Montemor-o-Novo. "Acabou o receio, o medo de represálias internas na Câmara"

45 anos depois, a autarquia comunista passou a ser liderada pelos socialistas. O novo presidente, sem maioria, garante que acabou o tempo dos medos e procura acordos com CDS e PSD. O DN percorre a partir de hoje os sete bastiões históricos que caíram nas eleições autárquicas de 26 de setembro.

O encontro estava marcado para a "avenida junto às bombas da Galp" e o que sugeria ser uma dificuldade normal, conseguir estacionar o carro, acabaria por relevar-se, mais tarde durante a conversa, um dos maiores problemas da cidade alentejana. A solução foi seguir o novo presidente da câmara, Olímpio Galvão, que, conhecedor dos recantos de Montemor [ninguém por lá diz Montemor-o-Novo], nos encontrou um lugar no outro lado da "avenida" - palavra pela qual todos identificam a Avenida Gago Coutinho, que atravessa a cidade a meio, entre as "duas grandes rotundas".

"Montemor é uma terra de passagem. As pessoas passam mas não param. E quanto mais depressa conseguirem fugir da avenida melhor. Está a ver estes camiões todos? São cerca de dois mil pesados de mercadorias por dia a passarem por aqui, muitos deles até com matérias perigosas. Foi-nos comunicado pelos bombeiros que chegam solventes, que vêm de Barcelona para o Porto de Sines, que passam por aqui. A ficha técnica desses transportes e dos solventes diz que se houver um derrame toda a cidade tem que ser evacuada."

Evacuada, a cidade inteira? "Sim, e há também o perigo de esses solventes entrarem nas canalizações." E o que foi feito depois desse alerta dos bombeiros? "Nada, continua tudo igual." Nada? "Nada, até agora tivemos sorte... não aconteceu nada. Toda a insegurança, toda a poluição, é um dos cancros que temos aqui em Montemor. Temos dois rios para despoluir: o Almansor e esta avenida. O Almansor está muito poluído há décadas e a câmara , veja só, tem sido das principais poluidoras, com descargas diretas, muitas vezes sem serem tratadas."
Seguimos avenida acima a pé - Olímpio Galvão quer que vejamos "as obras sem sentido e atrasadas" - e começa a ser uma constante os cumprimentos e os parabéns ao novo presidente de quem na rua passa, até mesmo de carro. E nem as máquinas fotográficas, com que Leonardo Negrão vai fixando a caminhada de três horas, nem o gravador que trago inibem as pessoas de pararem para os cumprimentos e para as perguntas que se vão repetindo. "E quando é que é a tomada de posse?" "Há lugares marcados?" "É porquito no espeto, não é?"

Antes de sairmos da "avenida" a caminho do que "deveria ser o coração de Montemor", Olímpio Galvão recorda a "solução do secretário de Estado adjunto e da Mobilidade", que até lhe parece a melhor, para resolver "este problema gravíssimo". "A proposta era passarmos aqui a avenida, entre as duas grandes rotundas, para a responsabilidade da câmara, porque isto são duas estradas nacionais (a 2 e a 4), com a devida compensação financeira das Infraestruturas de Portugal e depois negociar com a Brisa a passagem dos camiões entre as duas saídas da autoestrada. A gestão CDU preferia uma circular exterior, mas circulares normalmente secam as terras."

Seguimos por ruas vazias com pouco trânsito, mas sem lugares livres para estacionar: está tudo ocupado. "Não tem havido pensamento crítico nem estratégico acerca da gestão do tráfego nem de estacionamentos", diz Olímpio Galvão, que não hesita em arrasar os 45 anos do PCP. "É que aqui não há um transporte público, tem que se chegar de carro a todo o lado. Nós queremos meter um minibus com capacidade para 25 pessoas, um veiculo elétrico. Hoje em dia parar o carro em qualquer lado é um problema. E olhe bem, estamos a uma hora de Lisboa, a uma hora das praias, a uma hora de Espanha, e por vezes demora menos tempo a chegar aqui do que arranjar estacionamento."

"E sabe", diz enquanto passamos o cruzamento da Rua de Aviz com a Rua do Calvário, que mais tarde iremos descer e onde nos encontraremos com dois ex-vicepresidentes da CDU, "eles [o PCP] sabiam que iam perder. Aperceberam-se que a sua base eleitoral, os mais velhos e conservadores, está em queda: é a vida, as pessoas morrem; não conseguiram renovar os quadros do partido, têm cada vez menos jovens; e então ou faziam qualquer coisa de drástico ou perderiam as eleições. E é o que vê: obras e obras para impressionar e inaugurar antes das eleições. Só que o plano deu para o torto com falta de mão de obra dos empreiteiros, falta de cumprimento de prazos, falta de materiais. Há obras que começaram em 2018, que deveriam durar seis meses, e ainda há coisas por fazer. E teve consequências: muitos negócios foram à falência, muitos estão em agonia. É como se costuma dizer: quem mexe nas canalizações, perde as eleições", completa.

Mas estava mesmo à espera de ganhar? "Havia sinais disso. E o murro na mesa que demos há quatro anos funcionou. Tivemos esse atrevimento, fizemos um cartaz que andou aí pelas bocas do país com uma expressão popular de um poeta de Montemor que dizia: "Chiça, porra, que é demais. 40 anos do mesmo: é urgente mudar." Isto era de uns versos que ele tinha dedicado à mulher quando fizeram 30 anos de casados e que era assim [risos]: "Caminhos abençoados entre sorrisos e ais, 30 anos de casado: chiça, porra, que é demais." Era um poeta bem conhecido aqui em Montemor, escrevia para revistas que se faziam aqui, teatros e marchas populares. Com isso abanámos politicamente o concelho, tivemos uma subida de 400 e tal votos e a CDU perdeu 900. Agora ficámos com mais 514 votos do que eles", conta o novo presidente, que não esconde um sorriso quando ouve, naquele instante, de um conhecido que vinha a descer a Rua de Olivença [paralela à do Calvário e que ladeiam o jardim público do "coreto"] um grito: "Viva a liberdade, Olímpio, viva a liberdade."

Paramos na Praça da República. No lado direito, o café mais antigo de Montemor. À esquerda, dois edifícios antigos. "Isto são duas sociedades recreativas, a Carlista, da qual sou músico na banda filarmónica há 37 anos, tocando saxofone. E aquela ali [ficam separadas por uma rua] é a sociedade Pedrista. Eram sociedades rivais, esta [a Carlista] faz este ano 160 anos. É a associação cultural mais antiga do concelho, é a mãe de muitas outras. Aqui seria o coração da cidade, tem que voltar a ser: a Carlista, a Pedrista, o jardim, aquele coreto lindíssimo com uma acústica excelente e o Almansor, que é o tal café central das terras. Aqui é este: um café com nome de rio. Bebemos um café?"

As marcas das antigas casas agrícolas, "os ferros" de madeira, "talvez uns 40 ou 50", estão lado a lado na parede por detrás do balcão. Num dos bancos altos, sentado, no lado de cá, em silêncio, está Joaquim Alvito, que escuta atento as explicações de Olímpio Galvão sobre a antiguidade e os significados de outros tempos presentes por todo lado: o degrau que separava patrões de trabalhadores - no lado de cima sempre quem mandava -, os emadeiramentos, a cabina telefónica e as bifanas. "Evaristo, estás a ouvir? As bifanas daqui são melhores que as de Vendas Novas." "Atão, pois claro...", responde Evaristo, um dos donos do Almansor, homem de poucas palavras. E quantos anos tem este café? Todos hesitam, menos Joaquim Alvito. "Há 75 anos vim eu aqui pela primeira vez, tinha oito anos. Vim aqui com a professora fazer o exame da 4.ª classe. É o mais antigo de Montemor, foi recuperado há 60 anos e está assim como vê."

Joaquim Alvito, 83 anos, "84 já no dia 16 de dezembro", foi presidente da Junta de Freguesia da Vila [atual Nossa Senhora da Vila, Nossa Senhora do Bispo e Silveiras] logo a seguir ao 25 de Abril. "E por três vezes, as três primeiras, fiz nove anos. E fui eu que fiz aqui a primeira sede do Partido Socialista, ali na Rua de Santo António, eu e o Toino Saraiva, que já morreu, o Santanário, o Joaquim Maria Alcácer que tinha ali a loja [risos]... Depois convidaram-se para ser cabeça de lista pela APU e eu disse que sim, afinal isto é tudo Montemor. Ao fim de uma temporada fui expulso do Partido Socialista. "És proibido de entrar ali, na sede", disseram-me. E eu não entrei. Mas ainda fui secretário do governador civil na Assembleia Distrital de Évora... e eu sem saber ler [risos]. Só tinha a 4.ª classe, mais nada. E ele dizia-me assim: "Está tudo escrito?" E eu dizia: "Tuuudo"." E aqui o novo presidente?, pergunta o DN. "Estava agora a reconhecê-lo. Há mudança em todo o lado. 45 anos é muito tempo."

Paredes meias com o velho Almansor está a Casa Veiga Freixo. "Mora aqui agora o Luís Miguel Veiga [cavaleiro tauromáquico] com a esposa. É um prédio muito antigo que chegou a ser Casino de Montemor há mais de 100 anos. Aquela ali, depois da rua, logo ao lado, a casa branca, é também uma casa agrícola forte, que é a Casa Praça Mexia, de famílias muito antigas de Montemor. Estas duas casas tiveram ataques das FP-25 numa noite fatídica. Rebentaram três bombas quase simultaneamente: uma a esta porta, outra naquela porta e outra na "avenida", na casa agrícola dos Vacas de Carvalho. Felizmente ninguém ficou ferido."

Saímos e seguimos em direção ao coreto no centro do jardim público. Ouve-se música, mas não se vê ninguém. Mais próximos percebe-se que é o som de um rádio. "É a rádio aqui da terra. Isto aqui também faz parte da propaganda [da CDU]. A todo o momento passa publicidade à câmara. O "trabalhar pelo povo na defesa dos trabalhadores" está sempre a passar. Esta voz, ouve esta voz? É a voz do partido, é a que faz a propaganda dos carros, é a que trabalha na comunicação da câmara, é a voz da CDU e da rádio também." Metros adiante, na berma da Rua do Calvário, estão dois homens de idade à conversa. Olham, mas logo desviam o olhar. Quando nos aproximamos, os cumprimentos são secos e breves. "Meus senhores, como é que estão?", diz Olímpio Galvão. "Bom dia, jovem", respondem. E nada mais. Quem são?, pergunto. "Dois históricos do PCP, tanto um como outro já foram vice-presidentes da câmara. Estão amargurados." Há muita gente amargurada? "Como 70% da população votou pela mudança, há muita gente feliz, aliviada, mas com uma expectativa muito grande."

Caminhamos em direção ao mercado - "ver a mudança que a CDU não fez tudo mal" -, que fica em frente ao velho quartel dos bombeiros. Reparo nas ruas estreitas e recordo a ameaça de evacuar a cidade se houver algum acidente com os solventes. "Os bombeiros estão aqui no centro da cidade, as saídas podem ser complicadas, principalmente ao sábado, quando as ruas estão cheias de carros estacionados, mal estacionados, de gente que vem aqui fazer compras", diz o novo presidente. Mas e se os bombeiros precisarem mesmo de sair? "É difícil, muito difícil alguma rapidez."

Hoje o mercado está vazio. Conto três vendedores, nenhum cliente. Olímpio Galvão recorda a primeira vinda depois das eleições. "Muita gente que tinha medo de vir falar comigo veio falar-me. Acabou o medo". Medo? "Sim, medo de represálias. Houve gente que me dizia: "Pá, vou votar em ti, mas não contes comigo para a lista. Dou-te apoio, mas dou-te apoio por fora. A minha cara não pode aparecer." A câmara é o maior empregador do concelho, com cerca de 400 trabalhadores, tem um peso muito grande na economia de Montemor e em toda a vida cultural e associativa. Na câmara tive muitas reuniões às escondidas, muitas trocas de mensagens às escondidas, porque havia sempre o receio de represálias internas. E depois foi espalhado o boato de que se nós ganhássemos iríamos despedir pessoal."

E a relação com a anterior presidente? "Acho que nunca conheci a verdadeira Hortênsia Menino, porque ela nunca conseguiu ser ela própria de tanta carga do partido que tinha em cima. Há vereadores mais acérrimos, que nem sequer me cumprimentam e não me deram os parabéns, mas com ela tenho a melhor relação e irei continuar a ter." E acordos com quem? "Com a direita [coligação CDS/PSD], porque conseguimos finalmente derrubar o PCP. Não fazia sentido outra coisa."

artur.cassiano@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG