Diretor-geral da Autoridade Marítima defende escutas nas secretas

Silva Ribeiro defende também a criação de grupos operacionais especiais das secretas para ações no exterior. Mas, é na qualidade de académico, professor do ISCSP, que se pronuncia sobre o polémico tema.

Em resposta a uma pergunta do DN, o recém-nomeado diretor-geral da Autoridade Marítima, que no passado foi diretor operacional do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e Militares (atual SIED), deixou clara a sua opinião favorável a que os serviços de informações portugueses possam fazer interceção de comunicações.

"Não vejo como é que se pode combater uma ameaça dessas sem instrumentos que deem capacidade aos serviços de informações de terem agentes encobertos, de se infiltrarem, de recrutarem agentes no exterior, de fazerem escutas. São todas atividades que os serviços das grandes democracias mundiais fazem. É preciso ter consciência disso. Os países que têm democracias há centenas de anos, democracias estáveis, respeitáveis, que são nossos parceiros na NATO e na UE, fazem essas atividades. Portanto, acho que nós ainda não ultrapassámos devidamente os traumas do passado, onde havia uma polícia política que também era serviço de informações. Talvez para a pena refletir isto do ponto de vista estratégico para que depois estas medidas não tenham que ser tomadas depois de mais alguma tragédia no território nacional", asseverou, recordando só depois do dirigente palestiniano Issam Sartawi ter sido assassinado em 1983 no Algarve, "se começou a criar o serviço de informações em Portugal".

Num almoço-debate do "International Club of Portugal", hoje realizado em Lisboa, subordinado ao tema "os serviços de informações no combate ao terrorismo", o também comandante-geral da Polícia Marítima, considerou que as secretas dos países aliados, NATO e União Europeia, em que se inclui Portugal, deviam ter uma espécie de 'braço-armado' para combater o terrorismo "fora do seu território" e "neutralizá-lo na sua origem".

Estes "grupos operacionais especiais", no seu entender, "permitiriam ultrapassar as barreiras clássicas da ação externa, encoberta, das informações, colocando a sua ação no plano das intervenções diretas, secretas e discretas no combate ao terrorismo".

Silva Ribeiro reconheceu que "alguns países aliados não apoiam a constituição destes grupos operacionais dos seus serviços de informações e consideram que as forças especiais das forças armadas estão preparadas para realizar tarefas de identificação e neutralização dos alvos terroristas". No entanto, afiançou, "esta é apenas uma das vertentes do combate ao terrorismo, que não dispensa a constituição e sustentação de redes de pesquisa de informações. Para isso os grupos operacionais especiais dos serviços de informações aliados devem ter uma forma de atuação muito menos formal em termos dos procedimentos logísticos, operacionais e administrativos que as forças militares especiais. Além disso, como dispõem de grande flexibilidade conseguem congregar apoio local".

Para Silva Ribeiro a estes operacionais teriam capacidades únicas: "o pessoal que integra estes grupos tem de possuir capacidade para identificar os alvos terroristas; constituir e sustentar as redes de pesquisa de informações, atividade realizada em permanência e com grandes exigência técnicas, porque implica grande conhecimento dos locais a atuar; facilidade para aprender línguas e total disponibilidade no campo da formação específica. Para isso, o pessoal dos serviços de informações é sujeito a uma demorada preparação, onde aprende técnicas de infiltração em países e organizações hostis, os códigos de comunicações para a recuperação de mensagens, o recrutamento de agentes, contra-vigilância, contra-terrorismo e o salvamento de reféns, técnicas que normalmente não são ministradas aos membros das forças especiais militares, com a profundidade exigida a um operacional dos serviços de informações aliado".

O vice-almirante, que estava vestido à civil, na sua qualidade de académico perito em estratégia, defendeu ainda uma "coordenação nacional e internacional" mais forte entre os serviços de informações, as forças e serviços de segurança e as forças armadas". Deu como exemplo a "sinergia" positiva criada no pós-11 de setembro dos EUA, entre estes três organismos e o "papel determinante" que têm tido "sob coordenação dos organismos civis de gestão de crises".

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