Cavaco quer políticos sem "vistas curtas"

Fortes aplausos da maioria PSD/CDS, que contrastaram com o silêncio absoluto da esquerda parlamentar, pontuaram com frequência o discurso do Presidente da República na sessão solene com que a Assembleia da República celebra Abril.

Os aplausos da direita fizeram-se ouvir particularmente na parte final do discurso de Cavaco Silva, quando este, renovando apelos a um "compromisso de futuro quanto aos grandes desígnios nacionais", disse que "é tempo de abandonarmos a política de vistas curtas, ditada pelo taticismo e pelos interesses de ocasião".

Para Cavaco Silva, "é difícil compreender que numa democracia consolidada agentes políticos responsáveis não consigam alcançar entendimentos sobre questões essenciais para o nosso futuro coletivo".

(À margem da sessão solene, o presidente honorário do PS, Almeida Santos, criticaria o discurso de Cavaco dizendo que o facto de o Presidente ter sido aplaudido apenas por uma parte do plenário significa que Cavaco ficou "mais isolado".)

Para o Presidente "não se trata de confundir a abertura ao compromisso com uma unanimidade de pontos de vista nem com uma neutralização da dinâmica de alternância que é própria das democracias". "Não é por acaso que o espírito de abertura ao compromisso e de entendimento entre as diferentes forças políticas está na base das regras do sistema democrático consagradas na nossa Constituição."

Numa afirmação que Jerónimo de Sousa qualificaria depois de "desabafo reacionário", Cavaco Silva sublinhou que esse "espírito de compromisso" reinou na construção da democracia, por exemplo "contra a ameaça de novos totalitarismos" nos "tempos difíceis em que este Parlamento chegou a ser cercado e os seus deputados sequestrados" (referência famoso "cerco à Constituinte", em 12 de novembro de 1975). Ou seja: "Sempre que estivemos unidos estivemos mais próximos do ideais de Abril."

Atualmente, acrescentou, a "vida pública portuguesa" é marcada com "preocupante frequência" pelo facto de "serem postos em causa valores essenciais, como o rigor e a seriedade e até a urbanidade". São estes, disse o PR, os valores que devem "pautar o convívio democrático entre os que têm ideias e opiniões diferentes".

Mas em vez disso "privilegia-se o insulto e a difamação, o imediatismo e a superficialidade", o que levará a um "progressivo afastamento dos cidadãos". Conclusão: o "necessário e saudável escrutínio cívico das instituições e da ação dos titulares de cargos políticos será substancial e perigosamente reduzido".

Cavaco Silva disse ainda que "importa que o combate à corrupção seja assumido como uma prioridade". Contudo, avisou, isso "não pode fazer-se através de intervenções populistas" e do "desrespeito de princípios fundamentais" como "a presunção da inocência, o segredo de justiça ou o direito ao bom nome". "Os que trilham o caminho da demagogia podem ter uma popularidade efémera mas nunca conseguirão combater eficazmente a corrupção."

Os órgãos de comunicação social também estiveram na mira do PR. Segundo avisou, "no dia em que a verdade e o rigor forem totalmente sacrificados a favor impacto sensacionalista estaremos, afinal, a criar novas formas de ditadura".

Ao Governo deixou alguns recados - na linha do "há limites para os sacrifícios" que tem vindo a ensaiar de há algumas semanas para cá. Segundo disse "os efeitos do desemprego no tecido social português" podem "pôr em causa alguns pilares fundamentais da nossa sociedade". "O combate ao desemprego tem de ser uma prioridade da ação política", disse.

Por outro lado, há muitos reformados que se viram "subitamente confrontados" com situações que põem em causa o seu "legítimo direito a uma existência com dignidade". Assim, "cabe aos agentes políticos apontar um caminho de esperança".

Dirigindo-se implicitamente a quem lhe pede que demita o Governo - como fez o coronel Vasco Lourenço na manifestação do Quartel do Carmo -, o Presidente deixou claro como avalia a legitimidade do Governo: "Num regime democrático só há um critério para definir a legitimidade dos governantes: o voto expresso nas urnas. É isso que distingue a democracia de uma ditadura".

"E foi isso - concluiu - que Portugal conquistou há 40 anos."

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