Fim de 32 anos de PSD em Viseu? PS aposta tudo na mudança

Candidato socialista promete "grandes objetivos" com apoio dos ministros Pedro Nuno Santos, Marta Temido e Ana Abrunhosa e de António Costa. Fernando Ruas admite "reverter" erros do passado recente. CDS e BE consideram coligações pós-eleitorais com vencedor das eleições.

Nem que seja por um voto. A perspetiva realista é essa: ganhar, nem que seja por um voto. É a vitória mais esperada para o PS e é esperada há muitos anos. Os nossos estudos de opinião colocam-nos numa situação de empate. Já fui vereador, já fui presidente de câmara, sei o que é ganhar por muitos, o que é perder por poucos, mas neste caso este é o momento da mudança: acabar com os 32 anos de PSD que impediram que Viseu fosse a locomotiva da região."

João Azevedo, deputado, antigo presidente da Câmara de Mangualde, candidato do PS à Câmara de Viseu, afirma que o "PSD tem prejudicado, travado o desenvolvimento do concelho. Não existe abertura democrática, a mudança traz novas ambições, novas políticas. Fernando Ruas representa a pouca ambição, não tem sequer uma equipa motivada... está sozinho nos outdoors. Faz o papel de rainha de Inglaterra". Isso quer dizer o quê? "Que só por estar os problemas se resolvem, mas só está aqui porque sim. É o regresso de um presidencialismo. Tem um projeto maniqueísta de não abrir Viseu ao mundo e ao país, fazer de Viseu um dormitório. As pessoas são obrigadas a sair daqui de carro, porque os transportes também são um problema, e ir trabalhar para outros concelhos. Nós defendemos, porque é urgente, a criação de uma cintura industrial. Isso traz empresas, indústria, cria emprego... ele nunca fez essa aposta por opção política."

"Faço uma declaração de interesses: os viseenses têm uma oportunidade única. Há grandes objetivos, capacidade e força para atrair investimentos privados e públicos. O contexto está criado. Este é o momento do empoderamento de Viseu, da ligação aos centros de decisão. Para além da cintura industrial de que lhe falei, vamos reforçar a oferta e cuidados de saúde no Centro Hospitalar Tondela-Viseu, repor a ligação ferroviária que foi abandonada por Fernando Ruas..." Repor? Não precisa convencer Pedro Nuno Santos (ministro das Infraestruturas e da Habitação)? "Ele sabe que é preciso, sabe que é urgente..." Já falaram sobre isso? "Já... é esse o objetivo. E também com Ana Abrunhosa [ministra da Coesão Territorial]. Já falámos os três, a ferrovia é fundamental. Na área da saúde é ainda prioritário, por exemplo, a execução do centro ambulatório de radioterapia..." Outra competência do governo, como é que o vai fazer? "Quem quer vai, quem não quer manda... eu vou." Isso quer dizer o quê? "Que há quatro pessoas: eu, a Marta Temido, a Ana Abrunhosa e o próprio António Costa interessados em elevar os padrões de qualidade nos serviços de saúde pública." "Esta é a força de que Viseu precisa e não a ausência de ambição do passado", afirma.

Fernando Ruas, que já foi presidente da Câmara de Viseu entre 1989 e 2013, diz "estar entusiasmado"com o regresso e garante que irá dar "continuidade ao trabalho positivo e reverter o negativo". Negativo? "Corrigir aquilo que é preciso para haver mais desenvolvimento: os transportes coletivos, a questão dos resíduos sólidos e o equilíbrio urbanístico. A cidade, por exemplo, cresceu muito para sul e eu tenho um plano ambicioso para a zona norte. É preciso retomar o Centro de Artes e do Espetáculo, criar urbanizações em terrenos que são da câmara, também em terras que estão ao abandono."

"A industrialização? Sei que os meus adversários falam sempre disso. É injusto o que dizem para os empresários de Viseu, é como se não existissem. Há 11 mil empresas em Viseu, um terço das PME do distrito estão em Viseu. Se queremos mais empresas? Claro que sim, mas é igual em todo o país: todos querem mais. A industrialização não é uma solução... é preciso equilíbrio entre os vários setores: o comercial - Viseu sempre foi uma cidade muito comercial -, o setor agrícola, o turismo... e repare que já fomos por três vezes eleitos pela Deco como a melhor cidade para viver, duas vezes no meu tempo", garante Fernando Ruas.

O candidato do PSD compara João Azevedo, candidato socialista, a "uma espécie de sidecar" dos ministros que "por má consciência" e por Viseu "ser um concelho apetecível andam agora por aqui num corrupio". "A nossa sorte é que o PS nunca foi governo aqui, nunca aqui meteu a mão. O que aqui foi feito foi feito à custa do poder local: o governo há muitos anos que não investe aqui." O PS está confiante numa vitória, o António Costa vai estar aí na sexta-feira... "[Risos]... até podem acreditar, mas é completamente irrealista. Não acredito nisso. Estou esperançado." E as promessas de João Azevedo? "Dele? As pessoas não acreditam, sabem o que fez em Mangualde e o que o PS tem prometido. Há uma placa em Mortágua, foi lá posta em 2008, no tempo do Sócrates e do Mário Lino, a anunciar uma autoestrada a ligar Viseu a Coimbra. Autoestrada não há e a placa ainda lá está. Aqui em Viseu colocaram uma placa a anunciar o centro oncológico... sabe o que existe? Nada. É só promessas. Ele [João Azevedo] promete aqui um centro de saúde em cada freguesia. Sabe o que fez em Mangualde? Tirou três."

"Sempre venci por margens folgadas"

Fernando Ruas está convencido de que vai conseguir "uma maioria absoluta. Sempre venci por margens folgadas. Fui eleito seis vezes, na última com 64%. A sondagem pública que conheço dava seis vereadores para o PSD e três para o PS [em 2017 foi este o resultado] e as internas não divergem muito destes números". Mas também há outras internas dos seus adversários a dizer o contrário... "No domingo veremos, esse é o dia da grande sondagem."

Nuno Correia da Silva, dirigente nacional do CDS, vereador na Câmara de Lisboa e administrador na SAD do Sporting, espera conseguir "um grande crescimento do partido que termine com o ciclo do PSD. Construímos uma candidatura para vencer". Vencer, isso não é irrealista? "Quando me convidaram disse que vinha aqui para vencer. Tenho noção de que será difícil [o CDS obteve 5,1% dos votos em 2017], o PSD tem 24 das 25 freguesias, mas não tenho outra atitude que não seja a de vencer. Creio na possibilidade de virar uma página na história."

O candidato do CDS confia que a "candidatura de Ruas imposta por Rio" precisa "desesperadamente de manter a câmara. A sobrevivência de Rui Rio na liderança social-democrata discute-se aqui. Aliás, estamos confiantes em obter votos do PSD, de pessoas descontentes com Rio e com o regresso de Fernando Ruas. E há pessoas que já me disseram que vão votar em nós".

"Viseu está muito marcado pelo peso dos partidos e isso tem prejudicado o concelho, a cidade. Somos preteridos, somos castigados por este fenómeno, pagamos a fatura da falta de investimento por divergências políticas [com o governo] ou por opção política quando o governo é da mesma cor, preferem investir em concelhos do litoral, esquecem o interior", considera.

Nuno Correia da Silva que vê nestas eleições "uma oportunidade" não recusa "entendimentos" pós-eleitorais com PS - que "está com uma aposta muito grande, com meios fortíssimos. Eles acreditam que vão vencer" - nem com o PSD até porque "provavelmente nem um nem outro conseguirão maioria, mas desde que as nossas prioridades sejam aceites. Isso é fundamental".

Manuela Antunes, candidata do BE, espera conseguir que "se perceba que não é à direita, que é à esquerda que pode haver mudança. Viseu está entregue há demasiado tempo às mesmas pessoas. Queremos entrar pela primeira vez no executivo, eleger um vereador e reforçar o número de deputados na assembleia municipal, temos atualmente um".

A candidata do Bloco, que não arrisca "grande leituras políticas", considera que a possibilidade de "fragmentação à direita" pela chegada de novos partidos pode alterar o o xadrez eleitoral e "ser favorável" ao BE. E também porque Fernando Ruas "tem aniquilado os oito anos de Almeida Henriques. Não fala deste tempo recente. Só o ouvimos dizer que "sou o pai desta obra e desta", só fala do ele fez. Na verdade o que fez foi betão e agora quer mais urbanizações". Admite entendimentos pós-eleitorais? "Só têm lógica se as nossas prioridades forem respeitadas. Estamos de porta aberta, mas engolir sapos é que não." E o que diz de ver ministros em Viseu? "[Risos]... gostamos de cá ter gente, mas só cá vêm nas eleições. É a vontade de querer autarcas socialistas por causa do PRR [Plano de Recuperação de Resiliência]... é só do que falam, de dinheiro e dinheiro."

Francisco Almeida, candidato da CDU, espera "reforçar a presença na assembleia municipal e eleger um vereador. Tudo indica que vai haver uma fortíssima divisão de votos, principalmente na direita, por causa do número de partidos. E isso significa que serão precisos menos votos para eleger um deputado, com 4 mil votos pode ser possível. Já houve pessoas do PSD e até do PS que me vieram dizer que iam votar em mim, pessoas que estavam em listas, mas que foram excluídas".

"Sabe qual é a nossa mais-valia? Conheço a palmo o concelho, todas as povoações, todas as aldeias, todas as freguesias. Conhecer a terra, saber dos problemas concretos, explicar as nossas propostas, faz a diferença. Os ministros podem vir para cá à vontade, até pode vir o governo todo que não conseguem esconder que são incapazes de apostar em medidas para Viseu. No PRR, por exemplo, só há uma medida para Viseu, e é para o distrito todo: é uma estrada, quatro ou cinco quilómetros ali na zona industrial. Enchem a boca com o desenvolvimento do interior e é só isto?"

Diogo Chinquelho, candidato do PAN, que tem como objetivo principal "a eleição de um deputado na assembleia municipal. Um vereador seria bom, mas não é o primeiro objetivo", considera "estranho que Fernando Ruas esqueça Almeida Henriques. Só fala do seu tempo, das glórias do passado, até parece que não dá a cara pelo PSD, mas por si próprio. O PSD foi inteligente na escolha dele, o outro da concelhia era mais fraco, mas diz-se que pode não cumprir o mandato todo, que é uma tática para ganhar a câmara e depois sair. Espero que o senhor Ruas não faça isso, espero que seja um boato". E a aposta do PS com o apoio de vários ministros? "Há uma aposta grande para roubar, pela primeira vez, a câmara ao PSD. Até se ouve dizer que já têm 3% de vantagem. Os ministros? O que me aflige é o aproveitamento, são falaciosos nas suas funções de governantes"

Fernando Figueiredo, candidato da Iniciativa Liberal, diz que "seria excelente chegar a terceira força política", conseguir o voto dos mais mais jovens "dos que têm 30, 40 anos e a quem a marca Ruas pouco diz", mas num concelho "muito conservador não é fácil passar uma mensagem mais urbana".

O candidato admite que o PSD pode sofrer de "alguma fragmentação" por causa da chegada da IL e do Chega, mas "gostaria que isso não acontecesse para o lado desse partido, seria uma derrota se tivesse uma votação superior à nossa. Sou de Viseu, os meus filhos nasceram aqui, quem me tira Viseu tira-me tudo... não quero esse futuro para os meus filhos".

artur.cassiano@dn.pt

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