"É daqui por seis meses que eu como?"

Pescadores e armadores de Sesimbra denunciam situação dramática que vive o sector devido ao mau tempo, às quotas comunitárias e aos preços de venda muito reduzidos. PCP compromete-se, nas jornadas parlamentares, a apresentar propostas na Assembleia da República.

Quando João Oliveira e João Ferreira chegaram esta terça-feira às instalações do Porto de Sesimbra já vários trabalhadores tinham lançado as mãos às redes e aos diversos materiais para prepararem mais uma jornada no mar. António Cascais foi um dos primeiros a que o líder parlamentar e o eurodeputado do PCP se dirigiram e uma das vozes de inconformismo que ouviram por causa das dificuldades ali sentidas.

"Vocês têm de arranjar solução para isto, porque o pescador farta-se de trabalhar e quando há estas intempéries não está salvaguardado. Como é que se sobrevive? Quanto tempo leva a chegar o dinheiro do fundo? É daqui a seis meses que eu como?", insurgiu-se o pescador, em alusão às contrariedades meteorológicas dos primeiros dias deste ano, criticando ainda a morosidade da aplicação do fundo de compensação salarial, um apoio criado pelo Governo para minimizar os prejuízos dos profissionais que têm sido impedidos de sair para o mar.

Aí, João Oliveira garantiu que os comunistas vão levantar a questão do acesso a essas verbas na Assembleia da República (AR), porque, frisou, é essencial que a sua transferência seja "imediata". Caso contrário, retorquiu António Cascais, "quem se lixa é o mexilhão", isto é, o pequeno pescador e armador que "tem de ser compensado quando está parado". "Tomara que eu não tenha de recorrer a esse subsídio. Quero é trabalhar", atirou ainda, enquanto alinhavava a rede para horas mais tarde ser utilizada.

Por sua vez, o cabeça de lista da CDU às eleições europeias de 25 de maio, João Ferreira, lembrou as iniciativas dos comunistas, em Bruxelas e Estrasburgo, relacionadas com o sector, em particular a do defeso biológico, assinalando, noutro capítulo, que "mais de metade dos fundos comunitários" se destinaram ao abate das frotas pesqueiras.

Numa altura em que o Executivo e o Presidente da República destacam recorrentemente a importância do mar para a recuperação económica, João Ferreira condena a diferença entre as palavras e os atos dos responsáveis políticos e aponta uma solução para reequilibrar a balança entre aqueles que capturam o pescado e os que procedem à distribuição: "Defendemos que haja margens máximas para a intermediação. Atualmente, há margens abusivas, a diferença entre a primeira venda e a final é enorme. O carapau, por exemplo, chega à lota a 24 cêntimos e aos supermercados a seis ou sete euros. A UE tem a crença de que o mercado regula tudo..."

Talvez por isso, na visita, a comitiva comunista - no segundo dia de jornadas parlamentares - tenha ouvido, de viva voz, um reformado, que não deixa o labor diário por necessidade, revelar que "em Sesimbra já há muita fome". "Envergonhada, mas há..."

"O pescador tem de ir cada vez mais longe para capturar o peixe-espada preto. Vende-o a 3,5 euros e no mercado chega aos 16. A primeira venda, às vezes, nem para as despesas dá", contou o veterano. E a ideia é reiterada por outro colega: "Tenho 50 anos disto e não me admira que, com quotas e tantas dificuldades, haja quem venda fora da lota."

Não será, portanto, de estranhar que os jovens se afastem das atividades piscatórias e de todas as outras relacionadas com os recursos marítimos, face aos riscos, ao desgaste rápido e aos proveitos cada vez mais reduzidos. A exceção, por ali, é André Marques. Em Sesimbra há um ano, queixa-se do facto de "nem salário base haver", apesar dos longos períodos longe da terra. "Há dias em que fazemos 15 horas de mar e voltamos sem nada", lamenta.

Ofício de desgaste rápido, ser pescador não é para quem quer, mas para quem pode. Ainda que a lei permita a reforma a partir dos 55 anos, aquela gente tem de fazer uma opção: a traineira ou a pensão. E nem essa compensa, porque, regressando ao início do caos no sector, os descontos para a Segurança Social são feitos com base nos preços da primeira venda, que, como destacam os locais, os empurram depois para uma aposentação em que não podem deixar o cais. Ou mesmo o mar.

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