O homem que junta na mesma sala banqueiros e revolucionários

Mário Soares juntou quase 300 amigos à sua volta, de quase todos os quadrantes políticos. Há dias, disse a António Costa que agora é que vai deixar a política. O líder do PS recordou que Soares fez a mesma promessa em 2004.

Só mesmo Mário Soares conseguiria juntar na mesma sala um antigo banqueiro às voltas com a justiça, Jardim Gonçalves, fundador do grupo BCP, com um antigo líder revolucionário, Arnaldo Matos, fundador do MRPP, para quem todos os banqueiros são a personificação do mal na terra.

Separados por algumas mesas, Jardim Gonçalves e Arnaldo Matos foram duas das quase 300 pessoas que ontem se juntaram num restaurante de Lisboa a celebrar os 90 anos do "pai fundador" do PS - e, para muitos, além disso, "pai fundador" da democracia portuguesa, da integração na UE, da descolonização - enfim, de tudo ou quase tudo o que de importante aconteceu em Portugal no último quarto do século XX.

Soares levou à sua festa um ex--presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, dois ex-líderes do CDS, Freitas do Amaral e Adriano Moreira, dois ex-líderes do PSD, Francisco Pinto Balsemão e Pedro Santana Lopes, além de um ex--coordenador do Bloco de Esquerda, João Semedo (que disse que "é com homens como Mário Soares que se defende mais a liberdade e a democracia. Não estão nunca suficientemente defendidas, todos os dias temos de as defender, os 90 anos de Mário Soares são uma ótima oportunidade para isso").

Soares conseguiu ter quase todo o país político à sua volta durante o almoço - na verdade, o único partido sem representação foi o PCP (embora ex-comunistas fossem alguns, começando pelo próprio Soares e acabando no ex-líder da CGTP, Manuel Carvalho da Silva).

Além do mais, outros amigos - das artes, do jornalismo, das ciências - como o neurologista António Damásio, a quem agradeceu ter--lhe salvo a vida da encefalite que o atingiu há dois anos - e a família toda, a mulher, os filhos e os netos, dois dos quais, Lilá e Jonas, até lhe leram discursos de homenagem. "Não têm o direito de duvidar do meu amor", disse-lhes Soares, virado para a sua mulher, Maria de Jesus Barroso, enquanto lhe perguntava há quanto tempo viviam juntos ("66 anos", respondeu-lhe ela). Aos amigos da política disse que "muitos são socialistas, outros não são, uns são sociais-democratas, outros democratas-cristãos". "Mas isso, acrescentou, não tem importância nenhuma, somos amigos sempre e lutámos juntos, unidos pela liberdade e pela democracia e pelo respeito. E é isso que hoje não temos", declarou.

Leia mais na edição impressa ou no e-paper do DN

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG