Governo quis guardar números de emigrantes para o pós-eleições

110 mil deixaram o país em 2014, tantos como em 2013. Governo diz que não divulga relatório, entregue em julho, porque faltam dados. Observatório da Emigração nega pedido

Os portugueses continuam a deixar o país e em grande número, 110 mil em 2014, tantos como em 2013. Dados do Observatório da Emigração (OE) e que foram entregues à secretaria de Estado das Comunidades em julho, já que, habitualmente, o relatório é apresentado na Assembleia da República antes das férias. O governo justifica o atraso com a falta de informação, nomeadamente do Observatório, ao qual pediram um quadro da evolução da emigração portuguesa comparada com outros países. Mas o coordenador nega o pedido de elementos adicionais.

"Ainda estamos à espera de dados, nomeadamente um quadro comparativo da emigração dos portugueses e dos restantes europeus. E há outros dados que falta reunir, também da Direção-Geral dos Assuntos Consulares. O Relatório da Emigração é muito vasto e não o podemos divulgar só com um quatro ou dois", justifica o secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, para não ter publicado o relatório em julho, como aconteceu o ano passado. Em viagem pelo Canadá, acrescenta que o documento será apresentado quando regressar a Portugal, depois das eleições legislativas.

O argumento surpreende Rui Pena Pires, coordenador do Observatório, que nega o pedido de novos quadros. "O relatório foi entregue em julho e, até agora, não foram pedidos elementos adicionais. Aliás, este ano até alargámos o número de países com informação mais desenvolvida sobre o destino dos portugueses." E que, quando o entregaram, foi na presunção que fosse apresentado antes das férias parlamentares.

O Observatório só pode divulgar o relatório depois do governo, por ser este último quem encomendou o estudo. E questionada tutela para o atraso na sua apresentação, foi-lhes dito para esperarem por meados de setembro e, depois, para depois das eleições. Acabaram por publicar esta semana o quadro-geral da evolução da emigração, com base nas estatísticas dos países de destino, principalmente os organismos equivalentes ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, mas também da Segurança Social e dos municípios. "O relatório não o podemos divulgar, mas os dados estão todos disponíveis no site", argumenta o sociólogo.

Os portugueses que emigraram em 2014 foram tantos como em 2013. O número tem subido desde 2011, quando diminuiu entre 2008 e 2010 para valores "só observados nos anos 1960-1970", sublinha Rui Pena Pires. Para concluir: "O que estes dados demonstram é que há uma componente da crise que persiste e que tem que ver com a não recuperação de emprego; que temos um problema com a criação de emprego."

A opção para muitos é ir para o estrangeiro, 30 546 dos quais o fizeram o ano passado para o Reino Unido, o país que mais portugueses recebeu e mais do que no ano anterior. Em segundo lugar está a Holanda, 18 080 (mais 714 do que em 2013), e em terceiro a Suíça, 15 221 (menos 4818). Angola e Espanha receberam na ordem dos cinco mil, registando um aumento.

José Cesário entende que aqueles números não podem ser analisados sem comparar com os outros países. Estudo que não se fez o ano passado, mas que achou "mais sério" incluir este ano. Justifica que tanto o Eurostat como a OCDE indicam uma diminuição dos emigrantes permanentes. A fonte dos organismos estrangeiros é o Instituto Nacional de Estatística, que indica uma diminuição de 7,8% de emigrantes permanentes de 2013 para 2014, ano que estima terem saído 49 572 pessoas por um período superior a um ano. Ao mesmo tempo, houve um aumento de 14% de emigrantes temporários, 85 053, o que dá quase 135 mil, isto com base nas estimativas do Inquérito ao Emprego. Os dados do Observatório da Emigração baseiam-se em entradas nos países de destino, permanentes.

Ler mais

Exclusivos