Carrilho: "António Costa devia propor a expulsão de Sócrates do partido"

Diz que estamos no limiar "da decomposição do regime" e no novo livro, Pensar no Que Lá Vem, propõe um caminho para os problemas nacionais e a crise na Europa.

Manuel Maria Carrilho elogia a candidatura de Henrique Neto a Belém porque, diz, rompe com um sistema político em "acelerada putrefação". E considera que o caso Sócrates terá consequências nas legislativas

Numa sociedade em que se vive no imediato, dar como título ao seu novo livro Pensar o Que Lá Vem não é ser inocente?

Não creio, pelo contrário, pretende ser lúcido em relação às condições, nacionais e civilizacionais, em que vivemos. E procura ver para lá desse cerco do imediatismo que nos impede de compreender o mundo de hoje, e de agir em conformidade. Sem essa exigência, fica-se sempre a oscilar entre a apatia conformista e a indignação inconsequente. O livro tem um subtítulo que é, lembro, "Para acabar com o Portugal pasmado".

Tem uma receita "para acabar com o Portugal pasmado"?

Tenho ideias, com elas às vezes conseguem-se boas receitas... O que penso é que estamos no limiar da decomposição do regime, em termos de credibilidade e de expectativas. E que só se evitará o seu colapso com uma rutura que passe pela corajosa alteração do sistema político, que acabe com o exclusivos dos partidos na vida política, que crie vias de afirmação aos cidadãos e que instaure mecanismos de maior exigência em relação aos eleitos, às suas promessas e às suas responsabilidades

O primeiro texto faz a leitura de "um país atordoado". O passado nacional é quase todo assim e o futuro próximo não se adivinha igual?

Não concordo, o passado nacional tem, de D. Afonso Henriques até ao 25 de Abril de 1974, múltiplos momentos de notável lucidez. Alternados, é verdade, com períodos de grande atordoamento, como o que vivemos hoje. O que é que singulariza este nosso momento? Bom, eu creio que é o facto de esse atordoamento de que falo conduzir a uma generalizada desvitalização da democracia, que leva a que o país ande, literalmente, a reboque, sem estratégia nem rumo.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.