"Sem mutualizar dívida não vejo como Portugal pode prosperar na Zona Euro"

Wolfgang Münchau, matemático e jornalista alemão que tem sido um dos maiores críticos das políticas de austeridade vigentes na Europa, diz que o programa de ajuda financeira a Portugal foi mal desenhado e admite ser necessário um segundo, mas duvida que tal ocorra com condições mais suaves

Quais as principais ideias que irá apresentar na conferência?

Falarei sobre a crise do euro, por que razão não acabou, por que razão uma solução assente apenas na austeridade não pode funcionar, qual o conjunto mínimo de condições para uma solução e por que razão este conjunto mínimo é difícil de conseguir.

Tem sido muito cético em relação à capacidade de Portugal regressar aos mercados de dívida. Diz que o País vai precisar de um segundo programa de empréstimos. Porquê?

Todos os programas basearam-se em hipóteses demasiado otimistas. No caso de Portugal, ninguém estimou previamente o impacte do Tribunal Constitucional, por exemplo. Mas o ponto principal não é tanto a dificuldade em atingir um certo nível de austeridade, mas a dificuldade em regressar ao nível de crescimento necessário para a dívida ser sustentável.

Muitos continuam a defender que Portugal não é a Grécia e que, portanto, o País vai ser bem-sucedido na implementação deste programa de ajustamento. Não estará Portugal a ser salvo do pior dos cenários - um segundo programa - só porque a Europa não pode dar-se ao luxo de ter outro país à beira do colapso?

Penso que não vai funcionar bem dessa forma. Na verdade, não tenho sequer a certeza de que ficar no euro sob as atuais condições salve Portugal. Se a Grécia sair da Zona Euro, que é o que espero que no fim vai acontecer, penso que a pressão também será forte sobre Portugal. Sem um certo grau de mutualização de dívida, não vejo como é que Portugal pode alguma vez prosperar na Zona Euro. É esta decisão que Portugal tem de tomar.

No caso de Portugal, não acredita num programa do mecanismo europeu (MEE) com a rede de segurança do BCE para compras ilimitadas de dívida?

Penso que o programa das Transações Monetárias Definitivas [TMD] é destinado apenas a países que não têm um programa de ajustamento. Ou seja, não é para Portugal.

Mas acha que o TMD vai funcionar? Quais os riscos macroeconómicos associados ao programa?

Estou muito cético em relação aos efeitos do programa depois de estar um ano em vigor. Ele, na verdade, foi desenhado para Itália e Espanha, e não vejo mais nenhum país a querer aderir por razões políticas. Como programa fantasma que é, penso que não vai sobreviver indefinidamente.

Qual a melhor solução para a Grécia: deixar a Zona Euro ou ter um terceiro programa de ajustamento?

De facto, a melhor opção para os gregos não está disponível. Devia ser um acordo para entrar em incumprimento dentro da Zona Euro de forma a reduzir a dívida para um nível realista - como 80% do produto interno bruto (PIB) ou menos. Se assim não for, é do melhor interesse para a Grécia abandonar o euro.

Voltando a Portugal. Se o atual programa foi mal desenhado, para si faria sentido um segundo programa, mas com condições muito mais ligeiras?

Penso que sim, a austeridade não funcionou. Mas também não vejo como é possível haver condições mais ligeiras.

Recentemente, muito se questionou sobre o risco de a Zona Euro entrar em deflação (paralisia económica com queda de preços). O BCE diz que "neste momento" não vê esse risco em nenhum país. É assim?

A deflação também não é o meu cenário principal, embora exista um risco não trivial de a economia poder entrar numa espiral deflacionista se estiver exposta a outro choque - por exemplo, um choque do género Lehman Brothers.

E qual é o seu principal cenário?

Penso que a inflação ficará de forma persistente abaixo da meta para a inflação - que é um género de deflação, quando se define a estabilidade de preços em 2% [a fasquia oficial do BCE].

O resultado das eleições gerais na Alemanha pode mudar alguma coisa de essencial na forma como a União Europeia está a lidar com a crise?

Penso que sim. Se a coligação atual (CDU/FDP) ganhar, o SPD será anti--Governo na questão dos resgates aos países do euro. Como o Governo não tem maioria na câmara alta do Parlamento, a margem de manobra política é reduzida. Se as eleições resultarem numa grande coligação, não vejo mudanças para melhor ou pior - exceto o facto de as políticas se tornarem um pouco mais previsíveis.

Acredita que a união bancária esteja a funcionar em 2014?

Algo com esse nome, sim. Mas não uma união bancária a sério. Sem uma rede de segurança orçamental comum e um sistema comum de garantia de depósitos, não podemos falar em união bancária.

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