Hugo Soares: "Este PS pensa que maioria absoluta é igual a poder absoluto e o PSD não vai permitir"

O secretário-geral do PSD garante que o partido está mobilizado para combate ao PS e vai demonstrar isso amanhã à noite no Algarve, na festa do Pontal. Ao Governo acusa de empobrecer o país.

Como novo secretário-geral do partido encontrou o PSD muito desmobilizado, como muitos diziam que estava?
Prefiro dizer ao contrário, estamos muito empenhados em mobilizar o partido, os seus simpatizantes, e sobretudo os milhares de militantes para que possam voltar a sentir-se úteis e sentirem sobretudo que o PSD é uma alternativa de governação ao PS.

E qual é a mensagem essencial para que se sintam mobilizados?
Essa mobilização vai ficar já demonstrada na festa do Pontal, que volta ao Calçadão de Quarteira, cinco anos depois. Esperamos ter uma mobilização recorde, com mais do que um milhar de pessoas. Isto acontece porque se criou uma grande expectativa à volta desta liderança que foi capaz demonstrar união dentro do PSD, fazer uma renovação geracional, e que tem apostado muito na proximidade com as pessoas, com os portugueses e através deles com os militantes do PSD. Eles sentem uma mudança na forma de relacionamento quer com o partido internamente, quer com o país, por forma que o PSD se possa constituir como uma alternativa de poder ao PS.

Isso é que é "levantar a alma do PPD/PSD" como disse recentemente?
É muito importante voltarmos ao nosso PPD, a um partido mais popular, mais próximo das pessoas. Temos de reacender a chama do velho PPD/PSD, com muita proximidade, com muito combate político, muito projeto alternativo, propostas concretas para a vida das pessoas. O fundamental é tornar este PSD num partido próximo dos portugueses.

Como fazer os portugueses acreditarem que há alternativa ao PS quando lhe deram maioria absoluta para quatro anos?
Desde logo assumindo por inteiro o papel que os portugueses quiseram dar ao PSD, que fosse oposição ao PS. Numa circunstância em que o PS logrou ter uma maioria absoluta, esse papel de escrutínio ao Governo do PS, nas suas omissões e nos seus erros, é ainda mais pertinente que seja desempenhado. A primeira missão que este PSD tem é o ser verdadeiramente oposição ao PS. E, depois, com tempo, apresentar propostas concretas que respondam aos anseios do dia a dia das pessoas. A política hoje está muito afastada do que são as necessidades das pessoas e o PSD tem que saber que, para tornar a ser alternativa ao socialismo, tem de responder ao que são as necessidades do dia a dia dos portugueses, das empresas e das instituições.

Este momento, em que o mundo e Portugal se confrontam com o impacto da guerra na Ucrânia, sobretudo com a subida da inflação, não é um "bom momento" para o PSD se mostrar como alternativa? Para se reaproximar dos pensionistas, da classe média, dos comerciantes e empresários, já que o PSD sempre foi um partido transversal?
É e tem de continuar a ser transversal. O processo da inflação não começou agora, agravou-se com a guerra da Ucrânia, mas já vinha de trás. Quem tem falhado em todas as previsões é o Governo. E por essa via, pelo aumento dos preços, está a arrecadar uma receita extraordinária. Há alguma imoralidade porque está a ganhá-la à custa do aumento dos preços e das dificuldades de vida portugueses. Seja no acesso à alimentação, à energia e até à mobilidade. Tudo está mais caro e o Governo está a ganhar dinheiro com o aumento dos preços. É urgente que o Governo tenha um plano de emergência social e que com essa folga, que é muito considerável do ponto de vista orçamental, possa corresponder às necessidades que já se sentem, sobretudo, pelas famílias mais carenciadas. O PSD tem a obrigação de ser um partido transversal e ter respostas para todo o eleitorado, protegendo aqueles que mais precisam, que são as classes mais desfavorecidas. Mas também os pensionistas. Portugal não pode desperdiçar os seus mais velhos e o PSD tem de ter propostas para proteger aqueles que têm mais dificuldades, mas também para que aqueles que muito deram ao país possam sentir que são ainda úteis e podem contribuir de alguma forma para o desenvolvimento do país.

"Temos de reacender a chama do velho PPD/PSD, com muita proximidade, com muito combate político, muito projeto alternativo, propostas concretas para a vida das pessoas."

Nesta festa do Pontal, rentrée política, já devem ser balizadas algumas propostas ou áreas pelas quais o PSD se vai bater no debate do Orçamento do Estado para 2023, que começa em outubro?
As prioridades de ação deste PSD foram bem elencadas no último congresso nacional, no início de julho. Mas os portugueses podem esperar que da intervenção do presidente do PSD no Pontal saiam propostas concretas para a vida dos portugueses.

O líder da IL, em recente entrevista ao DN, dizia temer que este OE 2023 seja de austeridade para que o Governo tenha uma folga maior mais perto de eleições. Também tem esse receio?
O que sei é que, ano após ano, há sete anos, o governo tem feito maus orçamentos. Nada me leva a crer que o próximo seja um bom orçamento. E são maus porque não têm correspondido às necessidades reais do país. São orçamentos que carregam nos impostos e que sobrecarregam as famílias, as instituições e as empresas com uma carga fiscal nunca antes vista. São orçamentos sem qualquer incentivo à produtividade, que não discriminam a Administração Pública, que têm levado a que o Serviço Nacional de Saúde se encontre hoje num verdadeiro caos, que os serviços públicos estejam em condições como nunca estiveram. Ainda nestes últimos dias temos visto o que tem acontecido ao nível da segurança, onde as forças policiais se sentem cada vez mais desprotegidas, com menos recursos. Todos os setores públicos. Acho que este orçamento vai novamente ser mau para o país.

O PS pode mesmo impor um orçamento sem grande diálogo com a oposição...
O PS e o dr. António Costa não sabem o que fazer com esta maioria absoluta. O PS nunca foi um partido reformador, transformador da sociedade portuguesa. O engenheiro Guterres deixou o país num pântano, depois José Sócrates e o PS deixaram-no em bancarrota e o dr. António Costa está a deixar o país na cauda da Europa. Ora, um governo que pode governar com maioria absoluta, que se queria transformador da sociedade, está há sete meses envolvido em trapalhadas, em desautorizações constantes do primeiro-ministro. É um Governo que não tem correspondido às necessidades das pessoas. Se não for usada para transformar o país esta maioria absoluta é uma grande oportunidade desperdiçada.

Nas "trapalhadas" enquadra a contratação do antigo jornalista Sérgio Figueiredo para o Ministério das Finanças? Este assunto deve ser debatido no Parlamento?
Deva ou não ser debatido no Parlamento, deviam ser dadas explicações por parte do ministro e sobretudo do primeiro-ministro sobre esta situação. A questão é: porque é que se contrata alguém que tem um ordenado acima do ministro das Finanças para o assessorar em matérias que os serviços do Estado já o podem fazer? Este governo de António Costa criou mais uma plataforma com funcionários remunerados precisamente para monitorizar e projetar políticas públicas. Não se percebe esta redundância e do ponto de vista político parece ser uma troca de favores, que devia ser esclarecida. Não está em causa sequer a pessoa do dr. Sérgio Figueiredo, ele não tem culpa que o dr. Medina o tenha convidado. O que está em causa, mais uma vez, é o Governo envolver-se numa trapalhada e o primeiro-ministro não fazer um esclarecimento público sobre esta matéria. O que nos parece é que o PS não sabe governar, a não ser gastando dinheiro, com redundâncias dentro do próprio aparelho do Estado e ao mesmo tempo dando sempre a entender que foram favorecidos. E isso é pouco ético e pouco moral na governação.

O PSD tem um palco muito importante que é o parlamentar, onde o líder não tem assento. Há quem diga que a mudança de liderança da bancada do PSD, de Paulo Mota Pinto para Joaquim Sarmento foi "um erro" que se viu no debate com o primeiro-ministro...
Não tenho nada essa opinião. Quem tiver à espera que o PSD se preste ao folclore político não vai ver a sua expectativa realizada. O líder parlamentar do PSD é alguém com muita substância, muito preparado, com muita credibilidade e que fez uma excelente intervenção na pergunta que colocou ao primeiro-ministro. António Costa é que habituou os portugueses a não responder a nada no Parlamento, num desrespeito total pelas instituições e a fazer joguete político. Se é isso que se espera do Parlamento, então o sr. primeiro-ministro terá vantagem nos debates, mas se se espera credibilidade, seriedade e propostas, não tenho dúvida que o dr. Joaquim Miranda Sarmento vai ganhar todos os debates ao primeiro-ministro.

"O PS e o dr. António Costa não sabem o que fazer com esta maioria absoluta. O PS nunca foi um partido reformador, transformador da sociedade portuguesa."

A melhor estratégia para lidar com os discursos do Chega, nomeadamente quando fala contra os imigrantes, é a de Augusto Santos Silva? O presidente da AR esteve bem?
Aquilo que o presidente da AR e o primeiro-ministro têm feito com o Chega é a demonstração cabal que o PS tem no Chega o seu maior aliado e, por isso, fomenta todo o espetáculo à volta do partido. Hoje Augusto Santos Silva é o maior aliado de André Ventura. Tudo o que tem sido mediatizado sobre o Chega e André Ventura são as questões com o presidente da AR, matérias concretas e de substância não existem. Dito isto, a melhor forma de lidar com isso é dizer que este PS, como mais uma vez se demonstrou com o caso de Sérgio Figueiredo, pensa que maioria absoluta é igual a poder absoluto e que pode dizer tudo na impunidade política e o PSD não vai permitir isso. O adversário do PSD é o PS e o que o PSD quer ser é alternativa ao PS.

Mas também já disse que o PSD quer o eleitorado do Chega.
Há algum partido que não queira todo o eleitorado?

Mas não diz que quer o eleitorado da CDU ou do BE...
Mas porque não? Porque é que o PSD não pode ir buscar descontentes do PCP, como aconteceu nos tempos de Cavaco Silva? Nós queremos o eleitorado de todos os partidos. Eu quero que muita gente que saiu do PSD para votar na Iniciativa Liberal possa voltar a ter essa confiança no PSD e o mesmo do eleitorado que deixou de votar no PSD para votar no PS.

E como conseguirá o PSD isso?
Não tenho dúvida que a confiança do eleitorado se ganha com as propostas que vamos apresentar e com credibilidade. Se o PSD for alternativa ao socialismo, se conseguirmos demonstrar que este Governo do PS está a colocar Portugal novamente na cauda da Europa, estou absolutamente convencido que podemos ganhar essa confiança.

Para isso é preciso ir buscar "talentos" e independentes à sociedade?
Isso é fundamental. O PSD tem de ser novamente um partido moderno, e por isso vai fazer um grande trabalho interno de modernização, e de ser capaz de atrair os melhores talentos nos mais diversos setores de atividade. Não foi por acaso que criámos no novo ciclo do PSD o Movimento Acreditar, que trabalhará com o Conselho Estratégico Nacional, e mesmo a Academia de Formação, que são instrumentos fundamentais para captar talento, chamar gente para o PSD que possa contribuir para a mudança que se quer fazer no país.

Esse trabalho já está a ser feito?
Está. Nas últimas semanas há uma curiosidade mediática muito mais profunda sobre o que são as propostas do PSD do que em relação às posições de quem governa com maioria absoluta. O exemplo do aeroporto: hoje há maior curiosidade em saber qual é a posição do PSD do que a de quem governa e tem obrigação de decidir, tal como acontece com os lucros excessivos de algumas empresas ou sobre o SNS. Há mais curiosidade de saber como o PSD resolveria o problema que afeta milhares de pessoas, que é o acesso aos médicos de família, do que como o PS o pode fazer. Isso tem a ver com a expectativa que esta direção do PSD já criou, de que é verdadeiramente uma alternativa. Digo isso com algum regozijo.

E vai saber-se antecipadamente a posição do PSD, por exemplo, sobre o novo aeroporto de Lisboa?
Na questão do aeroporto iremos apresentar a nossa posição ao primeiro-ministro, mas não faremos como o PS e o Governo fizeram, no meio de uma grande turbulência, confusão e trapalhada como não há memória. Será no recato, aquele com que estas matérias devem ser tratadas e com o sentido de Estado que devem ter.

paulasa@dn.pt

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