Dificuldades económicas potenciam crença no inferno

São os países da UE mais penalizados pelas dificuldades financeiras que maiores índices de religiosidade apresentam. Em Portugal, um estudo mostra que a austeridade tem aumentado as desigualdades.

Longe de ser um domínio linear e um capítulo fechado do ponto de vista científico, a verdade é que são os países da UE com maiores dificuldades financeiras e mais agonizados com as questões sociais que apresentam maiores índices de religiosidade. Do catolicismo à ortodoxia cristã, passando pelo protestantismo, há um traço comum: a fé acaba por ser um refúgio para o dia a dia menos próspero.

Basta ver, a título de exemplo, que a crença no inferno é mais partilhada em países como Roménia, Chipre ou Grécia e que Portugal vem na 11.ª posição - com 35% da população a acreditarem na existência do inferno no pós-vida -, longe das percentagens da Alemanha (14%), Suécia (10%) e Dinamarca (9%).

E a assimetria externa no domínio da religiosidade tem paralelo na disparidade interna no que respeita aos recursos financeiros das famílias. Novos dados do INE atualizam o estudo publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), em 2012, sobre a evolução das "Desigualdades económicas em Portugal" tendo por referência o ano de 2009.

De acordo com o autor, o economista Carlos Farinha Rodrigues, "a tendência que se verificava para um agravamento da desigualdade em 2010 confirmou-se em 2011. E o que era uma grande probabilidade, 2009 ser o fim do ciclo na redução das desigualdades, também, se confirmou", ou seja, "as desigualdades aumentaram a partir de 2010", disse ao DN.

Uma das conclusões do estudo, considerada particularmente significativa, é a evolução da taxa de pobreza dos idosos em Portugal que, no período de 15 anos, se reduziu de cerca de 40% em 1993 para próximo de 21% em 2009. Contudo, redução semelhante "não ocorreu com a pobreza infantil que permanece bastante elevada".

Outro dos aspetos demonstrados é que até 2009, apesar da desigualdade familiar ter reduzido em Portugal, a desigualdade salarial manteve-se com um ligeiro crescimento, registando-se dinâmicas diferentes. Segundo a interpretação dos dados do autor, "a desigualdade familiar cresceu presumidamente à custa das transferências sociais", uma referência ao rendimento mínimo garantido criado pelo Governo PS de António Guterres, que "foi suficiente para contrariar o agravamento da desigualdade salarial", justifica Carlos Farinha Rodrigues. Já quando se analisa a desigualdade salarial verifica-se que há um período inicial que vai de 1985 a 1994 de "continuado acentuar da desigualdade", segue--se, na segunda metade dos anos 90, um período de "atenuação de assimetrias salariais mas que não é, contudo, suficiente para reverter o agravamento prévio". Essas desigualdades voltam a agravar-se em 2005 para se atenuar ligeiramente após esse ano. Na distribuição salarial constata-se que são os indivíduos com maiores rendimentos que veem o seu share aumentar de seis pontos percentuais entre 1985 e 2009, passando de 24% para 29,8% de ganho total, um aumento superior a 24%.

Entre 1985 e 2009 verificou-se um forte agravamento da desigualdade salarial a registar um agravamento superior a 6 pontos percentuais, passando de 28,4% para 34,4%. Todos os índices de desigualdade considerados neste estudo registam taxas de crescimento superiores a 20% ao longo do período. O estudo usou como fontes de informação os inquéritos às famílias feitos pelo INE e a informação produzida pelo Ministério da Segurança Social a partir dos quadros de pessoal.

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