Militantes socialistas criticam discurso de Cavaco Silva

À chegada para o XIX Congresso Nacional do PS, que decorre até domingo em Santa Maria da Feira, vários militantes socialistas manifestaram-se hoje contra o discurso de Cavaco Silva na sessão solene de comemoração do 25 de Abril.

A presidente do PS, Maria de Belém, defendeu que o Presidente da República criou uma "situação perigosa do desamparo", tendo reduzido o seu "espaço de intervenção" na construção de consensos entre os partidos. "Portugal é hoje um país angustiado e perante esta situação a intervenção de ontem [quinta-feira] do senhor Presidente da República na celebração de Abril criou a tal situação perigosa do desamparo ao assumir-se como um 'primus inter pares' no âmbito da maioria, reduziu o seu espaço de intervenção à construção de consensos entre os partidos que a integram", criticou.

O presidente honorário do PS, Almeida Santos, defendeu que Cavaco Silva "esqueceu-se de fazer algumas críticas a quem governa, porque neste momento o país tem mais razões de queixa de quem governa do que da oposição".

"O senhor Presidente da República ontem [quinta-feira] proferiu um discurso que o país não estava à espera e agora a crítica nos próximos dias vai revelar isso mesmo", disse. Questionado se o chefe de Estado fez um discurso de fação, o fundador do PS devolveu a pergunta: "Se não foi de fação então de que é?".

"Toda a gente ficou surpreendida, metade do parlamento não bateu palmas, que é uma coisa rara no 25 de Abril, portanto ontem o senhor Presidente colou-se a uma fação, é verdade isso, coisa que não tinha ainda feito", acrescentou.

João Proença, ex-secretário geral da UGT, disse ter visto esse discurso "com alguma preocupação". "Acho que tinha uma mensagem subjacente mas foi extremamente mal expressa e acabou por ser um claro apoio ao Governo e não um claro apoio à mudança de políticas, que eu acho que é o que deveria estar implícito no discurso", disse. Na opinião de João Proença, o Presidente está a apoiar o Governo de uma maneira "um bocado excessiva porque devia ser o Presidente de todos os portugueses". "Hoje, cada vez mais, o país precisa do PS enquanto alternativa ao Governo e sobretudo da mensagem do PS, das alternativas que oferece em termos das políticas", defendeu.

Já o ex-ministro da Justiça Alberto Martins considerou que Cavaco Silva "ou é um árbitro e um moderador e um equilibrador das tensões institucionais ou, se quer abandonar essa posição, não serve realmente a função para a qual foi eleito pelos portugueses". "O Presidente da República, politicamente, apoiou o Governo e sustentou as posições do Governo. Deve ser imparcial, isento, equidistante para cumprir as suas funções institucionais de árbitro e moderador. Deu um passo num sentido que o distancia dessa condição", enfatizou.

O vice-presidente da bancada parlamentar do PS José Junqueiro garantiu que o discurso de Cavaco Silva não condicionou o debate dentro do PS mas sim "o próprio Presidente da República". "Como diz o Dr. Pacheco Pereira, o Presidente da República deve ser um pontífice para fazer pontes. Ele não fez pontes e colocou-se do lado do problema, que é o Governo e que é a 'troika'. Aliás, como se sabe, há dois anos ele já se tinha colocado do lado das agências de 'rating'. Só quando mudou o Governo é que começou a criticar as agências de 'rating'", criticou.

Já o líder da bancada parlamentar do PS, Carlos Zorrinho, afirmou que o discurso do chefe de Estado "foi muito clarificador" e que "ficou claro que a maioria de direita e o Presidente da República defendem para Portugal medidas que são medidas de continuação da austeridade". "Os portugueses esperam de nós que nós estejamos à altura deste momento, ou seja, sermos o partido da esperança contra a grande desilusão que foi a coligação reforçada ontem [quinta-feira] entre o Governo e o senhor Presidente da República", sublinhou.

O dirigente socialista António Costa considerou que o Presidente da República teve "uma evolução de pensamento e de postura" desde o encontro com o primeiro-ministro e Vítor Gaspar, após o 'chumbo' do Tribunal Constitucional. O autarca de Lisboa começou por remeter os jornalistas para o que tinha dito na véspera no programa "Quadratura do Círculo", na SIC Notícias, em que disse ter dúvidas sobre o que se passou no encontro entre os três, a 6 de abril, um dia depois do 'chumbo' do Tribunal Constitucional a quatro normas orçamentais.

"Desde esse encontro para cá houve uma evolução no pensamento, na postura do senhor Presidente da República. Tendo a atribuir a esse encontro uma explicação para essa mudança, como essa mudança não foi explicada eu tenho curiosidade, mas essa curiosidade não é exclusivamente minha", afirmou.

Depois dessa audiência em Belém, Cavaco Silva reiterou "o entendimento de que o Governo dispõe de condições para cumprir o mandato democrático".

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG