"O caminho não é a revolta, mas a mudança"

O antigo Presidente da República Mário Soares disse hoje que o poder legítimo, porque eleito, deve perceber que "o que se está a passar com as populações é mais importante do que as dívidas e interesses dos mercados".

À margem de uma conferência sobre Portugal e a Europa, na Universidade de Aveiro, Mário Soares disse aos jornalistas esperar que a greve geral de quinta-feira decorra de forma pacífica, mas considerou "muito sério" o que se está a passar em Portugal, com o aumento do desemprego e da pobreza.

"Há pessoas a passar muito mal. O caminho não é a revolta, mas a mudança. Espero que quem detém o poder legitimamente, e que tem de ser respeitado nessa qualidade, perceba que o que se está a passar com as populações é mais importante do que as dívidas e os interesses dos mercados", afirmou.

Relativamente a um anunciado reforço policial nas zonas de maior concentração de pessoas, Mário Soares considerou que a polícia tem razão para tomar medidas, mas deve atuar "com calma".

O antigo Presidente da República criticou a política de austeridade que tem sido imposta aos portugueses e a política de privatizações, "vendendo o património nacional, sem discussão". Mostrou-se mesmo contrário à privatização dos estaleiros navais de Viana do Castelo: "Vai ser um sarilho, porque vai ficar muita gente desempregada e prejudicar a cidade de Viana do Castelo. E se calhar Portugal vai ganhar muito pouco com isso".

Na conferência, o fundador do Partido Socialista, também ex-primeiro-ministro, comentou que "a Europa vai mesmo muito mal e está em decadência", culpando em parte os partidos democratas-cristãos, que "esqueceram a doutrina social da Igreja que inspirou a construção do Estado social".

"Nos últimos tempos somos governados sobretudo por democratas-cristãos que começaram a ter vergonha e transformaram-se em partidos populares ultraconservadores e neoliberais", disse, afirmando a esperança de que "vai haver mudanças com as eleições de abril em França, o que pode influenciar o que se vai passar a seguir" na Europa.

"Se isso acontecer terá reflexos imediatos na famigerada 'troika' e nesta situação de subserviência de Portugal, em que somos uma espécie de protetorado da 'troika', o que me custa muito como português e patriota", declarou.

Mário Soares sustentou que "a política de austeridade não leva a coisa nenhuma" porque empobrece a classe média e deixa os trabalhadores em situação pior. "Esses cortes servem para quê? Ainda não o sabemos. O que é preciso é que a economia trabalhe e que o desemprego diminua para que haja menos pobres e menos dificuldades", concluiu.

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