Bombeiros e polícias apreensivos com demissão de Macedo. GNR satisfeita

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses considera que os bombeiros "perderam um parceiro fundamental". Os sindicatos da PSP estão preocupados.

"É com enorme preocupação que observamos a demissão do ministro da Administração Interna, num momento em que estavam prestes a ser iniciadas as negociações do novo Estatuto Profissional da PSP", afirmou Armando Ferreira, do Sindicato Nacional da Polícia (Sinapol), à Lusa.

"Com esta demissão desconfiamos e temos sérias dúvidas que venha a ser aprovado um novo estatuto até ao final do ano, porque o novo titular do cargo não vai ter tempo para se inteirar das pastas e não vai ter a capacidade de negociar um estatuto de forma a que este possa servir o interesse do país e dos polícias portugueses", referiu o presidente do Sinapol.

Também o Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia (SNOP) manifestou "apreensão" em relação à demissão do ministro, por acontecer num momento em que assuntos "de grande importância estavam em avançado estado de discussão".

O SNOP espera que "a mudança de ministro não concorra para protelar, ainda mais, a aprovação de medidas essenciais e urgentes ao funcionamento da PSP, entre as quais se destaca claramente a aprovação do estatuto de pessoal".

"Apesar de lhe dever ser reconhecido empenho na resolução de alguns dos principais problemas da PSP, incluindo o desbloqueamento das promoções, a verdade é que não conseguiu, em mais de dois anos, aprovar um estatuto de pessoal para os polícias, num processo que esteve sempre demasiado permeável a interferências externas", recordou o SNOP.

O Sindicato lembra ainda que "a passagem deste ministro fica também associada à demissão incompreensível de um Diretor Nacional, cujos reais contornos são ainda hoje desconhecidos".

A Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), por seu lado, reconhece que a demissão de Macedo deixa o organismo numa situação "extremamente difícil e de muito ceticismo".

"Não sabemos agora como é que estes processos vão ficar, não sabemos se vão ter algum seguimento ou não", disse o presidente da ASPP, Paulo Rodrigues.

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), Jaime Soares, lamentou a demissão, considerando que os bombeiros "perderam um parceiro fundamental", uma vez "estavam em discussão a alteração à Lei Orgânica da PSP e do Estatuto Profissional da PSP, bem como outros diplomas internos que teriam de entrar em vigor logo no início do próximo ano".

"Os bombeiros portugueses estão preocupados", já que, segundo o presidente da LBP, a saída de Miguel Macedo do Governo pode resultar "numa perda de ritmo nas negociações" em curso no setor.

Jaime Soares sublinhou que "havia uma pacificação nesta área" do socorro e Proteção Civil e que "não é fácil substituir um homem da sua dimensão" na liderança do MAI.

"Estava sempre pronto a abrir portas com outros ministérios", disse, para concluir que, "para os bombeiros portugueses", Miguel Macedo foi "o melhor ministro da Administração Interna depois do 25 de Abril" de 1974.

Já a Associação dos Profissionais da Guarda (APG) viu "com bons olhos" a demissão do ministro da Administração Interna, que, de acordo com o presidente daquela estrutura, "nunca nada fez, nem quis fazer" em relação aos problemas da GNR.

"Vemos com bons olhos, um ministro que nada fez, nem nunca quis fazer, em relação aos problemas da GNR", afirmou hoje César Nogueira à Lusa, salientando a "atitude sensata" do ex-responsável pela pasta da Administração Interna, "dadas as circunstâncias".

César Nogueira recordou que a APG, maior associação profissional da GNR, "há muito vinha a pedir a demissão [de Miguel Macedo], por outros motivos".

"Por uma questão de amuo o ministro não nos recebia, delegando a tarefa no Secretário de Estado, mas recebia as associações mais pequenas", relatou.

Também a Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda (ASPIG) diz-se defraudada pelo ex-ministro Miguel Macedo por não ter resolvido os problemas da GNR. ao invés, tudo se traduziu em expetativas, intencionalmente adiadas, permitindo, com isso, que as alterações ao Estatuto e Lei Orgânica da GNR, tantas vezes prometidas, se mantivessem, até hoje, "na 'gaveta'", lê-se numa nota assinada pelo presidente da Direção Nacional, José Alho.

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