Política
31 dezembro 2021 às 07h26

Jerónimo de Sousa promete campanha nas ruas e afasta despedida

Secretário-geral do PCP quer CDU com mais votos e deputados e ataca falta de vontade do PS em entendimentos à esquerda

DN/Lusa

O secretário-geral do PCP garantiu que vai fazer uma campanha eleitoral de contacto nas ruas, dentro dos constrangimentos provocados pelo agravamento da pandemia, e descartou que estas sejam as legislativas da despedida.

Nas eleições autárquicas a campanha de Jerónimo de Sousa foi mais resguardada do que o habitual, com menos contacto com a população pelas ruas. De outubro para agora houve um agravamento da situação pandémica, que deverá persistir até às eleições de 30 de janeiro.

Questionado, em entrevista à agência Lusa, a propósito das eleições legislativas, sobre o que é possível esperar da campanha, o secretário-geral comunista assegurou a presença nas ruas e o contacto com os eleitores, dentro do possível por causa da pandemia.

"Vamos procurar fazer uma campanha pela positiva, com um sentido de esperança, de confiança, vivendo com essa situação sanitária que nos inquieta a todos, mas há que combater o medo", completou.

Na ótica do dirigente do PCP, há um sério "risco de haver um grau de abstenção significativo" se a preocupação em relação à pandemia "se transformar em medo". Para que isso não aconteça, Jerónimo de Sousa disse que tem de haver uma comunicação das medidas e da severidade da pandemia eficaz por parte do Governo, para que o pânico não se instale.

A CDU não vai prescindir, prosseguiu, da uma campanha eleitoral junto das populações, apesar dos constrangimentos com a pandemia.

"Não é incompatível esta articulação entre cuidados de proteção de cada um e de todos, e, simultaneamente, não abdicar de direitos fundamentais, designadamente o exercício da política e da batalha eleitoral (...). Da parte do PCP não haverá nenhuma medida que vise impedir a luta política que o exercício da democracia por parte do povo pode ser feito", elaborou.

É o quinto mandato de Jerónimo de Sousa enquanto secretário-geral do partido, o último renovado em 2020. É o deputado à Assembleia da República com mais anos 'de casa' e foi também eleito deputado à Assembleia Constituinte, em 1975, um ano depois da filiação no PCP.

Questionado sobre se antevê que esta possa ser a última campanha eleitoral às legislativas, o dirigente comunista respondeu que "um dia será", mas esse dia não é já.

O momento atual é de "uma tranquilidade imensa" e Jerónimo de Sousa confessou que dentro do próprio Comité Central há um incentivo e acompanhamento constante dos restantes membros.

No entanto, "ninguém cá fica para semente", reconheceu.

O secretário-geral do PCP estabeleceu como meta da CDU nas legislativas de 30 de janeiro aumentar o número de deputados, mas considerou que a dimensão e força do partido não dependem apenas dos resultados eleitorais.

"O nosso objetivo é tentar reforçar a CDU em votos e em mandatos", referiu Jerónimo de Sousa, em entrevista à agência Lusa, a propósito das eleições, sustentando que o aumento de deputados "dá mais garantias para que sejam encontradas convergências que conduzam à melhoria das condições de vida" e à resolução da "situação do país, que é preocupante".

No entanto, o dirigente comunista não quis quantificar o que poderia ser um mau resultado para o partido: "Não sou capaz de responder a essa pergunta, sinceramente. Somos uma força séria, uma força combativa, uma força de conquista de direito. Esta confiança resulta do percurso, do papel do PCP na Assembleia da República e na sociedade portuguesa (...). Vamos lutar por esse grande objetivo, reforço eleitoral e reforço de deputados".

O secretário-geral do partido não desvaloriza "a avaliação que se tem de fazer de cada resultado eleitoral", mas defendeu que o PCP é uma força política que "não pode ser só medida pelas eleições".

"Há uma influência real, objetiva, no quadro social em que nos movemos. Sabe o que é que as pessoas mais me afirmam? 'Vocês são os que defendem os interesses dos trabalhadores'. Não estou aqui a fazer cena, nem a inventar. É este reconhecimento que, como disse, vai muito para além do resultado eleitoral", concretizou.

Jerónimo de Sousa rejeitou que haja uma desvalorização das eleições. O que há é uma direção diferente da dos partidos "que vivem das eleições, do poder, com as consequências depois nas suas opções políticas e sociais".

Volvidos 100 anos, o partido conseguiu "este acerto entre um partido com uma grande intervenção social e laboral e simultaneamente um grupo parlamentar de grande combatividade, de grande capacidade, que usa a instituição como campo de intervenção, luta e proposta".

Em 2019, a CDU registou o pior resultado em eleições legislativas em percentagem e votos e recuou de 17 para 12 deputados (dez do PCP e dois do PEV), o mesmo número que tinha tido em 2002.

A CDU é atualmente a quarta força política na Assembleia da República e nas últimas eleições legislativas obteve 332.473 votos, ou seja, 6,33% do total de 5.251.064 de eleitores que votaram, de acordo com a informação disponibilizada pelo Ministério da Administração Interna (MAI).

O líder do PCP admitiu ser difícil reeditar um acordo à esquerda, como o da geringonça, após as legislativas de 30 de janeiro, e criticou o PS e António Costa por não estarem interessados nessa convergência.

Em entrevista à agência Lusa, a propósito das legislativas de 30 de janeiro, Jerónimo de Sousa afirmou que a repetição da solução política à esquerda que foi criada em 2015, depois da vitória da direita nas eleições, mas sem maioria no parlamento, "não é previsível que se concretize" e culpou o PS.

Pelos "objetivos programáticos, pelas declarações que têm sido feitas" pelos socialistas, afirmou ainda, o partido liderado por António Costa "não está empenhado nessa convergência em torno de coisas concretas", dando exemplos do passado recente que levou ao voto contra do PCP no Orçamento do Estado para 2022, no parlamento.

"E esta é uma dificuldade objetiva. O PCP não se bate por lugares. O povo português é que decidirá o futuro", declarou.

Apontando aos socialistas, o secretário-geral dos comunistas criticou a "política de direita" que, acusou, o PS tem seguido e que sintetiza numa frase: "Há cada vez menos para quem trabalha e quem trabalhou, e [há] mãos rotas particularmente para o grande capital, designadamente financeiro."

Jerónimo recusa a ideia de que a experiência dos últimos cinco anos tenha sido "um parêntesis" - ideia defendida pelo ministro socialista Pedro Nuno Santos, conotado com a ala esquerda do PS - e afirma-se disposto a convergências à esquerda, mas tendo em conta os "conteúdos concretos", advertindo, à partida, que "não contem" com o PCP para apoiar um "governo que continue a praticar uma política de direita".

Entre os objetivos, além dos eleitorais - mais votos e mais deputados -, o líder comunista promete "lutar" pelos "salários e direitos, proteção social" e colocar a produção nacional e o reforço do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

É preciso, reforçou, "pôr Portugal a produzir como uma ideia-força só comparável com a necessidade do reforço do SNS".

Como tem vindo a dizer nas últimas semanas, Jerónimo afirmou que, antes do chumbo do Orçamento, na origem da antecipação das legislativas, António Costa e o PS quiseram as eleições e corresponsabilizou Marcelo Rebelo de Sousa por ter estado "ao lado daqueles que defendiam eleições e não soluções para o país".

A antecipação das legislativas "não tem grande fundamento a não ser porque o PS também quis estas eleições" e essa é "uma responsabilidade clara do Presidente da República".

O secretário-geral do PCP afirmou que "valeu a pena" a experiência da chamada "geringonça" pelos "avanços e conquistas", e que não teme que os comunistas sejam penalizados nas legislativas de 30 de janeiro.

"Porque havíamos de ser penalizados? Por fazer bem ao povo?", interrogou-se Jerónimo de Sousa, numa entrevista à agência Lusa, a propósito das legislativas, quando questionado se receia uma penalização nas urnas, tanto pelo apoio parlamentar a um Governo do PS desde 2015 como por um efeito de voto útil à esquerda.

Olhando para os últimos anos, o líder comunista faz um balanço positivo da experiência da "nova fase política da vida nacional", como o partido lhe chama, pelos "avanços, passos dados adiante, conquistas no plano dos direitos", como a gratuitidade dos manuais escolares, que "alguns consideravam até impensável", o apoio aos trabalhadores em 'lay off', que "corriam o risco de perder um terço do seu salário".

"Podem fazer juízos de valor que quiserem. Agora, significou muito para a vida dos portugueses devido à intervenção e à proposta do PCP. O que leva a uma conclusão óbvia: agora é necessário reforçar a CDU para conseguir novos avanços", disse, repetindo por mais duas vezes nesta entrevista a defesa do reforço da Coligação Democrática Unitária, que integra PCP e Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV).

Já sobre um eventual "preço" eleitoral da participação dos comunistas na "geringonça", que resultou do acordo à esquerda entre PS, PCP, BE e PEV, de 2015 a 2019, Jerónimo afirma-se de "consciência tranquila" e afirma não recear penalizações.

"Antes pelo contrário é indesmentível e incontornável o papel que o PCP teve", começou por afirmar, deixando de seguida uma série de perguntas retóricas: "Como é que pode ser penalizado quem lutou por aumentos extraordinários nas reformas e nas pensões? Como é que se pode ser penalizado por lutar por um salário mínimo mais justo? Pode ser penalizada a força que levou que a direita sofresse uma derrota pesada nas eleições de 2015?"

Perante um cenário de voto útil à esquerda, no PS, Jerónimo de Sousa admitiu-o, mas insistiu na "consciência tranquila" e na confiança num bom resultado nas eleições de 30 de janeiro.

Se os partidos da CDU forem penalizados por "fazer bem ao povo", então "alguma coisa está errada e não é o PCP, antes pelo contrário", tendo em conta o conjunto de propostas que os comunistas reclamam como suas no período da "geringonça", um conjunto de direitos que continuam a vigorar e com os quais a direita "nunca se vai conformar".

A hora de ir às urnas é, também, "a hora de prestar contas aos eleitores", que são os reformados, os profissionais de saúde, professores, dos "micro, pequenos e médios empresários" que beneficiaram das medidas aprovadas nos últimos anos.