Cavaco adverte para "efeito recessivo" da austeridade

O Presidente da República, numa entrevista ao jornal espanhol Expansion, diz que as expectativas dos empresários "não são muito positivas" e que "os políticos não podem ignorar a voz do povo".

Na entrevista publicada na edição de hoje do jornal económico mais lido em Espanha, Cavaco Silva é questionado sobre a situação económica em Portugal, reconhece a contestação nas ruas e afirma que "os políticos não podem ignorar a voz do povo".

O chefe de Estado português considera ainda que a União Europeia e o Banco Central Europeu (BCE) "tendem a reagir tarde", defende um papel mais interventivo do banco central na compra de dívida soberana e considera que a chanceler alemã Angela Merkel deveria ser "mais consistente" na defesa da moeda única.

Cavaco Silva escusa-se a avaliar as últimas medidas anunciadas pelo Governo português, remetendo mais explicações para o ministro das Finanças, mas recorda que a última avaliação da troika confirmou que "Portugal teria dificuldade em cumprir os objetivos de redução de défice orçamental como resultado da alteração da conjuntura internacional".

Questionado sobre se as medidas de austeridade agravam a recessão, o Presidente da República é lacónico: "obviamente, já que são medidas com efeito recessivo que afetam o rendimento dos cidadãos e, como tal, o consumo".

"E as expectativas dos empresários não são muito positivas", acrescenta.

Apesar disso, Cavaco Silva destaca, entre os dados positivos, as melhorias verificadas no saldo da balança comercial e a "consolidação orçamental", apontando como um dos fatores negativos "um forte aumento do desemprego, sobretudo entre os jovens, onde atinge os 35 por cento".

"Dentro de todo este processo tão duro, devo reconhecer o grande sentido de responsabilidade do povo português", afirma.

Questionado sobre o que diria aos portugueses que têm manifestado a sua voz crítica das políticas do Governo, Cavaco Silva afirma que "Portugal é uma democracia e as manifestações podem fazer-se se cumprem a lei. Os políticos não podem ignorar a voz do povo".

"Efetivamente, em Portugal, tem havido fortes manifestações nas ruas, mas sem nenhuma violência. O povo português está a demonstrar um grande sentido cívico. E neste contexto eu sempre recordo uma ideia chave: a justiça e a equidade na partilha dos sacrifícios. Muitos cidadãos acreditam que não é assim e, de facto, o Governo reverteu algumas das medidas inicialmente apresentadas pela troika", sublinha.

O chefe de Estado cita como exemplo o recuo na TSU, medida "muito mal recebida", algo que "o Governo teve a humildade de o reconhecer".

Sobre a política europeia, Cavaco Silva considerou que "as instituições europeias, incluindo o BCE, têm uma tendência a chegar tarde", considerando que o BCE "deveria ter disponibilidade para comprar de forma ilimitada dívida soberana no mercado secundário".

"Isso, claro, a troco de que os países apoiados conduzam políticas que levem à estabilidade das finanças públicas", afirmou.

"Mas, sobretudo, a missão do BCE deve ser de garantir a irreversibilidade do euro. Dito isto, é um absurdo que alguns países se financiem a taxas negativas e outros paguem acima de 6 por cento", considerou, sublinhando que o atraso na atuação alimentou a especulação.

Questionado sobre a "atitude" de Angela Merkel, Cavaco Silva afirma que há que reconhecer "que os egoísmos nacionais cresceram muito nos últimos anos e a solidariedade desceu".

Ainda que acredite que Merkel "tem uma vontade firme de combater a crise do euro", Cavaco Silva admite que "gostaria que Merkel fosse mais consistente na sua defesa".

"Talvez tenhamos que compreender os seus problemas políticos internos", disse.

Sobre a situação em Espanha e especialmente sobre o movimento independentista na Catalunha, Cavaco Silva considera que "Portugal é um Estado-nação quase perfeito, com a mesma língua, sem diferenças culturais significativas" pelo que seria difícil "compreender qualquer desmembramento de um Estado europeu".

No entanto deixa algumas referências ao modelo de Estado espanhol, nomeadamente ás diferenças entre as comunidades autónomas no que toca a negócios.

"Alguns empresários portugueses informaram-me que as normas que têm que cumprir numa comunidade autónoma são diferentes das demais. Se é assim não existe um verdadeiro mercado interno", disse.

Sobre a situação económica, Cavaco Silva considerou que o Governo espanhol "foi muito valente" na aplicação das reformas económicas e recordou que Espanha é um "parceiro comercial insubstituível".

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