Gaspar e Portas já admitem que "não está tudo bem"

Representado pelos dois ministros de Estado, Paulo Portas e Vítor Gaspar, o Governo esforçou-se hoje, no debate de urgência convocado no Parlamento pelo PS para discutir o agravamento da crise, por desafiar os socialistas a um "consenso" na definição das políticas pós-troika.

Sem reconhecer erros, os dois ministros admitiram no entanto, quase pelas mesmas palavras, que a situação se agravou: "Não faz sentido afirmar que está tudo bem", reconheceu o titular das Finanças, Vítor Gaspar. "Só uma pessoa que não está no seu são juízo é que diz que está tudo bem. Com certeza que não está tudo bem", acrescentaria mais tarde o ministro dos Negócios Estrangeiros.

António José Seguro abriu o debate propondo medidas de inversão das políticas atuais, algumas das quais resultaram da negociação interna que conduziu no PS com António Costa e que conduziu ao chamado "Documento de Coimbra": aumento imediato do salário mínimo nacional e um plano nacional de reabilitação urbana, por exemplo. Também insistiu na ideia da criação de um novo banco público, de fomento às pequenas e médias empresas - ideia com que Gaspar concordaria, embora assinalando preferir chamar-lhe banco de "desenvolvimento" (e não "fomento").

Ouvindo gritos na bancada de "só agora?", Portas, pelo seu lado, reconheceu que "não é exigível que o esforço se faça com a mesma velocidade". E foi ao encontro das teses socialistas em defesa de uma "negociação política" (mas acrescentando "também técnica") com a troika que vise, agora na sétima avaliação, "uma melhoria das condições" para Portugal na aplicação do programa de ajustamento (mais tempo para atingir a meta dos 3% do défice e prazos mais alargados de pagamento da dívida).

Neste contexto, Vítor Gaspar já tinha dito que o "mais tempo" que o Governo está pedir à troika não significa prolongar o prolongamento do programa de ajustamento. Este - reafirmou o ministro das Finanças - termina em Junho de 2014. E o envelope financeiro é o mesmo de sempre: 78 mil milhões de euros.

Seguro, porém, abriu o debate considerando que é tempo de "parar a austeridade" e aqui socialistas e Governo estiveram longe de se entenderem.

Para o secretário-geral do PS, "parar a austeridade" é não avançar com o plano de corte de quatro mil milhões de euros na despesa pública. Para o Executivo, pelo contrário, a implementação desse plano é essencial para, depois, se poderem baixar os impostos. "É inviável pedir mais despesa e menos impostos", disse Paulo Portas, explicando que isso "colide" com princípios de racionalidade económica "básica".

Governo e oposição também divergiram na justificação da origem do agravamento da crise: o Governo insiste em falar em razões "externas" (a recessão na UE) e a oposição considera que tudo radica nas próprias políticas definidas pelo Governo.

No final, Seguro reconheceria "uma evolução do CDS, acompanhada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros" ao encontro das posições do PS em defesa de "mais tempo para o défice" e de um "alívio no pagamento dos juros". Mas, advertiu, "não pode haver um governante bom e um governante mau"

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