"Deve haver investimento público na criação de emprego mesmo que não seja altamente produtivo"

O economista e professor António Rebelo de Sousa jubila-se e lança um livro de reflexão sobre uma nova ordem internacional, pautada pela procura do bem-estar das pessoas. Defende uma União Europeia como modelo de desenvolvimento.

A jubilação na Universidade Lisboa é o pretexto para o lançamento do livro de António Rebelo de Sousa, Do Liberalismo ao Neo-realismo, no dia 30 de Novembro, pelas 18.00, na Gulbenkian. O economista, professor universitário e irmão do Presidente da República explora nesta obra a sua visão de um nova ordem internacional, que tenha em conta as especificidades dos países e das resposta que têm de ser dadas em prol do bem-estar das populações.

António Rebelo de Sousa, que se assume "liberal político", defensor dos regimes democráticos ocidentais, casa essa visão com a dos que se batem pela chamada "real politik" ou seja com as das teorias realistas que defendem que é preciso ter uma postura pragmática e negociar até com países que têm governo que não são democráticos.

"Temos que compreender que ainda existem problemas de natureza social, que tem a ver com usos e costumes de determinadas comunidades, que não se adaptam necessariamente e à conceção que temos de sistema político e temos de saber conviver com elas". Mas, assegura, "é preciso procurar influenciar os decisores políticos no sentido de compreenderem os nossos valores e se converterem às nossas conceções do poder democrático". Encaixa aqui as relações, por exemplo com a China - cujo governo considera totalitário. "A principal mensagem do livro é que temos de sermos pragmáticos, mas sem nunca abdicarmos dos nossos valores", afirma ao DN António Rebelo de Sousa.

Continua a acreditar que os valores ocidentais vão prevalecer nos próximos 30 anos, com predominância dos Estados Unidos e da Europa, embora com a emergência das novas potencias, no caso a Índia, China e Japão

Na esfera económica, não é um liberal e defende que é preciso um modelo de desenvolvimento a duas velocidades. "Apostarmos na competitividade, no crescimento económico, no progresso tecnológico, o setor de bens transacionáveis, que é mais ligado às exportações, mas por outro lado é importante não perdemos de vista que o objetivo de um economista não é só de eficiência económica é também de assegurar o bem-estar". Há, afirma, um objetivo de justiça social, de distribuição de rendimento. "Devemos apostar em algumas políticas de investimento público e de apoio às PME, de criação de emprego, mesmo do que não seja altamente produtivo, mas que permita que as pessoas façam alguma coisa de útil em vez de estarem em casa a receber o subsídio de desemprego."

Dá o exemplo da Tunísia para demonstrar que quando só se olha para os "critérios ortodoxos" da economia, sem olhar ao desconforto social, podem surgir ruturas. António Rebelo de Sousa lembra que há dez anos, aquele país tinha uma taxa de crescimento de 5% ao ano, um défice orçamental de 1% do PIB e uma dívida pública de 30% do PIB. "Estava de boa saúde financeira, mas teve a primavera árabe..." E porquê? "Tinha 30% de taxa de desemprego".

Sobre a União Europeia, cujo papel de modelo de desenvolvimento internacional defende, o professor entende que "tem grandes progressos" e "tem conseguido avançar no processo integracionista de forma relativamente consistente". E apesar do desaire do Brexit e da saída do Reino Unido.

Assume-se como federalista, e diz que a UE está a dar passos largos nesse sentido e recorda que já há um ministro dos Negócios Estrangeiros da UE e presidentes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu, que representa os 27 em bloco. "Já estamos a meio caminho do federalismo. Tenho a sensação que as pessoas quando estão a falar da Europa, entre a opção do federalismo ou governo das pátrias, fazem um bocado lembrar aquelas pessoas que já vão em Pombal e que não percebem que vão a caminho de Coimbra", diz com ironia.

E na senda da criatividade que defende em todas as áreas, lança uma proposta para uma maior eficiência da União. Para evitar a troca constante de ministros nas reuniões do Ecofin, dado que os 27 têm eleições nacionais desfasadas, porque não as fazer todas na mesma altura das europeias de cinco em cinco anos, salvo exceção para países que entrem em crise política, como é o caso de Portugal neste momento.

Do vastíssimo rol de matéria abordadas na obra - com prefácio de várias personalidades, entre as quais o próprio Marcelo Rebelo de Sousa, Guilherme d"Oliveira Martins, o almirante Silva Ribeiro e Ramalho Eanes - António Rebelo de Sousa trata ainda o desafio das alterações climáticas. Ponto em que afirma que não devemos descartar totalmente a energia nuclear.

António Rebelo de Sousa foi o primeiro líder da JSD, em 1974, e deputado na bancada do PSD de 1976 a 1980. Saí com as Opções Inadiáveis e ainda é deputado da ASDI durante e seis meses. Acabou por se filiar no PS e também foi parlamentar na bancada socialista.

paulasa@dn.pt

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