Durão Barroso:"Eu teria mantido os Assuntos Europeus na dependência do MNE" e não de Costa

Antigo primeiro-ministro e presidente da Comissão Europeia elogiou João Gomes Cravinho e recordou as interações que teve com Putin, incluindo um jantar na casa de campo do presidente russo.

O antigo primeiro-ministro e presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou esta quarta-feira que teria "mantido os Assuntos Europeus na dependência do Ministério dos Negócios Estrangeiros", em vez de os colocar na dependência do primeiro-ministro, como António Costa fez.

Ainda assim, Barroso deixou elogios ao novo ministro dos Negócios Estrangeiros. "Gosto de João Gomes Cravinho. É uma pessoa preparada do ponto de vista internacional", afirmou, na Grande Entrevista da RTP 3.

Instado a comentar a política interna, Durão Barroso lembrou que o seu partido é o PSD e disse que "não seria bom que um partido se mantivesse tanto tempo no poder", em alusão ao Partido Socialista, que governa desde o final de 2015.

Ainda assim, a esmagadora maioria da entrevista focou-se na Guerra na Ucrânia, até porque o antigo primeiro-ministro é o português que mais vezes esteve com Vladimir Putin. Quando o presidente da Rússia tomou a Crimeia e invadiu a Geórgia, a Comissão Europeia era liderada por Durão Barroso.

Barroso diz estar "cético quanto a um acordo duradouro". "É preciso ver para crer. Estão a haver negociações ao mesmo tempo que se estão a ver combates", realçando que "Zelensky está a dar sinais que está disposto a aceitar o status neutro da Ucrânia, pelo que Putin já poderia sair desta situação sem parecer um derrotado".

O antigo governante recordou ainda as conversas que teve com o presidente russo quando liderava a Comissão Europeia. "Estive pela primeira vez com Putin quando era primeiro-ministro de Portugal. No início de 2005, quando já era presidente da Comissão Europeia, jantámos na sua casa de campo em Moscovo, e ele quis mostrar uma convergência com a UE nas questões de civilização e cristianismo. Putin sempre quis que os países europeus estivessem dependentes da energia russa. Em 2008 avisou que ia deixar de fornecer energia à Europa, porque a Ucrânia lhe estava a roubar energia. Putin recusava-se a aceitar a parte legal da União Europeia sobre o mercado interno", afirmou, criticando a Alemanha por não ter encontrado alternativas à energia russa.

"A ideia que Putin é um grande estratega não é minha. É antes um taticista. Putin não é um histriónico. É frio e cínico, verdadeiramente cínico. Do ponto de vista emocional, Putin é extremamente marcado pela queda da União Soviética. Não pela queda do comunismo, mas pela queda da União Soviética. Putin foi ganhando alguma arrogância e despeito. Agora até também um certo revanchismo", acrescentou, frisando que Putin lhe disse aquando da anexação da Crimeia que "podia tomar Kiev em duas semanas". "Putin nunca aceitou a ideia de uma Ucrânia independente", sublinhou.

Durão Barroso defendeu ainda que a União Europeia tem de investir em Defesa. "A UE não pode ser uma organização supranacional de escoteiros. Assistimos a um investimento sem precedentes na NATO. Os europeus têm que investir na Defesa. E não pode haver uma Defesa europeia forte sem uma Alemanha forte", rematou.

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