Cinco dias para convencer quem falta convencer

Eleições legislativas. Coligação quer "reconciliar-se" com quem se zangou desde 2011. O PS quer chegar aos muitos que ainda não decidiram e que "gravitam" à volta dos socialistas.

Cinco dias e cinco noites é quanto falta para os partidos convenceram os eleitores que não sabem em quem votar. À direita, a coligação quer passar a ideia de que precisa de se reconciliar com quem se zangou nestes quatro anos com PSD e CDS. Já entre os socialistas há a convicção de que há muitos indecisos e que eles "gravitam à volta do PS". Francisco Assis verbalizou esta convicção ao falar ontem num comício em Barcelos.

O eurodeputado considerou "natural" que haja um "enorme volume" de pessoas que ainda não fizeram a sua escolha e depois segmentou-as em três categorias diferentes: os que estão indecisos "entre a coligação e o PS", os que estão indecisos "entre a esquerda e o PS" e ainda os que se colocam "entre a abstenção e o PS". Por isso pediu ao partido "um grande esforço".

Aos primeiros (indecisos entre a coligação e o PS) os socialistas têm insistido numa tecla: que Passos e Portas reagiram sempre com "indiferença", "desprezo" e "arrogância" perante todo o sofrimento que causaram. O mesmo argumento tem sido utilizado para os que estão indecisos entre o PS e a abstenção.

António Costa, aliás, tem revelado uma preocupação especial com aqueles que, prejudicados pela governação (desempregados, por exemplo) tendem a autoexcluir-se de votar: "Temos de acordar aqueles que estão esmagados e desalentados por estes quatro anos de crise. Temos de lhes dizer que não é ficando em casa, não é indo para o café dizer mal e não é a ficar à espera da próxima manifestação a pedir para o governo ir para a rua que se resolve o problema", disse em Almeirim.

Para os indecisos entre a esquerda e o PS o discurso tem sido outro. Votar PCP ou BE pode ter como efeito manter a coligação PSD-CDS no poder: "Esses têm de se lembrar de uma coisa: à procura de uma mudança quimérica [medidas radicais de renegociação da dívida, por exemplo] podem deixar tudo na mesma."

Em síntese: há muitos indecisos a gravitar em torno do PS. E por isso todos os discursos do PS gravitam em torno dos indecisos.

À entrada para a última semana de campanha eleitoral, "reconciliação" é a palavra-chave da estratégia política da coligação Portugal à Frente (PAF). Os principais alvos desta mensagem são essencialmente os eleitores que votaram no PSD e no CDS em 2011 mas que, tendo sido atingidos pelas medidas de austeridade, ainda estão indecisos sobre o seu voto ou sequer se vão votar. Passos quer a "reconciliação" com essas pessoas, entre as quais se encontram, como tem assinalado nos seus discursos, os pensionistas, os funcionários públicos, os jovens, os que "ainda estão desempregados".

Fazer estas pessoas acreditar de novo em Passos Coelho e em Paulo Portas, salientando que os seus "sacrifícios" não podem ser desperdiçados porque ajudaram a tirar o país da bancarrota e que agora, com a economia a recuperar, essas pessoas vão ter oportunidade de satisfazer os desejos que tinham quando votaram nestes partidos.

Apesar de ter sempre afirmado que não faz promessas - e de no passado ter tropeçado nelas -, Passos Coelho garantiu, falando para estes eleitores, que não cortará mais as pensões, não aumentará os cortes nos salários da função pública, acenando à classe média com a devolução da sobretaxa do IRS.

Nos próximos dias, como afiançou Passos aos jornalistas durante um encontro informal ontem de manhã, numa pausa da agenda, a coligação vai começar a explicar com mais detalhe como pretende consolidar o crescimento económico, que (afirma a coligação) já se começa a evidenciar em várias estatísticas, como quer combater as desigualdades sociais que se agravaram com a recessão económica, e como pretende fazer acreditar que só com um governo de maioria PSD-CDS pode continuar a garantir a estabilidade política necessária para executar esse programa.

À esquerda, combater o voto útil

Do lado do PCP, a palavra de ordem é não alterar aquilo que tem sido feito até aqui. Jorge Cordeiro, membro do Comité Central comunista, explicou ao DN que "a programação de campanha do secretário-geral já está divulgada e a estratégia de mensagem não se vai alterar". E completou: "Aquilo que desenhámos à partida, com um ou outro elemento de atualidade, manter-se-á."

Na linha da frente estará o combate ao voto útil, num momento em que as sondagens não indicam um vencedor claro para a noite de 4 de outubro. "Há muito que temos contestado o voto útil, alertando para o perigo das maiorias absolutas, que são a ambição do Presidente da República. O voto útil deve ser visto em função da utilidade futura de quem dá e não de quem recebe."

Junto dos indecisos, "cada conversa é meio caminho para obter o seu voto", defende. "Continuamos a demonstrar aos indecisos, mesmo aos eleitores do PSD desiludidos ou com dúvidas sobre em quem votar, que o seu voto conta e que a CDU é o espaço que lhes garante que não será um voto perdido."

Também do lado do BE é evidente essa estratégia de contrariar o voto útil. Catarina Martins tem-se dirigido aos indecisos com a mensagem de que "útil" é confiar nos que podem "fazer a diferença" no governo do país, e esse discurso é para manter até sexta-feira, último dia de campanha.

Ainda ontem no almoço-comício em Lisboa a porta-voz nacional do BE salientou que "o voto útil é o nome artístico do bloco central", e criticou os apelos à maioria absoluta quer da PAF quer do PS, notando que "ter maioria absoluta não resolve nenhum problema do país". E arrasou a estratégia de bipolarização que as duas principais forças estão a seguir: "Até domingo, tanto a direita como o PS dirão "nós ou o caos". Depois de domingo em diante nós e o caos serão amigos para sempre."

De resto, também a deputada Mariana Mortágua denunciou a falta de opções que o rotativismo tem provocado. Reduziu-a, por absurdo, ao "jogo do preferias" e deixou a pergunta retórica aos eleitores, sobretudo aos da sua geração: "Preferias um governo que promete mais austeridade para cumprir o défice ou um governo que promete mais austeridade para cumprir o défice?" E rematou: "Não aceitamos a arrogância de quem quer o poder absoluto para governar pelos outros."

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