Maioria dos independentes já exerceram cargos por um partido

Dos 13 presidentes que conquistaram câmaras municipais em movimentos independentes, apenas dois não exerceram cargos políticos inseridos em estruturas partidárias e cinco deles candidataram-se como independentes depois de serem preteridos pelo respetivo partido.

O empresário Rui Moreira, que venceu como independente a câmara portuense, com o apoio do CDS-PP, era presidente da Associação Comercial do Porto.

Por seu lado, António Matos Recto é ainda vice-presidente da autarquia de Redondo e foi eleito pelo Movimento Independente do Concelho do Redondo (MICRE), não lhe sendo conhecida filiação ou cargos partidários exercidos anteriormente.

O MICRE já tinha ganho as eleições em 2005 e em 2009 e foi fundado por Alfredo Barroso - presidente da autarquia há 29 anos - depois de o PCP lhe ter retirado a confiança política.

João Fernando Nogueira, o homem que nos últimos 15 anos foi vice-presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira pelo PS e vereador há 19 anos, venceu as eleições naquela autarquia numa lista independente, depois de ter perdido as eleições diretas no partido, do qual se desfiliou já este ano.

Em Aguiar da Beira, Joaquim Bonifácio roubou a câmara ao PSD para o movimento independente Unidos pela Nossa Terra, mas o novo presidente foi durante cinco mandatos chefe de gabinete de presidentes da câmara eleitos pelo PSD e era atualmente presidente da Junta de Freguesia de Aguiar da Beira.

Matosinhos e Portalegre mantêm os atuais presidentes da câmara, que escolheram recandidatar-se como independentes.

Guilherme Pinto, que ganhou Matosinhos em 2009 pelo PS, venceu em 2013 pelo movimento Guilherme Pinto Por Matosinhos com uma margem folgada sobre o candidato escolhido pelos socialistas para estas eleições, António Parada.

Maria Adelaide Teixeira, que substituiu o social-democrata Mata Cáceres em agosto de 2011, decidiu candidatar-se como independente pela Candidatura Livre e Independente por Portalegre (CLIP) e venceu as eleições, depois das estruturas locais do PSD terem optado pelo médico Jaime Azedo.

Na Anadia, a ainda vice-presidente do executivo do PSD, Maria Teresa Cardoso, venceu José Manuel Ribeiro, escolhido pelo PSD, ao candidatar-se por um movimento independente apoiado pelo atual presidente, Litério Marques.

Por outro lado, Paulo Vistas, o vencedor em Oeiras pelo movimento Isaltino Oeiras Mais à Frente, substituindo o ex-social-democrata Isaltino Morais, é militante do PSD desde 1990, foi presidente da JSD de Oeiras e presidente do PSD de Oeiras, antes de se converter ao movimento independente.

António Anselmo, do Movimento Unidos por Borba (MUB), e que ganhou esta câmara alentejana, já foi presidente das Juntas de Freguesia de São Bartolomeu e de Matriz, em Borba, eleito pelo PS, como independente.

O reeleito presidente pelo Movimento Independente de Estremoz, Luís Mourinha, retirou-se por quatro anos da política após cumprir três mandatos como presidente eleito nas listas da CDU, mas como independente.

O novo presidente de São Vicente (Madeira), José António Garcês, funcionário público, é dissidente do PSD/Madeira e em Santa Cruz Filipe Sousa, outro eleito como independente, foi presidente da Junta de Freguesia de Gaula durante dois mandatos, eleito pelo PS.

Décio Pereira, que venceu como independente a Calheta (Açores), foi eleito nas últimas eleições pelo PSD/Açores como presidente da Junta de Freguesia da Ribeira Seca.

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