerais da proposta de Orçamento do Estado para 2022, na Assembleia da República.

Cotrim Figueiredo admitiu que saiu da reunião com o executivo "mais preocupado" do que entrou.

"Já tínhamos dito que o Governo dava mostras de que não fazia ideia de como fazer o país crescer, hoje fiquei preocupado [porque] também não faz ideia como há de controlar a despesa pública", afirmou, dizendo ter uma sensação de 'dejá vu' em relação à crise financeira de 2011.

O deputado e presidente da IL acusou o Governo de agir "um bocadinho como a viúva alegre, acha que pode gastar tudo e mais alguma coisa, alavancado em fundos que vêm de fora".

"O crescimento da massa salarial da administração pública excede os 5%, sem que se veja qualquer reflexo na qualidade dos serviços públicos. Não é só falta de noção, é falta de controlo que me preocupou francamente", disse.

Para Cotrim Figueiredo, o "descontrolo da despesa pública" levará o governo a "continuar a acumular défices que só poderão ser resolvidos com mais impostos" sobre os portugueses.

"As negociações com a esquerda só podem piorar esta perspetiva", alertou.

Já sobre a prometida atenção aos jovens e à classe média, a IL diz ter recebido na reunião "pouquíssimos dados" e temer que o próximo Orçamento apenas contenha "pequenas massagens" ao nível do IRS jovem ou do programa Regressar.

Cotrim Figueiredo contabilizou as taxas de crescimento previstas pelo Governo para este ano (4,6%) e para o próximo (5,5%) e descontou o valor que Portugal caiu em 2020 (8,4%).

"No final de 2023, vamos estar com 2% a mais do que tínhamos em 2019, se não fosse o Programa de Recuperação e Resiliência Portugal, que vale cerca de 4%, Portugal estaria mais pobre em 2023 do que estava em 2019. Querem uma noção melhor de como se desperdiça riqueza e fundos públicos?", questionou.

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