Como é que Portugal deve estar em tempos de euroceticismo?

Fundação Francisco Manuel dos Santos lança encontro sobre o passado, presente e futuro da UE e diz que a integração foi "positiva", apesar dos problemas causados.

"O que há uns anos parecia apenas um problema teórico é agora uma das principais dificuldades e um dos maiores problemas práticos com que Portugal se debate: a Europa." Palavras de António Barreto, presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, na apresentação do 2.º encontro/conferência "Presente no Futuro", organizado pela instituição e apoiado pelo DN, que a 13 e 14 de setembro vai discutir em Lisboa o papel do País na União Europeia (UE).

28 anos volvidos desde a adesão portuguesa à então Comunidade Económica Europeia (CEE) e com eleições para o Parlamento Europeu a menos de um ano - maio de 2014 -, a Fundação Francisco Manuel dos Santos cria um espaço de amplo debate nacional em torno do tema "Portugal europeu. E agora?", com mais de 25 mesas de discussão e convidados de vários setores, da política ao jornalismo, passando pela economia e até mesmo pela religião, motivo pelo qual a coordenadora científica, Marina Costa Lobo, destacou a "riqueza dos painéis de oradores convidados", tal como dos "assuntos em análise".

Na conferência de imprensa de lançamento do evento, na Escola Secundária Pedro Nunes, António Barreto frisou que a pergunta de partida "não é um recuo" sobre a posição na UE, vincando que a "avaliação global" destes quase 30 anos de integração é "positiva" e que o País "teve uma melhoria em várias áreas", apesar do euroceticismo dos portugueses - apenas 43% da população considera "bom" fazer parte da UE.

"Graças à pertença à UE, Portugal teve vantagens, acelerações e melhorias. Gostava que ainda pertencêssemos daqui a 25 anos. Agora, os próximos 25 anos não vão ser de euforia e inocência, porque sabemos o que correu e o que não correu bem. Com as regras e mecanismos atuais, as coisas não estão a funcionar. Há uma evidente hesitação entre mais ou menos diversidade, mais ou menos federalismo, uma geometria mais ou menos variável, com velocidades diferentes para os países, ou mais ou menos solidariedade. Alguns países podem resolver essas questões com mais calma porque têm outros recursos financeiros - penso, por exemplo, na Alemanha ou nos países nórdicos", sublinhou o sociólogo.

No entender de Marina Costa Lobo, "houve falta de um referendo sobre o que os portugueses pensam" do projeto europeu e, por isso, um alheamento da população em relação aos problemas comunitários. "Os tempos que vivemos são também uma chamada aos portugueses, que têm sido relativamente passivos no apoio à Europa. Basta ver a reduzida participação nas eleições para o Parlamento Europeu. Há pouca consciência do seu impacto nas nossas vidas e de como é que Portugal deve estar na Europa, que vive uma crise de escolhas institucionais, políticas e económicas", observou a politóloga, referindo ainda haver "pouca divergência" entre os principais partidos sobre a posição a adotar nesse capítulo.

José Soares dos Santos , membro da comissão executiva da fundação, enfatizou as "novidades" no programa do encontro, este ano "adaptado ao que cada um quererá ouvir" e que foi buscar parte da inspiração ao estudo "20 anos de opinião pública em Portugal e na Europa" - o mesmo que revela que apenas 10% da nossa população vê a UE como sinónimo de prosperidade.

Em 2013 assinala-se ainda o vigésimo aniversário da cidadania europeia, introduzida pelo Tratado de Maastricht, e para a reflexão foram chamadas mais de 75 personalidades nacionais e estrangeiras, até porque, como foi frisado na apresentação oficial, a "crise é uma oportunidade de cidadania".

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