"Sempre que pude ajudei ao máximo o meu país"

Após dez anos à frente da Comissão Europeia, Durão Barroso termina hoje o seu mandato.

Em entrevista ao DN e à TSF, volta a garantir que tudo fez para ajudar Portugal e garante que a sua família e ele próprio merecem o afastamento da política ativa.

Que leitura gostaria que os europeus, e nomeadamente os portugueses, fizessem dos dois mandatos que cumpriu como presidente da Comissão Europeia (CE)?

Compete às pessoas fazerem a leitura que quiserem. Não tenho de impor nenhuma leitura. Esta foi a maior crise de sempre desde que há integração europeia e nós conseguimos aguentar o barco perante desafios absolutamente fora do comum. É preciso não esquecer que, há algum tempo atrás, a generalidade dos analistas económicos previa como provável a implosão do euro, o fim do euro. Quase todos davam como certo, por exemplo, que a Grécia podia sair. Ora, se a Grécia caísse, Portugal podia cair logo a seguir. Portanto, estivemos à beira do abismo e a verdade é que a União Europeia foi capaz - e a Comissão teve aí um papel fundamental - de reagir. Nem sempre de um modo perfeito. Nem sempre com o nível de ambição que eu próprio e a comissão gostaríamos porque se tratou de encontrar um consenso entre, na altura, 27 países, mas a verdade é que encontrámos grandes dificuldades. Quando se começar a fazer uma história desapaixonada, objetiva, destes anos, vão reconhecer que houve um trabalho extraordinário de resistência, de resposta e que hoje em dia temos uma Europa unida, apesar de tudo aquilo que se dizia, que havia países que iam sair. A Europa ficou maior: alargou-se. Em 2004, o ano em que assumi a presidência, éramos 15 países, agora somos 28. É extraordinário como, apesar destas crises todas, se conseguiu consolidar uma UE com tantos países. E a verdade é que nos mantivemos abertos e até reforçámos os sistemas de decisão na Europa. A CE tem hoje mais poderes, e o BCE também. Portanto, muito do que se diz sobre a pressão do momento é uma visão parcial. Compreendo as críticas porque as pessoas sofreram muito, e estão ainda a sofrer muito, sobretudo do ponto de vista social em alguns dos nossos países. Mas é preciso também pensar em termos de perspetiva, no tempo, onde estávamos e onde estamos. E é por isso que a UE fez um grande trabalho. E a CE deu um grande contributo.

Para Portugal faz diferença que o presidente da Comissão seja um português? Portugal fica mais desprotegido?

Há uma coisa que lhe posso dizer: como presidente da CE, sempre que pude ajudei ao máximo o meu país. Fico muito sensibilizado quando vejo que o Presidente da República reconhece isso. Ele sabe bem o que eu fiz. O primeiro-ministro reconhece isso. Ele sabe bem as intervenções que eu tive. E quem acompanhou os esforços extraordinários da Comissão Europeia - e muitas vezes são coisas feitas com alguma reserva e discrição - sabe que eu ajudei imenso Portugal em tudo o que podia. E não fiz mais do que o meu dever enquanto português. Nesse aspeto, é bom ter um português à frente da comissão. Até porque trouxe também uma sensibilidade portuguesa, que, em muitos momentos, contou.

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