Sócrates: "Falar de traição é insulto ao PS"

Ex-secretário-geral socialista, que apoia António Costa, não poupou nas palavras e responsabilizou o "atual líder" pelos "momentos baixos" dos debates entre António José Seguro e o autarca de Lisboa.

No seu comentário semanal na RTP1, neste domingo, José Sócrates não foi meigo nas palavras com que responsabilizou o secretário-geral do PS pelos "momentos baixos" que tiveram lugar nos dois debates televisivos entre os dois candidatos às eleições primárias socialistas, António José Seguro e António Costa.

Sócrates notou que o "debate político" teve "momentos baixos", sem "elevação e categoria para um debate entre dois camaradas do mesmo partido". E neste momento apontou a "responsabilidade do atual líder" do PS.

A moderadora do programa, Cristina Esteves, notou que o anterior secretário-geral socialista é apoiante de Costa e Sócrates voltou a fazer essa "declaração de interesses". Mas sem tirar o pé do acelerador nas críticas a Seguro, acusou a campanha do atual líder de usar "dois eixos" que merecem um forte reparo.

Por um lado, ao "falar de traição" - como Seguro apontou a Costa, por este ter decidido avançar depois das eleições europeias contra a atual liderança - "é um insulto à história do Partido Socialista". Sócrates afirmou que se trata de "um julgamento moral e de carácter", quando "qualquer candidatura" no PS deve ser entendida como de "serviço ao país".

Por outro lado, o ex-líder não tem gostado de ver a forma como Seguro tem colocado "a província contra Lisboa", recordando o seu próprio caso. "Eu sou da província [nasceu no Porto mas viveria em Alijó e Covilhã], fui líder do PS durante seis anos e nunca me queixei de nenhum preconceito social", disse, acusando depois Seguro de ser "provinciano" ao fazer esta leitura.

Na noite das eleições europeias, José Sócrates começou por dizer que a liderança socialista não estava em causa. "Como é que se discute um líder que ganha? Não faz parte do que é normal em política", atirava então a 25 de maio. Uma semana depois estava a dar apoio a António Costa.

"Fuga às responsabilidades" no caso BES

Sócrates apontou o dedo ao governador do Banco de Portugal e ao Governo pelo que se está a passar no Novo Banco/BES, depois da demissão da administração de Vítor Bento, que foi conhecida no sábado.

Ironizando que todos os passos dados no BES foram sempre apresentados "como uma crónica de grande sucesso", o socialista apontou para a "maior responsabilidade do governador do Banco de Portugal e ao Governo", acusando os principais protagonistas de "fuga às responsabilidades". E nesta fuga incluiu também o Presidente da República.

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