Coabitação no PSD. "Um mês de transição é um exagero"

Luís Montenegro e Rio Rio vão ser líderes do partido ao mesmo tempo, um eleito o outro em exercício de funções, durante um mês. Já conversaram e pareceu tranquila a "articulação" até ao congresso de julho, mas o antigo líder social-democrata Marques Mendes considera que é muito longo o período de transição. Defende que duas semanas era o suficiente para a constituição das equipas do novo presidente eleito tal como aconteceu na altura em que passou testemunho a Luís Filipe Menezes.

Luís Montenegro foi eleito no dia 28 de maio, mas só toma posse como presidente do PSD a 3 de julho, no Coliseu do Porto, no último dia do congresso do partido que legitimará a sua liderança e os novos órgãos nacionais. Até lá o líder eleito terá de coabitar com o que está em exercício de funções, no caso Rui Rio. Já se encontraram na quinta-feira para "acertar" o que neste mês de "dupla" liderança é preciso acertar.

"Com certeza, temos aqui um mês que é uma situação atípica: há um presidente em exercício de funções que já sabe que há outro que vai entrar em 3 de julho. Há que preparar não só a transição, como eventualmente articular alguma coisa que seja de articular", disse Rui Rio, na sequência do encontro com Montenegro na sede nacional do PSD.

E um dos acertos mais visíveis foi o da posição da bancada parlamentar sobre a questão do referendo à eutanásia, um projeto de lei do Chega, que será votado a 9 de junho (votado em conjunto com os renovados projetos sobre a matéria). Se na própria quinta-feira em reunião da bancada, o líder parlamentar não conseguiu dizer aos deputados sociais-democratas qual a posição do partido sobre a matéria, ao final da tarde foi o próprio Rio que anunciou a "liberdade de voto".

"Sim, é de repetir o que foi feito, há uma liberdade de voto completa", disse. Durante a sua direção houve sempre liberdade de voto nesta matéria, incluindo quando foi votada a proposta do CDS de realizar um referendo, em outubro de 2020. Nessa ocasião, existiu até oposição de alguns deputados sociais-democratas, que defendiam que o partido teria de votar a favor depois de o congresso do PSD ter aprovado uma moção temática nesse sentido (em fevereiro de 2020).

Duas semanas de intervalo

O antigo líder do PSD Marques Mendes, que introduziu as eleições diretas no PSD em 2006, considera ao DN que "um mês de transição de lideranças é um absoluto exagero". O agora comentador político afirma que as diretas foram pensadas para um período de transição entre presidências de duas semanas, o que aconteceu quando em 2007 teve de passar a pasta a Luís Filipe Menezes.

"Era o tempo mais do que suficiente para o novo presidente constituir as suas equipas", afirma Marques Mendes que, sublinha, nunca ter tido conhecimento de "qualquer problema" na transição de lideranças, mas admite que um tempo prolongado poderá gerar alguma confusão na gestão do partido.

Ora, precisamente Rui Rio tentou dissipar na quinta-feira passada a eventual confusão entre as duas lideranças, depois de ter sido abordado pelos jornalistas sobre a questão da manutenção ou não de Paulo Mota Pinto na presidência da bancada parlamentar. "Alterações nos órgãos do partido, eu sou responsável até ao dia 1 ou 2 de julho (dois primeiros dias do congresso) e não quero alterar nada. A partir desse dia não é nada comigo, portanto não é conversável comigo", disse o líder do PSD.

À pergunta se compreende que Luís Montenegro possa querer trabalhar com outro líder parlamentar tal como Rui Rio fez com Hugo Soares, em 2018 - Rio escusou-se a fazer um comentário. "Não vou comentar, não é da minha lavra, não me vou meter nisso, seria de muito mau tom agora que estou de saída estar a meter-me no que não sou chamado", disse.

No encontro com Luís Montenegro terão sido abordadas questões como a situação política do país, o congresso do PPE, para o qual Rio convidou em vão os então ainda dois candidatos à liderança do PSD, a situação do partido e também "a parte logística".

Marques Mendes sublinha que a transição entre duas lideranças é um "formalismo político" em nada comparável com a passagem de pasta entre dois líderes de governo. "As questões mais logísticas e financeiras tratam-se entre secretários-gerais, os líderes é mais questões políticas", afirma. "Não é como num governo com passagem de pastas e de assuntos", garante o antigo presidente social-democrata.

No dia 28 de maio, no discurso da vitória, Luís Montenegro foi questionado sobre a transição da atual liderança de Rui Rio para a sua até ao Congresso e apenas disse que seria feita de forma discreta e "à moda dos homens bons, conversando uns com os outros".

Uma das primeiras tarefas, assumida pelo próprio, era conversar com o atual líder parlamentar social-democrata e dirigente desde o início da liderança de Rui Rio, Paulo Mota Pinto, eleito em 7 de abril com mais de 90% dos votos, e que nunca esclareceu se colocaria o lugar à disposição do novo presidente.

Rio também esteve reunido com Paulo Mota Pinto durante a tarde da passada quinta-feira no gabinete da direção da bancada, mas não quis revelar o teor da conversa. "Não fiquei com sensação nenhuma, nem estivemos assim tanto tempo (...) Mas é normal que o líder parlamentar e o líder do partido se vão articulando", afirmou.

Luís Montenegro venceu a 28 de maio as eleições diretas do PSD com 72,48%, a maior diferença de sempre para o segundo classificado em eleições disputadas, Jorge Moreira da Silva, que conseguiu 27,52%. Registou-se uma abstenção de 39,53%, a maior de sempre em eleições do PSD com mais do que um candidato à liderança.

No discurso da vitória, Luís Montenegro foi questionado sobre a transição da atual liderança de Rui Rio para a sua até ao congresso - que se realiza apenas no primeiro fim de semana de julho -, e apenas disse que seria feita de forma discreta e "à moda dos homens bons, conversando uns com os outros".

Depois deste mês de convivência "forçada", Montenegro não deverá ter a sombra de Rio a pairar sobre a sua liderança, já que o líder do PSD em funções já revelou que "provavelmente" sairá em setembro do Parlamento, onde tem o seu mandato de deputado. Ou seja, deixa a Assembleia da República no arranque da nova sessão legislativa, em que Montenegro tem de afirmar a sua liderança e a oposição ao governo de António Costa.

Diretas e transição de lideranças

Marques Mendes

Foi eleito presidente do PSD em abril de 2005, no congresso de Pombal onde introduziu as diretas nos Estatutos do partido. Reeleito neste sistema em maio de 2006.

Luís Filipe Menezes

Rouba surpreendentemente a liderança a Marques Mendes nas diretas de setembro de 2007. A legitimação em congresso ocorreu duas semanas depois.

Manuela Ferreira Leite

A antiga ministra de Cavaco Silva é eleita para a presidência social-democrata em maio de 2008 e é de Luís Filipe Menezes que recebe a condução do partido.

Pedro Passos Coelho

Foi eleito líder pela primeira vez em março de 2010 e recebeu o testemunho de Ferreira Leite. Seguiram-se mais três eleições: em 2012, 2014 e 2016.

Rui Rio
O agora líder cessante do PSD foi eleito pela primeira vez em janeiro de 2018 - seguiram-se mais duas vitórias, em 2020 e 2021 - e recebeu o partido das mãos de Passos Coelho.

paulasa@dn.pt

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