Eleições no final de fevereiro? "É uma parvoíce completa" 

David Justino, vice-presidente de Rui Rio, diz que o Governo de António Costa já entrou em campanha eleitoral, enquanto os sociais-democratas perdem tempo com "questões de mercearia".

O vice-presidente do PSD David Justino qualifica como uma "parvoíce completa" defender que as eleições legislativas se realizem apenas no final de fevereiro e acusa Paulo Rangel de estar mais preocupado com "gestão de mercearia" do que com os problemas do país.

Na quinta-feira, Rangel apelou a que as eleições para a Assembleia da República se realizem "num prazo razoável, racional e rápido", apontando para 20 ou 27 de fevereiro, datas que permitirão a "estabilização" das lideranças nos partidos. "Ou o dr. Paulo Rangel sabe mais do que nós ou isso é uma parvoíce completa, está a pensar na posição dele e não na necessidade do país", atira o dirigente social-democrata, numa altura em que "estamos perante uma situação conjuntural muito complicada". "Eu continuo a preocupar-me mais com o país do que com as eleições internas no PSD", diz David Justino. Rui Rio já tinha defendido que as eleições se deveriam realizar "o mais rapidamente possível" depois do período natalício e ontem, em entrevista à SIC, precisou datas - 9 ou 16 de janeiro, mais de um mês antes do sugerido por Rangel.

Com datas em cima da mesa, Rio pressiona assim a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa, numa altura em que, diz David Justino, o governo já vai fazendo campanha eleitoral: "O PS começou a fazer campanha eleitoral durante o debate do orçamento e não vai parar. É o anúncio do aumento do salário mínimo... e vão continuar a fazer isto. E enquanto o Governo está a fazer campanha eleitoral, nós andamos a debater questões de mercearia".

O PSD tem eleições diretas marcadas para 4 de dezembro e o congresso agendado para 14,15 e 16 de janeiro. Sessenta e oito conselheiros entregaram esta semana um requerimento para antecipar o conclave para 17, 18 e 19 de dezembro. Embora o líder seja escolhido logo no início de dezembro, precisa de ir a congresso para definir os órgãos nacionais, que depois terão de aprovar as listas às legislativas.

Sobre as críticas de Rangel a Rui Rio, depois da reação do presidente do PSD à audiência do adversário em Belém, David Justino diz que o eurodeputado e candidato à liderança está a tentar fazer uma "desvalorização enganadora" do sucedido: "Acho que a opinião pública está esclarecida, eu não vou acrescentar nada. Agora, querer tapar o sol com a peneira é uma coisa que não fica bem a um candidato a líder do PSD".

Na quarta-feira, perante a notícia de que o Presidente da República tinha recebido Paulo Rangel em Belém na véspera, Rui Rio reagiu indignado, considerando "muito estranho que o Presidente da República receba um putativo candidato à liderança de um partido". "Se for verdade o que vem nos jornais, que ainda por cima o que lá foram tratar foi a data das legislativas e tendo em vista a data das diretas do PSD, significa que vamos condicionar o país às diretas do PSD", criticou então o líder social-democrata - "Se assim foi, peço desculpa, tenho o máximo respeito pela figura do Presidente da República, pelo professor Marcelo Rebelo de Sousa, mas tenho de discordar frontalmente". Um dia depois, Rangel não poupou estas declarações do presidente do partido: "Verbero a forma como tratou o Presidente. Um candidato a líder de um partido deve sempre o respeito institucional ao Presidente da República". Pelo meio, Marcelo Rebelo de Sousa disse ter-se tratado de uma visita de cortesia ("Eu sou como sou e falo com toda a gente, quando me pedem audiências de cortesia, recebo"), mas a audiência em Belém deixou instalada a desconfiança na direção do PSD.

Sobre a marcação de um Conselho Nacional para antecipar o congresso, o vice-presidente social-democrata não quer fazer antecipações, mas não poupa as críticas: "Andamos a fazer gestão de calendários e andamos sempre atrás de uma agenda que não é a agenda do PSD. Para mais, estar precipitadamente a fazer alterações de calendário, quando não sabemos para que data o Presidente da República quer convocar eleições, não me parece o mais avisado. A não ser que o dr. Paulo Rangel saiba mais do que eu", diz David Justino, numa alusão ao encontro em Belém. "A asneira está feita, foi feita na anterior reunião do Conselho Nacional", condena Justino: "O dr. Rui Rio teve oportunidade de avisar quais eram os riscos que estávamos a correr. Uma parte maioritária dos conselheiros não entendeu da mesma maneira, agora têm que assumir responsabilidades. Se num próximo Conselho Nacional quiserem ver as coisas de uma forma desapaixonada, podemos conversar. Se continua a grande preocupação em torno das listas, das candidaturas e do debate interno, acho que isso vai contaminar a análise".

CDS partido em dois

Se no PSD o ambiente é de tensão interna, no CDS está ao nível da rutura. O partido tinha agendado para a noite de ontem um Conselho Nacional extraordinário - convocado com caráter de urgência pelo líder, Francisco Rodrigues dos Santos - para decidir o adiamento do congresso, marcado para 27 e 28 de novembro. Uma iniciativa que foi recebida por Nuno Melo, candidato à liderança, com acusações de que a direção dos centristas está a ensaiar uma "suspensão da democracia interna" no partido, um "verdadeiro golpe de Estado". A missiva era assinada, entre outros, pelo antigo líder parlamentar, Nuno Magalhães, pelos antigos ministros António Pires de Lima e Pedro Mota Soares e pelo líder da distrital de Lisboa, João Gonçalves Pereira.

Já de madrugada, após o final da Comissão Política, o vice-presidente do partido diria que só "haveria uma perturbação da vida democrática interna" se os órgãos não fossem ouvidos quanto ao adiamento do congresso. "Quem me dera ter um congresso daqui a 15 dias, mas sendo racional, sendo responsável, acho que é melhor ter um congresso depois das legislativas", defendeu.

Conselho Nacional em dúvida

Mas Nuno Melo não se ficou pelas críticas e avançou com um pedido de impugnação do Conselho Nacional junto do Conselho Nacional de Jurisdição do partido que, já em cima da reunião dos conselheiros centristas, deu razão ao eurodeputado. Conhecida a decisão, Melo reagiu no Facebook, argumentando que, face à decisão do tribunal do partido, a reunião não se poderia realizar e que "qualquer expediente para evitar as eleições de delegados ao congresso agendadas para o próximo domingo" transformaria o CDS "numa realidade à margem da democracia e do próprio Estado de direito".

Mas a realização do Conselho Nacional acabou por ir a votos dos conselheiros. Ao início da noite de sexta-feira a reunião tinha sido votada e aprovada com 132 votos a favor e 84 contra, mas a votação estava a ser contestada pelos apoiantes de Nuno Melo.

susete.francisco@dn.pt

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