Clientelas, equívocos e um vinho Amnésia para Passos

Líder da coligação baralhou-se ontem com os números do empréstimo da troika. Isto num dia que andou sem Portas.

Ao segundo dia de campanha oficial da coligação Portugal à Frente dá vontade de dizer que "quem com ferro fere, com ferro será ferido". Passos Coelho - que tanto tem gasto palavras nas suas intervenções a sublinhar as suas "contas certas" e acusando António Costa de esconder as do próprio programa (em matéria de cortes no sistema de segurança social) - protagonizou um "equívoco" de milhões de euros.

Na sua intervenção, ontem, em Beja, Pedro Passos Coelho anunciou que no próximo dia 15 de outubro o seu governo iria pagar "mais 5400 milhões de euros dos 78 milhões" de ajuda externa concedida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Comissão Europeia e Banco Central Europeu, em 2011. Depois de um almoço-comício regado com um oportuno vinho alentejano de nome Amnésia, Passos baralhou-se. Afinal, como viria a emendar à noite, o ajuste de contas era, nesse mesmo valor, na mesma data, mas em "obrigações do Tesouro contraídas há 10 anos pelo governo socialista". "Quando tenho lapsos, corrijo-os sem qualquer problema", reconheceu.

Num dia que começou, como os anteriores, com uma visita a uma grande herdade, em Beja, produtora e exportadora de azeite - o que permitiu a Passos (que pela primeira vez não teve Paulo Portas a seu lado) tentar corrigir outro "equívoco" em relação a "silêncios ensurdecedores" por parte do PS.

No dia anterior, tinha deixado no ar a ideia - quando falava da situação dos lesados do BES - da necessidade de combater os privilégios. "Quem governa não pode estar ao serviço de alguns, mas de todos. O Estado tem de ter independência e isenção. Não estar apenas ao serviço de alguns grupos económicos, mas de todos os portugueses. Por isso, não me arrependo de ter dito à Caixa Geral de Depósitos que não fosse salvar o Grupo Espírito Santo. A função do Estado não é salvar grupos privados", frisou com firmeza. Mas essas declarações deixaram ficar no ar a especulação de que estaria a desafiar Costa a comentar os "amiguismos" na política, numa alusão ao BES e a Sócrates.

Afinal, não era essa a intenção. Os "silêncios" tinham que ver, garantiu Passos Coelho, com a recusa de António Costa em explicar onde vai cortar os 1020 milhões de euros na Segurança Social e em chegar a acordo com a coligação para reformar a segurança social.

"Nós já vamos hoje para o quinto dia sobre o debate e continuamos a não ter um esclarecimento do líder do maior partido da oposição quanto à forma como está a prever a introdução de condição de recursos para as prestações solidárias. Todos os dias temos chamado a atenção para esse problema e todos os dias há um silêncio que é, de facto, ensurdecedor", afirmou Pedro Passos Coelho quando questionado sobre a que se referiu no domingo à noite.

Mas na sua intervenção à noite voltou à carga com os "privilegiados". "Para termos um país livre, temos de ter um Estado isento que não esteja a só a defender os privilégios de um ou outro grupo económico. Tem de ter governantes que não governem para clientelas, mas para todos os portugueses", declarou. E concluiu, voltando a virar a crítica contra António Costa, por causa do anunciado chumbo ao Orçamento da coligação que o líder socialista prometeu. "O Estado não pode estar à mercê da vaidade política ou do capricho político de alguém que diz "ou me deixam governar ou não governa ninguém. Tem de ser um governo escolhido pelos portugueses, que possa unir todos os portugueses para que a nossa missão no país possa ser a de governar com todos e para todos."

Paulo Portas foi, como sempre, mais acintoso contra Costa, o qual, na sua opinião, está "cada vez mais radicalista e desnorteado". Portas começou por dizer que nem iria "falar muito" do PS, mas acabou por elencar várias "inconstâncias" que detetou nas intervenções socialistas. "Num dia defende a estabilidade fiscal, noutro dia quer travar a reforma do IRC. Num dia diz que não corta pensões, noutro dia descobre-se que tem 1020 milhões de euros de corte nas pensões dos mais desfavorecidos. Num dia é contra a confrontação permanente na política, noutro dia diz que se recusa a sentar-se à mesa para discutir reforma da Segurança Social. Num dia diz que quer liberdade para os mais fracos."

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