Construtor que deu presente a Salgado diz ter perdido 25 milhões com fim do BES

Empresário que ofereceu presente de 14 milhões de euros a Ricardo Salgado revela que tinha em agosto do ano passado uma dívida de 121 milhões que está a tentar renegociar com o Novo banco.

O empresário José Guilherme, que ofereceu um presente no valor de 14 milhões de euros a Ricardo Salgado, diz ter perdido 25 milhões de euros com a resolução do BES pelo Banco de Portugal (BdP) e que pode "perder muito mais".

O construtor civil foi chamado à comissão de inquérito ao colapso do banco e do Grupo Espírito Santo em fevereiro para esclarecer o presente de 14 milhões de euros que ofereceu ao ex-presidente do BES - que o definiu como uma "liberalidade -, mas invocou razões profissionais e de saúde e o facto de residir em Angola para não estar presente, respondendo por escrito aos deputados.

Nas respostas aos grupos parlamentares, divulgadas esta terça-feira mas datadas de 28 março, José Guilherme diz que já perdeu "cerca de 25 milhões de euros, podendo vir a perder muito mais", mas nada diz sobre o presente oferecido a Ricardo Salgado, uma vez que é "interveniente num processo a correr termos no Departamento Central de Investigação e Ação Penal".

Ao longo de oito páginas, o construtor diz que "via o BES e o GES como verdadeiros parceiros de negócios" e acrescenta: "Sei que era assim que aquelas entidades também me viam".

O empresário dá ainda conta de que, em agosto de 2014, antes da resolução do banco, tinha uma dívida no BES de 121 milhões de euros, e avança estar em negociações com o Novo Banco para a reestruturação da mesma, ao constatar "como imperiosa a necessidade de encontrar uma solução de acordo".

Isto, por "razões atinentes, por um lado, ao não cumprimento" de compromissos assumidos consigo pelo BES, na sequência da resolução, e que levou à queda "de pessoas e empresas terceiras" cujas responsabilidades avalizou pessoalmente perante o BES, e, por outro, devido à situação económica de Angola, onde concentra a sua atividade.

"Esta necessidade foi, pouco tempo depois da resolução do BES, e por minha iniciativa, expressamente comunicada ao Novo Banco. De lá para cá foram mantidas conversações com o Novo Banco e prestadas todas as informações solicitadas para encontrar uma solução", escreveu.

José Guilherme diz que aguarda neste momento uma proposta do Novo Banco sobre a determinação da dívida pela qual deve "efetivamente ser considerado responsável perante o Novo Banco e à reestruturação da mesma".

O empresário explica a este propósito que no final de 2012, a sua dívida pessoal somada à dívida e responsabilidades de entidades por si dominadas ou de terceiros, mas que avalizou ou garantiu pessoalmente, era de cerca de 204 milhões de euros.

Os 83 milhões de euros, que resultam da diferença entre os 204 milhões e os 121 milhões de euros, foram pagos, adianta, tendo sido "servida a dívida à razão de cerca de 12 milhões de euros/ano, entre 2012 e agosto de 2014".

José Guilherme afirma que nunca terá investido em papel comercial, admitindo apenas que ao longo do tempo investiu em ações, obrigações e unidades de participação de diversas entidades do BES e do GES.

As respostas surgem depois de as audições terem terminado na passada quarta-feira, e no dia anterior a CPI tinha decidido participar ao Ministério Público a recusa do empresário em depor no Parlamento para esclarecer a prenda de 14 milhões de euros que ofereceu a Ricardo Salgado.

Segundo o presidente da CPI, Fernando Negrão, a comissão entendeu que o "dever especial de colaboração foi quebrado" porque o empresário "terá estado em Portugal", conforme noticiou o semanário Expresso.

"Entendeu-se enviar para o Ministério Público para o Ministério Público agora aferir se isso consubstancia ou não um crime de desobediência", sublinhou Negrão.

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