BE e PEV preocupados com situação da Guiné Equatorial

Ponciano Mbomio Nvó, advogado e crítico do regime da Guiné Equatorial, foi recebido esta segunda-feira por bloquistas e ecologistas, na AR, aos quais deixou "uma mensagem de preocupação" face à situação no país africano.

Em declarações à Lusa, à saída dos dois encontros que teve esta segunda-feira na Assembleia da República, Ponciano Nvó disse ter transmitido ao Bloco de Esquerda (BE) e ao Partido Ecologista Os Verdes (PEV) "uma mensagem de preocupação da população da Guiné Equatorial, que é vítima de violações de direitos humanos".

Em Portugal a convite da Amnistia Internacional, Nvó desconfia que a entrada da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que deverá ser aprovada na quarta-feira, venha a resultar em mudanças, mas espera que a comunidade lusófona faça "pressão" nesse sentido.

A Guiné Equatorial "tem uma rede de propaganda, que sempre publica o melhor", critica, reconhecendo que o país tem registado "mudanças físicas, de infraestruturas", mas realçando que, "no campo dos direitos humanos, não mudou nada, porque há demasiada exclusão da sociedade civil, que não existe, sobretudo desde o momento em que se descobriu petróleo".

O deputado do PEV José Luís Ferreira diz que Ponciano Nvó descreveu um cenário "muito mais preocupante" do que estava à espera. "Os direitos humanos não existem na Guiné Equatorial, aquilo é um regime totalmente totalitário e nós não compreendemos como é que um país como este vai entrar para a CPLP".

Os chefes de Estado e de Governo da CPLP, que se vão reunir em cimeira na capital timorense, na quarta-feira, deverão aprovar a entrada da Guiné Equatorial na organização.

"Não é um país de língua portuguesa, mas um regime com o qual não podemos compactuar. A Guiné Equatorial não devia entrar para a CPLP enquanto não fizer (...) uma limpeza da sua casa e tornar-se um país essencialmente democrático", frisa José Luís Ferreira.

Acompanhado por dois dirigentes da Secção Portuguesa da Amnistia Internacional, Nvó encontrou-se depois com o deputado fo BE Pedro Filipe Soares, que acusou Portugal de "cedência" ao "cinismo dos negócios", sobrepondo-se ao "respeito pelos direitos humanos, pelas liberdades e contra a pena de morte".

"Portugal tinha dito que, enquanto não houvesse respeito pelos direitos humanos, a Guiné Equatorial não poderia entrar" na CPLP, recordou. Ora, "as barreiras" colocadas mantêm-se. "Os atropelos aos direitos humanos continuam a existir, as liberdades não são respeitadas" e a moratória sobre a pena de morte "não impede que as pessoas sejam executadas na mesma", referiu.

"O relato que nos foi dado hoje diz-nos que nós estávamos corretos quando defendíamos que devia existir uma maior pressão nos países da CPLP e não permitir a entrada da Guiné Equatorial", disse Pedro Soares, sublinhando que "Portugal deveria ser impeditivo".

Ponciano Nvó está em Portugal até quarta-feira, exatamente o dia em que a Guiné Equatorial deverá ser aceite como membro da CPLP.

O advogado - que exerce desde 1992, mas está suspenso de funções - vai ser recebido por todos os partidos com assento parlamentar, com os que restantes a fazerem-no na terça-feira: PCP (12.00), CDS-PP (14.30), PSD (15.00) e PS (16.00).

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.

Premium

Viriato Soromenho Marques

A política do pensamento mágico

Ao fim de dois anos e meio, o processo do Brexit continua o seu rumo dramático, de difícil classificação. Até aqui, analisando as declarações dos principais atores de Westminster, o Brexit apresenta mais as tonalidades de uma farsa. Contudo, depois do chumbo nos Comuns do Plano May, ficou nítido que o governo e o Parlamento britânicos não só não sabem para onde querem ir como parece não fazerem a mínima ideia de onde querem partir. Ao ler na imprensa britânica as palavras de quem é suposto tomar decisões esclarecidas, quase se fica ruborizado pelo profundo desconhecimento da estrutura e pelo modo de funcionamento da UE que os engenheiros da saída revelam. Com tamanha irresponsabilidade, não é impossível que a farsa desemboque numa tragicomédia, causando danos a toda a gente na Europa e pondo a própria integridade do Reino Unido em risco.