Cavaco Silva diz que afirmações de Juncker não correspondem às informações que dispõe

PR comentou a entrevista do presidente da Comissão Europeia, que garante que Passos Coelho se opôs a que o alívio da dívida grega fosse discutido antes das legislativas em Portugal.

O Presidente da República disse hoje que as afirmações do presidente da Comissão Europeia de que Portugal se opôs à discussão do alívio da dívida pública grega antes das legislativas "não corresponde absolutamente nada" às informações de que dispõe.

"Não corresponde absolutamente nada àquilo que eu tenha informação e repito: o que múltiplos chefes de Estado e de Governo da Europa têm afirmado é que não há redução monetária da dívida, se há qualquer coisa nova que aconteceu hoje ou ontem [terça-feira] e que o senhor Juncker anunciou o que posso dizer é que isso não corresponde aos documentos que foram aprovados e que me têm chegada à mão", afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva.

Cavaco Silva respondia em Mafra a questões dos jornalistas sobre a entrevista ao presidente da Comissão Europeia, publicada hoje no diário belga Le Soir, no qual Jean-Claude Juncker revela que Portugal se opôs a que um alívio da dívida pública grega fosse discutido antes das eleições legislativas.

"Penso que se a afirmação é essa faz pouco sentido, porque no documento que foi aprovado diz que não haverá redução monetária da dívida", disse o chefe de Estado, que falava com a comunicação social em Mafra, no final de uma visita à Escola de Armas.

Insistindo que vários líderes europeus já afirmaram "categoricamente" que não haverá perdão da dívida, Cavaco Silva ressalvou que o que poderá existir é a extensão dos prazos de amortização e a redução dos juros e não "uma reestruturação da dívida no sentido da diminuição do valor monetário da dívida".

Pois, continuou, nenhum chefe de Estado ou de Governo quer neste momento chegar ao seu próprio país e anunciar aos contribuintes - "alguns com rendimentos muito mais baixos e per capita do que a Grécia" - que têm de pagar mais para a Grécia não satisfazer os seus compromissos em termos de reembolsos.

"O que não quer dizer que mais tarde - por aquilo que já foi dito - não se pense na extensão dos prazos, na redução do pagamento de juros, mas isso é coisa diferente", acrescentou.

Em qualquer caso, frisou, esta questão "não tem qualquer relação com eleições em Portugal, em Espanha ou em qualquer outro país".

Numa entrevista focada nas longas negociações com a Grécia, que segundo o presidente do executivo comunitário só terminaram com um acordo devido ao "medo", Juncker, questionado sobre a questão da (in)sustentabilidade da dívida grega, revelou que, pessoalmente, pretendia que uma discussão sobre a questão tivesse ficado desde já agendada para outubro, ideia que mereceu a oposição de Irlanda, Espanha e Portugal.

A elevada dívida pública da Grécia, que representa cerca de 180% do PIB, ou seja, quase o dobro da riqueza produzida, foi uma das questões mais polémicas ao longo das longas negociações entre Atenas e os credores internacionais, dividindo mesmo as instituições, com o Fundo Monetário Internacional a reclamar um alívio ou mesmo perdão parcial da dívida, que classifica da insustentável, algo que é rejeitado por países como a Alemanha.

No compromisso finalmente acordado a 13 de julho, na cimeira da zona euro, sobre um terceiro programa de assistência à Grécia, ficou consagrado que a questão da dívida - que poderá vir a ser aliviada através de um prolongamento dos prazos de pagamento e redução dos juros aplicados - será analisada apenas depois da primeira avaliação ao terceiro programa de assistência, se esta for satisfatória.

Portugal e Espanha têm eleições legislativas este ano, sendo que, no caso português, a data do sufrágio terá de se realizar entre 14 de setembro e 14 de outubro, a qual será hoje anunciada pelo Presidente da República.

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