O "senhor do bolo", um discurso à Fidel e Freixo de Espada à Cinta

A noite foi de gala, o anfitrião Balsemão e Passos o ator principal. As bases estiveram presentes. Os barões também.

A Aula Magna tem sido o ponto de encontro das esquerdas, mas ontem foi invadida por uma mancha laranja. As bases chegaram de autocarro, os barões em carros pretos e ladeados de seguranças. O anfitrião da noite foi o fundador do PSD, Francisco Pinto Balsemão, que à entrada prometia um PSD "em grande forma".

Foi ao patrão da Impresa e presidente da comissão das comemorações dos 40 anos do PSD, Pinto Balsemão, que coube organizar a gala, qual cerimónia dos Globos de Ouro da SIC em tons de laranja. Ainda antes das nove da noite, as militantes social-democratas passeavam pela red carpet, enquanto os homens ajeitavam as gravatas. Umas cor-de-laranja, outras nem por isso.

À partida, poucas novidades, tirando o ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, de regresso a um evento partidário 10 anos depois, dizia estar a chegar a uma "reunião de família" do seu PSD.

A cerimónia começou pouco depois da hora prevista. A sala ainda estava cheia de quatros e zeros, como se o PSD fizesse 40 anos (Não fazia: eram já 41). Passaram vídeos de homenagem a Balsemão, a Sá Carneiro, e chamaram-se ao palco os líderes das distritais, os organizadores dos 40 anos do partido e fez-se referência aos ex-líderes presentes. Um a um: aplausos e mais aplausos.

A Balsemão coube o primeiro discurso da noite e, além de rasgados elogios a Passos Coelho, anunciou propostas para um programa de governo do partido e coube-lhe a alfinetada ao CDS. Apontou 12 desafios programáticos e disse que se forem cumpridos o PSD "demonstrará ainda mais claramente que existe por si próprio, independentemente das coligações que, em cada momento histórico, tenha de fazer".

Não raras vezes Balsemão foi interrompido pelos gritos de "PSD, PSD, PSD", ao mesmo tempo que mais de 1500 militantes sociais-democratas faziam o típico V de vitória com o indicador e o dedo médio em riste.

O "senhor do bolo"

Depois do Hino do PSD cantado ao vivo, Balsemão pode reavivar os momentos do "senhor do bolo" - célebre sketch do humorista Bruno Nogueira numa gala dos Globos de Ouro da SIC. Desta vez, Balsemão voltou a ser o "senhor do bolo", responsável por soprar as velas dos 41 anos do partido (agora sim, a idade que o PSD fazia ontem, 6 de maio). Cantaram-se os parabéns ao partido e os zeros transformaram-se em uns. O stand up ficou para Passos Coelho.

O discurso de Passos Coelho foi o mais longo da noite. Não bateu os recordes de Fidel Castro - ex-líder cubano conhecido pelas suas longas intervenções - mas esteve 75 minutos a falar em palco. E as aproximações a Fidel param aí. Ou talvez não. "O 25 de Abril não é de ninguém é do povo", disse a certa altura no discurso, visando os que criticaram a data que escolheu para firmar a coligação com o CDS.

Mas em 75 minutos cabe muita coisa e o PS foi muitas vezes o alvo. Às vezes até num tom de stand up comedy. Passos brincava com o que sugeria ser alguma ingenuidade das propostas do programa macroeconómico do PS, de querer baixar impostos sem redução de despesa, de ser excessivamente otimista. E completava com entoação de comediante: "E dizem isto sem se rirem".

Um discurso à líder da jota?

Já antes Passos Coelho tinha feito rasgados elogios a Durão Barroso e ao seu regresso ao partido. Isto, claro, ressalvando que não era nenhum desprimor para os outros ex-líderes presentes. Na sala estavam Marques Mendes, Manuel Ferreira Leite (que Passos citou) e os dois potenciais candidatos presidenciais que passaram a noite sentados lado-a-lado por imposição do protocolo: Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa. No final, o professor viria a elogia o discurso de Passos, embora dissesse que a intervenção do líder fazia lembrar um discurso de líder da JSD. Naïf ou só jovial? Fica a dúvida.

No tal longo discurso, sem dizer o nome do ex-primeiro-ministro Passos teve ainda tempo para se meter com Sócrates ("não nos intrometemos no Estado de Direito, na justiça, na Policia Judiciária nem no Ministério Público") e com António Costa, devido à SMS enviada a um jornalista do Expresso ("nunca ninguém veio dizer que o PSD quis pôr a comunicação social na ordem").

Autógrafos na biografia

Passos disse ainda que não queria falar de Presidenciais, mas quis falar do Presidente, elogiando a ajuda que Cavaco Silva tem dado ao governo ao longo destes quatro anos de mandato. Isto depois da sua biografia autorizada falar na atuação do chefe de Estado e de este ter prometido a sua versão para março de 2016.

O livro de Passos Coelho esteve aliás à venda na Aula Magna, o que até atrasou Passos Coelho quando quis chegar ao carro ao final da noite, pois foi chamado a dar vários autógrafos ao livro ("Somos o que escolhemos ser")da autoria de Sofia Aureliano, assessora do PSD.

Quando o discurso acabou cantou-se, como habitual nos comícios, o hino de Portugal. Esta festa de aniversário já foi um comício de pré-pré-campanha. Pouco depois da meia-noite, Passos abandonava finalmente a cidade universitária. Mais longa seria a viagem de alguns militantes que entravam nos autocarros, como a que interrompeu o discurso de Passos. Quando o líder agradecia aos que vieram de longe, ouviu-se um grito por toda a Aula Magna: "Freixo de Espada à Cinta!"

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