O "antídoto" Marcelo e a esquerda de costas voltadas 

No último debate entre os líderes partidários (mas sem Rio e Ventura), Costa deixou a esquerda sem resposta quanto a convergências no pós eleições. Maioria absoluta pedida pelo PS voltou a centrar todas as críticas, agora com Marcelo Rebelo de Sousa pelo meio.

António Costa começou a semana a dizer pela primeira vez, com todas as letras, que quer uma "maioria absoluta", e acaba a semana a invocar Marcelo de Rebelo de Sousa como garantia contra excessos... de uma maioria absoluta.

Ontem, no último debate entre os candidatos às eleições legislativas, organizado pela TSF, Rádio Renascença e Antena1, o líder socialista - que já disse que os "portugueses não gostam de maiorias absolutas" - lembrou que "muitas pessoas têm receio das maiorias, houve más experiências com maiorias". Mas foi acrescentando que, no atual cenário político, há um antídoto: "Quem é que acredita que, com Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente, uma maioria do PS podia pisar a linha?". Houve risos à direita, Costa insistiu e lembrou que "toda a próxima legislatura vai ser exercida sob o mandato do atual Presidente da República, em "quem os portugueses confiam plenamente".

Com as jornalistas que conduziram o debate a evocarem a convivência difícil entre Cavaco Silva (enquanto primeiro-ministro com maioria absoluta) e Mário Soares, Costa começou por se referir ao antigo líder social-democrata para dizer que "seguramente Cavaco Silva não é um bom exemplo de Presidente da República para ninguém." Mas, voltando atrás no tempo, sustentou que "tal como Mário Soares impôs limites, o atual Presidente da República imporá limites também".

Argumentos que não colheram entre os restantes líderes partidários. Como já tinha acontecido no debate televisivo da última segunda-feira, todos fizeram mira à maioria absoluta pedida pelo PS, desta vez com Marcelo pelo meio. Primeiro, foi João Cotrim Figueiredo, presidente da Iniciativa Liberal, a contestar a argumentação de Costa: "Espero que o Presidente da República assuma um papel que não assumiu no primeiro mandato e que faz com que toda esta teoria que António Costa está a vender caia pela base. Durante o primeiro mandato houve uma enorme proximidade e falta de exigência do Presidente da República perante as opções de António Costa". Depois, Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS: "Parece que vai sentar Marcelo Rebelo de Sousa no Conselho de Ministros. De repente [o Presidente da República] tornou-se o fiel da balança, uma espécie de padrinho que cauciona a maioria absoluta, que normalmente se converte em arrogância absoluta".

Sem envolver Marcelo na liça ("seria um erro agora quererem que o Presidente da República esteja na campanha eleitoral"), Catarina Martins, coordenadora do BE, também ripostou contra a maioria absoluta pedida por Costa: "As pessoas têm medo da maioria absoluta por uma boa razão. Sabem que são permeáveis aos interesses económicos." Tal como Inês Sousa Real, líder do PAN, que defendeu que os portugueses não querem esse resultado e aproveitou para lançar uma pergunta a Costa: "Gostava de saber se está disposto a rever o modelo atual dos debates [alterado por PS e PSD] e ter uma presença regular na Assembleia da República". Não teve resposta.

O duelo particular à esquerda

Sem Rui Rio e André Ventura no debate - ambos invocaram a campanha eleitoral para não marcar presença - o duelo Costa/Rio que tinha marcado o debate televisivo entre os líderes partidários foi ontem substituído pela constante troca de críticas à esquerda.

"O PS parece estar a querer confinar-se no pior da sua tradição. Ou tem maioria absoluta ou é governação peça a peça e entendimentos com o PSD", criticou João Oliveira, apelando ao voto na CDU como uma forma de "reforçar a convergência" para responder aos problemas do país. E deixou uma questão muito direta a António Costa (que entretanto sorria ): "Recusa a convergência com a CDU? Recusa uma convergência que afaste a direita do poder e que abra a perspetiva de dar uma resposta global aos problemas do país?".

Na resposta, António Costa sustentou que "a experiência demonstrou que a geringonça funcionou bem quatro anos e depois nestes dois anos não provou". Voltou a atirar ao Bloco de Esquerda, que se colocou "fora da solução de governo" logo em 2020, voltando à posição de "partido de protesto". "O diálogo é sempre possível com todos" - "mais facilmente à esquerda que há direita" - mas " há limites", sustentou o líder socialista, sem nunca responder diretamente ao repto lançado por João Oliveira.

Pelo caminho a "ecogeringonça" (aliança entre o PS, PAN e Livre) já sugerida por Rui Tavares também sofreu um revés no debate de ontem, com António Costa a definir como uma "linha vermelha" o recurso à energia nuclear, encarada com "grande abertura no programa do Livre". Rui Tavares contrariou: "O que o Livre diz é que se deve seguir os estudos sobre fusão nuclear. Portugal participa nesses estudos. Se é contra tem que demitir o seu ministro da Ciência."

Lei de emergência sanitária?

Questionado sobre uma nova lei de emergência sanitária, que dê resposta às questões entretanto levantadas pela pandemia, António Costa revelou que já tem em mãos um anteprojeto de lei, elaborado a pedido do Governo e que será enviado à Assembleia da República. Não terá a concordância da bancada comunista. Para o PCP a resposta dos portugueses à pandemia mostra que não há necessidade de uma lei específica, "muito menos" que passe por uma revisão constitucional. Também o BE não quer mexer na Constituição. Embora admita ajustes ao atual quadro legal, Catarina Martins defende que mais restrições não são a solução. Para o PAN justifica-se avançar para uma nova lei de emergência sanitária, desde que não restrinja os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Inês Sousa Real mostrou também disponibilidade para rever a Constituição, não só por esta questão, mas também para inscrever a proteção animal na Lei Fundamental. Já Cotrim Figueiredo manifestou total oposição. Também Francisco Rodrigues dos Santos defendeu que o quadro legal permitiu responder à pandemia e manifestou-se contrário a alterações.

Educação. Mais incentivos aos professores

Passando por outro tema até agora pouco abordado nos debates, a Educação, João Oliveira defendeu apoios à fixação e habitação dos professores deslocados, bem como a revisão das carreiras dos trabalhadores públicos. Francisco Rodrigues dos Santos defendeu igualmente a atribuição de subsídio de habitação e deslocação aos docentes (com João Oliveira a questionar porque votou contra essa proposta apresentada pelo PCP), enquanto Catarina Martins sustentou que "os professores têm carreiras e salários que nos devem envergonhar" e que devem ser revistos. Para Cotrim Figueiredo, Portugal fez um enorme progresso na Educação nas últimas décadas, mas há muito por onde melhorar, nomeadamente com uma maior autonomia das escolas. Inês Sousa Real, por seu lado, defendeu maior progressividade na carreira docente, um setor que deve ter uma "mudança de paradigma". O PAN, tal como o Livre, defende a contagem integral do tempo de serviço dos professores. Já Costa defendeu que é preciso alterar o modelo de contratação de professores e permitir uma vinculação mais rápida.

Todos contra o referendo à eutanásia

O debate promovido pelas rádios acabou com uma ronda de três perguntas de resposta rápida e uma rara unanimidade: questionados sobre se a morte medicamente assistida deve ser objeto de um referendo, todos os líderes partidários responderam que não e que a questão deve ser legislada (ainda que PCP e CDS sejam contra e os restantes partidos a favor).

susete.francisco@dn.pt

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