Costa só mandará governo de Passos abaixo se conseguir aliança de esquerda

Derrotado pelo país - mas ainda por vencer no seu partido. Costa vai dar luta a quem lhe disputar a liderança. Vários dirigentes próximos de Seguro pediram-lhe a cabeça.

As facas longas já vinham a ser afiadas há muito tempo e amanhã serão desembainhadas, na reunião da Comissão Política Nacional do PS que António Costa convocou para discutir a derrota que ontem sofreu.

Há seguristas - como Miguel Laranjeiro (ver entrevista ao lado) - que abertamente afirmam que Costa deve demitir-se, porque perdeu as eleições. Numa declaração enviada à Lusa, um outro membro da direção de Seguro, António Galamba, considerou mesmo que "o que o Dr. António Costa fez ao PS e ao país é criminoso". "Apesar do esforço dos militantes e dos simpatizantes na campanha eleitoral, o dr. António Costa falhou os dois objetivos que motivaram o assalto à liderança do PS. Falhou na unidade do PS. Falhou na conquista de uma maioria absoluta", escreveu ainda. Acrescentando: "Não é normal o PS não ganhar estas eleições. Fracassados os objetivos políticos, resta a ambição pessoal".

Um outro apoiante de António José Seguro, o (ainda) deputado António Braga - que foi vice-presidente das direções parlamentares de Carlos Zorrinho e de Alberto Martins, também pediu a demissão de Costa: "A interpretação dos resultados só pode ser uma: demissão."

Socrático à espreita

O registo entre os seguristas não é no entanto uniforme. Ao contrário de Galamba ou de Laranjeiro, Álvaro Beleza, que também esteve na direção do ex-líder, considerou que António Costa se bateu com "galhardia". "Vou ouvir o secretário geral do partido. Temos de ter serenidade. O partido já sabe que não conta comigo para ajuste de contas. O secretário geral bateu-se com galhardia nas eleições. Ninguém ficou em casa. Agora vamos com serenidade ver", disse.

Os socráticos também estão atentos. André Figueiro, braço direito do ex-líder, agora prestes a deixar o Parlamento - não foi reconduzido nas listas de candidatos a deputados - foi ontem ao Hotel Altis, estado-maior (como sempre) dos socialistas. E deixou no ar uma frase que demonstra todo o ressentimento da ala socrática com o distanciamento que Costa impôs face ao caso do "recluso 44": "Vou dar um abraço solidário ao António Costa porque é isto que os socialistas fazem."

Por volta das 22.45, António Costa desceu do 12º andar do Altis à sala da cave do hotel para assumir a derrota - e dizer que se mantém secretário-geral: "Manifestamente, não me vou demitir", declarou - e as dezenas de militantes que abarrotavam a sala devotaram-lhe um prolongado aplauso. "É-se lider para as boas horas e para as más horas", acrescentou.

Segundos antes tinha dito que como secretário-geral do PS assumia "por inteiro a responsabilidade política e pessoal pelo resultado do partido". Nessa altura muitos militantes começaram a gritar "não, não", antecipando que Costa estaria prestes a anunciar a sua demissão. Costa serenou-os: "Mantenham-se calmos porque vão dizer sim".

PS não será maioria do contra

Assumindo que o resultado é da sua "inteira responsabilidade", acrescentou que "há uma coisa que todos os socialistas sabem" a seu respeito: "Eu nunca sou nem nunca serei um problema para o PS, nunca faltei quando foi preciso, nem nunca faltarei".

E depois começou a dizer como será a posição do PS no Parlamento, agora que a coligação PSD/CDS deixa de ter maioria: "O ónus [da governação] cabe à força política que preenche os critérios constitucionais...". E "uma expressiva maioria dos portugueses votou para que houvesse uma mudança política, mas infelizmente essa vontade ainda não se traduziu numa maioria de Governo".

Assim, o "PS não contribuirá para maiorias negativas que contribuam para obstáculos e que não contribuam para gerar alternativas credíveis de Governo". O PS "tem sido defensor de moções de censura construtivas [moções que aprovadas implicam a formação de um novo governo pela maioria que as aprovar]". Por isso "não inviabilizaremos governo sem termos Governo para viabilizar". Ou, dito de outra forma: "Ninguém conte connosco para sermos só uma maioria do contra."O PS não se "satisfaz no mero exercício de uma maioria negativa apenas apostada em criar obstáculos sem assegurar uma alternativa credível e real de Governo"

Portanto: o PS só contribuirá para que um governo PSD/CDS caia se conseguir à esquerda formar uma aliança de governo alternativa.

Até lá, "a coligação PSD/CDS tem de perceber que há um novo quadro e não pode julgar que pode continuar a governar como se nada tivesse acontecido". A "perda da maioria pela coligação constitui um quadro político fruto da expressiva vontade de mudança". O PSD e o CDS têm o "ónus de criarem condições de governabilidade no quadro parlamentar". Em suma, a "coligação tem de perceber que há um novo quadro".

"Virar a página da austeridade"

Costa também definiu a agenda do PS: "Fará tudo para cumprir o seu mandato, que recebeu dos eleitores que em si votaram de concretizar o seu programa em quatro objetivos essenciais: virar a página na política de austeridade e da estratégia de empobrecimento, lançando um novo modelo de desenvolvimento assente no crescimento e no emprego, aumento de rendimento das familias e criação de condições de investimento pelas empresas: em segundo lugar, defesa do Estado Social e dos serviços publicos, relançar o investimento na ciência e na educação; em terceiro, respeito pelo quadro europeu, politica reforçada de coesão".

"Amanhã [hoje] é 5 de outubro: igualdade, fraternidade e solidariedade. Tenho a ccerteza que esses valores nos servirão a todos de inspiração para construirmos soluções com futuro, na qual a grande maioria dos portugueses se possa reconhecer, de forma a devolver esperança aos portugueses", disse ainda.

António Costa iniciou a sua intervenção felicitando Passos Coelho e Paulo Portas pelo resultado da coligação. Mas, pedindo-lhe que ninguém o levasse a mal, fez a sua "saudação mais calorosa" e ofereceu o seu mais "profundo agradecimento" aos militantes do PS e da JS que firam esta "muito difícil" campanha. "Os socialistas nunca desistiram". Finda a noite eleitoral rumou ao Ribadouro para um bife com a família e amigos.

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