Futuro de Carvalho da Silva "não passa" pelo PCP

O futuro político mais provável de Carvalho da Silva será à margem do PCP, consideram politólogos , que porém não são unânimes na avaliação do potencial do sindicalista, havendo mesmo quem o veja como líder social mas não político.

Apesar de "a sua origem e da sua socialização política" estarem no PCP, "nos últimos anos Carvalho da Silva tem assumido algumas posições críticas no interior do Partido Comunista", destaca António Costa Pinto, do Instituto de Ciências Sociais (Lisboa).

E a menos que haja "uma evolução do próprio PCP", o caminho de Carvalho da Silva -- que deixa o cargo de secretário-geral da CGTP no Congresso do próximo fim-de-semana - dentro do partido "não será provavelmente muito significativo".

"Ou seja, alguma subida na hierarquia do PCP terá de estar associada ou a uma rutura com a direção atual ou a uma 'recomunização' de Carvalho da Silva", acrescenta Costa Pinto.

Fora do PCP, "é evidente que os partidos de centro-esquerda e de esquerda estarão no fundamental sempre interessados numa figura importante junto da maior central sindical portuguesa" como candidato a diversos cargos.

Costa Pinto considera porém que, por exemplo, "não são previsíveis candidaturas presidenciais de frente comum entre o PS e o PCP com figuras tipo Carvalho da Silva", que "construiu uma carreira fundamentalmente ligada à CGTP e ao mundo sindical": "Há determinado tipo de cargos políticos eleitos que exigem personalidades mais transversais", conclui.

Também André Azevedo Alves, da Universidade de Aveiro, considera que algumas características do perfil de Carvalho da Silva "não são confortáveis" para o núcleo duro do PCP, que o vê como uma "escolha arriscada".

Mas "entra bem dentro do PCP" ao mesmo tempo que tem "fortes ligações à ala esquerda do PS" e "até a certos setores católicos", a que soma a uma "boa imagem mediática".

Assim, "pela relativa 'juventude', pelo passado, pelas ligações, pelo perfil, será quase inevitável que Carvalho da Silva venha a ter um papel ativo na reconfiguração da esquerda em Portugal", num espaço que engloba a ala esquerda do PS, o BE, o próprio PCP e outros pequenos partidos e movimentos sociais, considera Azevedo Alves.

O politólogo acredita que Carvalho da Silva poderá ter até "um papel mais abrangente que pode passar por uma candidatura presidencial", que já foi sugerida por Mário Soares.

Mas para ter este papel, e ter sucesso nesta opção, Carvalho da Silva teria de o fazer, "se não com uma desvinculação total do PCP", com "bastante independência" em relação ao Partido Comunista.

"As duas vias" - assumir um papel de destaque no PCP e ser protagonista numa reconfiguração da esquerda - "não são compatíveis", diz o politólogo, que acredita que esta segunda hipótese é a "mais expetável".

Azevedo Alves ressalva que porém só depois de ir a votos se poderá conhecer a verdadeira influência de Carvalho da Silva junto do eleitorado que não faz parte das bases de apoio da CGTP.

Já Adelino Maltês, do Instituto de Ciências Sociais e Políticas (Lisboa), considera que Carvalho da Silva "está talhado para grandes intervenções como líder social".

"Ele não é um líder político", afirma o politólogo, para quem o futuro de Carvalho da Silva não passa assim "necessariamente ou desejavelmente" pelo seu afastamento do PCP.

Isto embora Carvalho da Silva seja uma pessoa que "emergiu pelas suas qualidades" e "com uma identidade própria", recusando "a mera identidade de correia de transmissão do PCP".

"Portugal precisava sem dúvida de líderes destes, ele exprimiu naturalmente uma determinada força social, mais do que uma força politica", insistiu.

Adelino Maltez destaca ainda que "é raro líderes políticos e sociais fazerem percursos académicos" como aconteceu com Carvalho da Silva.

"Todos verificaram que se enriqueceu e contribuiu para a elevação do debate. É dos líderes sociais e políticos mais qualificados, em termos académicos e em termos de fundamentação, que temos em Portugal. Ninguém lhe nega uma coisa chamada qualidade", refere.

Quanto à possibilidade de uma candidatura presidencial de Carvalho da Silva, diz que "as circunstâncias, o querer das pessoas e a força que elas representam em termos de confiança pública é que a pode determinar; agora que saiu bem na fotografia da sua função, saiu. Isso é reconhecido, tanto por analistas como por adversários".

Também Costa Pinto enfatiza a "reconversão, até académica", de Carvalho da Silva nos últimos anos, que se doutorou e é hoje membro do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, assumindo uma "dimensão de estudioso das questões sociais".

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