Garcia dos Santos diz-se vítima de Soares e Eanes

O ex-chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) Amadeu Garcia dos Santos afirmou hoje ter sido vítima de uma "guerra" entre Mário Soares e Ramalho Eanes quando foi exonerado do cargo pelo primeiro em 1983.

Segundo Garcia dos Santos, a sua exoneração do cargo de CEME teve como base um "grande conflito e antipatia" entre Mário Soares e Ramalho Eanes.

As palavras do antigo chefe militar e também ex-presidente da já extinta Junta Autónoma das Estradas foram proferidas durante a sessão de apresentação do seu livro de "Memórias Políticas - Um pouco do que vivi", nas Caves Manuelinas do Museu Militar, em Santa Apolónia.

Amadeu Garcia dos Santos, que participou no processo de preparação do 25 de Abril e também na contenção do 25 de novembro, foi exonerado do cargo de CEME no início da década de 80 pelo governo de Mário Soares, num processo polémico e que mereceu a oposição do Presidente da República de então, Ramalho Eanes.

Na opinião de Garcia dos Santos, esta decisão de Soares nasceu de um "grande conflito e grande antipatia" com Ramalho Eanes, motivados pelo facto de o chefe de Estado, em 1978, ter convocado eleições contra a vontade do primeiro, após a rutura entre o PS e o CDS, que formavam então um governo de coligação.

Já em declarações aos jornalistas, Garcia dos Santos disse não ter "qualquer dúvida" que a sua exoneração teve por base esse motivo: "Não tenho qualquer dúvida e já disse isso ao doutor Mário Soares e ele riu-se, achou graça".

Mas, acrescentou, "para mim isso são favas contadas, estou-me nas tintas para o doutor Mário Soares e também já lho disse".

Garcia dos Santos referiu ainda que após Mário Soares ter apresentado a Ramalho Eanes a recondução de três chefes militares menos a sua, e de Eanes a ter recusado em pleno Conselho Superior de Defesa Nacional (CSDN) - confirmando-a mais à frente -, esteve "cinco meses" ainda a assegurar funções.

Na sessão de apresentação do livro, onde estiveram diversas figuras ligadas às Forças Armadas e ao 25 de Abril, o ex-Presidente da República Ramalho Eanes fez questão de pedir a palavra para se pronunciar sobre o designado "Caso Garcia dos Santos".

Eanes revelou que após o CSDN onde vetou a exoneração de Garcia dos Santos, Mário Soares o confrontou, na habitual reunião semanal que tinham, com uma carta que tinha recebido do general no âmbito do caso e voltou a insistir na demissão, alegando "razões políticas" e não pessoais.

"Fiquei na situação extremamente delicada de ter dito ao Garcia dos Santos em pleno CSDN que não seria demitido e ter depois de o demitir", acrescentou.

Garcia dos Santos adiantou aos jornalistas estar a preparar um segundo volume de memórias, onde relatará as reuniões com os partidos políticos no pós-25 de Abril.

A apresentação do livro esteve a cargo do general Loureiro dos Santos e da historiadora Maria Inácia Rezola, tendo sido presidida pelo chefe do Estado-Maior do Exército, Pinto Ramalho.

Na assistência estiveram figuras como Rocha Vieira, Otelo Saraiva de Carvalho, Edmundo Pedro e Vasco Lourenço.

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