Passos Coelho saúda "reequilíbrios em curso à escala global" na produção de riqueza

O primeiro-ministro saudou hoje os "reequilíbrios em curso à escala global, em que a produção de riqueza, o crescimento e o emprego estão a ser liderados por novos actores e centros de desenvolvimento" como a América Latina.

"Saudamos esta mudança. É uma mudança profunda que nos leva a rever os nossos hábitos de consumo e a revisitar o nosso tecido produtivo, e que nos obriga a reformar e renovar para voltar a ser competitivos e inovadores", afirmou Passos Coelho.

Numa intervenção na XXI Cimeira Ibero-Americana, em Assunção, no Paraguai, o primeiro-ministro defendeu que a actual crise "não é apenas europeia, é uma crise mundial cuja origem remonta à década passada" e que "a todos convoca", na Europa, na América e nos restantes continentes.

Segundo Passos Coelho, "os choques que estão a abalar a economia mundial são, também, o reflexo dos ajustamentos e reequilíbrios em curso à escala global, em que a produção de riqueza, o crescimento e o emprego estão a ser liderados por novos atores e centros de desenvolvimento", factor que pode produzir transformações positivas.

No que respeita à União Europeia, o primeiro-ministro referiu que iria ter a oportunidade, durante o período desta cimeira fechado à comunicação social, o chamado "retiro", de falar dos resultados da última cimeira da zona euro, que classificou como uma "das mais determinantes cimeiras da história da construção europeia".

Passos Coelho acrescentou que iria, nessa oportunidade, "salientar os esforços que Portugal e a União Europeia estão a desenvolver para responder à crise sistémica".

No seu discurso, o primeiro-ministro afirmou que "a América Latina é uma prioridade" da política externa portuguesa, "que conhece cada vez mais novos objetivos, novas ambições", assinalando "o nível da delegação portuguesa" presente em Assunção.

"E verificamos hoje uma nova dinâmica em que a oferta de oportunidades parece ser tão atractiva na América Latina como na Europa. Diria até que, em virtude da crise, a balança tende a pender para o vosso lado, o que considero ser um sinal positivo e que se deve encorajar, pois é revelador do progresso notável que têm vindo a registar neste novo milénio", acrescentou.

Passos Coelho descreveu a comunidade ibero-americana de "cerca de 580 milhões de cidadãos" como "uma plataforma com um potencial assinalável de afirmação estratégica a nível político e económico" que é também "uma união de afectos e um espírito de fraternidade que faz toda a diferença no mundo em que vivemos", em tempos de crise ou de prosperidade.

"Mais do que nunca precisamos de nos apoiar mutuamente, concertando posições para defender melhor os nossos interesses comuns", acrescentou.

O primeiro-ministro defendeu que é preciso "contribuir para um mundo multipolar mais justo e mais próspero" e apontou as potencialidades de "concertação institucional entre a Cimeira Ibero-Americana e a União Europeia" e de "articulação com a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP)".

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