Moreira da Silva. Uma reflexão sobre liderança e desafios políticos em "tempo de vésperas"

Ex-vice-presidente do PSD publicou Dire(i)to ao Futuro, onde traça o perfil do que deve ser um bom líder e a agenda de desafios para os próximos anos, numa altura em que se perspetiva uma disputa da liderança no partido.

Aponta os atributos de uma boa liderança, define os erros que não se devem cometer no curto prazo e as grandes linhas políticas a seguir nos próximos anos. Nas páginas de Dire(i)to ao Futuro só não é nomeado um líder que corresponda ao perfil. Se pode ser o autor, Jorge Moreira da Silva, é uma questão que o próprio deixa sem resposta. A pouco mais de duas semanas das eleições autárquicas, o ex-ministro do Ambiente e antigo vice-presidente social-democrata resguarda-se na disputa eleitoral para não falar no futuro. Mas o contexto não podia ser mais sugestivo, numa altura em que se avizinha uma disputa da liderança no PSD.

Jorge Moreira da Silva lançou, na passada semana, Dire(i)to ao Futuro - Por um mundo mais justo, mais verde e mais seguro , uma coletânea de 90 artigos publicados na imprensa nacional (alguns deles no DN) e internacional, ou em publicações especializadas, nos últimos cinco anos. Ao longo das 32 páginas da introdução, o diretor da Cooperação para o Desenvolvimento da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) traça uma agenda para o futuro, apontando os cinco erros a evitar no pós-pandemia. A começar pelo "erro de apenas tentar reparar os danos causados pela pandemia, sem perceber que já estávamos fora de pista antes" . Neste ponto, Moreira da Silva dedica uma atenção particular ao que diz ser "a situação paradoxal em que Portugal se encontra", numa "posição particularmente vulnerável no contexto europeu" e com todos "os problemas estruturais que há décadas nos impedem de crescer", e para quais o país precisa de encontrar soluções estruturais. E o que é que isso significa, em termos concretos? "Portugal precisa de reformas na modernização do Estado, na atração de investimento privado e externo, na qualificação dos mais jovens, na descarbonização da economia e na liderança na revolução energética, na reforma do sistema político, na coesão social e territorial, no combate à corrupção, na fiscalidade mais inteligente e na valorização do capital natural", enuncia ao DN. "Este é um momento único, é um momento de crise global, que tem no contexto português contornos ainda mais exigentes", resume.

E se são cinco os erros a evitar, são oito os desafios para chegar ao que o autor designa como "reabilitar o direito ao futuro", e que tem como um dos principais eixos o combate às alterações climáticas e a adaptação das economias a um desenvolvimento sustentável. "O tempo está a esgotar-se", avisa o antigo ministro do Ambiente de Passos Coelho, alertando que esta é uma década decisiva e o tempo de avançar para "um menu de políticas climáticas que é conhecido há muito tempo e que tarda, em muitos países, por falta de coragem".

Os líderes "servidores"

Definida a agenda, Moreira da Silva aponta as características do que qualifica como "líderes servidores", numa altura em que "a discussão sobre os atributos da liderança é mais relevante do que nunca". Da lista fazem parte princípios como "integridade, transparência, independência, respeito, trabalho, justiça"; encarar a política como "uma missão" e não um jogo; com uma "visão de longo prazo, transcendendo o horizonte temporal do seu mandato; e com capacidade para "mudar e reformar".

Na última segunda-feira, quando lançou o livro na Fundação Gulbenkian, Moreira da Silva tinha na plateia Pedro Passos Coelho e Cavaco Silva - os dois nomes que já apontou como exemplo de "líderes servidores". E António Costa ou Rui Rio, também o são? O ex-ministro do Ambiente deixa a pergunta sem resposta: "Seria muito deselegante". "Sempre que me fazem essa pergunta evito referir protagonistas da atualidade nacional ou internacional, porque não decorreu ainda o tempo de avaliação". Mas dá o exemplo de "Mandela, Obama ou Jorge Sampaio, a quem Portugal e o mundo tanto devem pela integridade, pela visão e pelo humanismo".

E o próprio Moreira da Silva, cabe nesta grelha de atributos? "Procuro rever-me. Não tenho a arrogância de dizer que preencho esses requisitos, não acho que qualquer um de nós esteja em condições de dizer que atingiu toda a aprendizagem necessária, mas procuro orientar-me por esse conjunto de valores. Se consigo ou não, compete aos outros dizer. O máximo que posso dizer é que tento ser aquilo que descrevi".

A nível global, defende, os últimos anos mostram o "risco de lideranças populistas, histriónicas, que polarizam". Face a um "certo esvaziamento programático dos espaços políticos, uma crescente personalização da política, um processo de comunicação cada vez mais rápido, é evidente que a polarização, a radicalização, a construção de muros e não tanto de soluções de conciliação, nos coloca sob o risco ou do populismo ou da superficialidade", diz Moreira da Silva, sublinhado que "isso não é compatível com a exigência do momento". "É importante que as pessoas percebam que a situação global é mais grave que a pandemia, que a situação em Portugal é mais grave do que as consequências sociais e económicas causadas pela pandemia, resulta de problemas que estão connosco há muito tempo e que não podem ser resolvidos com superficialidade, radicalização, com abordagens de curto prazo".

Na apresentação do livro, que coube a Paulo Portas, o ex-vice primeiro-ministro sublinhou que Dire(i)to ao Futuro é publicado "no que parece ser um tempo de vésperas". Do quê, não especificou em concreto. Eventualmente, as próximas semanas já darão a resposta.

susete.francisco@dn.pt

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