Mário Soares elogia ida da população para a rua

O antigo Presidente da República Mário Soares elogiou hoje a forma com a população viveu "na rua" as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, acusando o Governo de querer ouvir gritar "vivas ao 28 de Maio".

"Ontem vi as pessoas na rua a gritar 'viva o 25 de Abril', enquanto eles [referindo-se ao Governo] a única coisa que queriam ouvir, a começar pelo presidente da República, era gritar vivas ao 28 de Maio", disse Mário Soares.

Para o antigo Presidente da República o atual Governo PSD/CDS-PP tem "desvalorizado" o que foi o 25 de Abril e por isso Soares ironizou falando do golpe militar de 28 de Maio de 1926 que pós fim à Primeira República.

O socialista contou que teve acesso ao primeiro programa das comemorações dos 40 anos da Revolução dos Cravos apelidando-o de "ridículo".

"Houve a tentativa de esquecer o 25 de Abril. O primeiro programa que o Governo fez, eu tive-o, era absolutamente ridículo. Mas o povo português reagiu de uma maneira extraordinária. Vieram para a rua a gritar e a bater-se pelo 25 de Abril", disse Mário Soares que participava, no Porto, no debate "Um Objeto e Seus Discursos por Semana".

O antigo Presidente da República referiu que com a ida do povo para a rua, a população portuguesa diz "faça-se Abril não só em Lisboa mas por todo o país": "Também no Porto como não podia deixar de ter acontecido. O Porto é a cidade da liberdade", referiu, tendo recebido uma das maiores salvas de palmas da tarde.

O ex-presidente acusou o Governo de ignorar que "há pessoas que não têm possibilidade de comer e pais a bater em caixotes do lixo": "É impensável em Portugal. Como é que há gente que diz que isto não existe? Temos de vir para a rua e dizer que isto não é possível", encorajou Soares.

O repto foi bem acolhido pela plateia de onde se ouviu uma voz dizer "sou desempregada senhor presidente e digo 'temos de lutar'", o que arrancou a segunda maior ovação aos presentes no auditório da Biblioteca Almeida Garrett.

O objeto em discussão, no debate em que participava Soares, era o cartaz de Vieira da Silva "A Poesia está na rua" (1974), que integra a exposição dedicada à artista e à sua relação com Sophia de Mello Breyner, comissariada por Raquel Henriques da Silva, e a este propósito op antigo presidente da República aproveitou para falar de cultura, voltando a criticar as opções do Governo.

"Eu sempre privilegiei a cultura (...) No tempo da guerra civil espanhola um energúmeno puxou da pistola e disse 'eu quando ouço falar de cultura puxo da pistola'. É o que está acontecer com o atual Governo. Não temos cultura. Quer dizer, temos cultura mas fora do Governo. Pode não haver dinheiro para muita coisa mas para a cultura tem de haver. Sem cultura nada se faz", defendeu Mário Soares.

Vincando que "não é religioso", Soares ainda falou do Papa Francisco por este "lutar pelos pobres" e por dizer que "a austeridade mata". "A austeridade que estamos a ter mata. É certo que as pessoas protestem", concluiu o socialista.

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