Costa supera Rio em 14 pontos no potencial de voto

Mercado eleitoral é mais amplo para o socialista (70%) do que para o social-democrata (56%), mas ambos têm margem para chegar em primeiro. Catarina Martins em terceiro (38%).

Rafael Barbosa
António Costa e Rui Rio antes do debate na RTP esta quarta-feira, que aconteceu já depois de realizada esta sondagem, pelo que o estudo não inclui possíveis consequências deste frente a frente.© PEDRO PINA/RTP/LUSA

António Costa não cedeu um milímetro a Rui Rio e mantém-se como favorito na luta pela liderança do próximo governo. A duas semanas das legislativas, os portugueses continuam a considerar que o socialista é o mais competente, solidário, influente e, agora, até o mais honesto, de acordo com uma sondagem da Aximage para o DN, JN e TSF. E que seria, portanto, melhor primeiro-ministro (49%) do que o seu principal rival (24%). Acresce que o líder do PS tem um potencial de voto (a soma dos que votariam de certeza e dos que poderiam votar) de 70 pontos percentuais, mais 14 do que o social-democrata. Alguns degraus abaixo, mas destacada do resto do pelotão, segue a líder bloquista, Catarina Martins.

O trabalho de campo desta sondagem decorreu entre 6 e 12 de janeiro. Não reflete, portanto, o duelo televisivo da passada quinta-feira entre os dois principais candidatos a primeiro-ministro. Os resultados que aqui se apresentam também não devem ser confundidos com intenções de voto (essa projeção só será apresentada na edição de amanhã). O que esta primeira parte do inquérito desvenda é qual é o mercado eleitoral a que cada candidato pode aspirar a conquistar (potencial de voto) e aquele que lhes está vedado nesta altura (taxa de rejeição). E inclui, por isso, as preferências dos abstencionistas e dos indecisos.

Firmeza de voto em Costa

Fazendo as contas, percebe-se que António Costa e Rui Rio são os únicos líderes partidários que têm um potencial de voto superior à taxa de rejeição. Ou seja, são os que revelam maior margem de progressão para as próximas duas semanas de campanha eleitoral. A suficiente para qualquer deles ter legítimas aspirações a cantar vitória nas urnas, no próximo dia 30 de janeiro. Mas as semelhanças terminam aqui. Na comparação entre os dois, o socialista leva uma vantagem evidente.

O líder do PS não só supera o do PSD no potencial de voto, como revela uma vantagem ainda maior na firmeza de voto (os que nesta altura votariam de certeza): são mais 16 pontos. Nesta categoria de apoio quase incondicional, Rio pouco se distingue dos líderes dos partidos mais pequenos (tem apenas três pontos de vantagem sobre André Ventura e quatro sobre Catarina Martins e Jerónimo de Sousa). Acresce a má notícia de que o mercado eleitoral que se encontra fechado para o social-democrata é superior em nove pontos ao do socialista (35% nunca votariam no presidente do PSD, contra 26% que rejeitam o secretário-geral do PS).

Ventura é o mais rejeitado

No entanto, e no que diz respeito à taxa de rejeição, é André Ventura quem segue no carro-vassoura: 67% dos portugueses afirmam que nunca votariam no líder do Chega. Não muito longe estão Jerónimo de Sousa (62%) e Francisco Rodrigues dos Santos, do CDS/PP (61%). Ao contrário, e pela positiva, destaca-se a líder bloquista Catarina Martins (com 38% de potencial de voto), uns pontos mais do que o secretário-geral comunista (30%) ou o liberal João Cotrim de Figueiredo (29%) e Inês Sousa Real, do PAN (27%).

Mas faltam duas semanas para as eleições. E faltavam três quando esta sondagem começou a ser realizada. Nada pode ser dado como adquirido. Mas também é verdade que há outros sinais de que Rui Rio não está a conseguir desalojar António Costa da liderança da corrida eleitoral. A Aximage voltou a pedir aos portugueses que avaliassem uma série de atributos pessoais e o resultado é praticamente igual ao de dezembro passado. De novo com vantagem para o atual primeiro-ministro.

Socialista melhor em tudo

O líder socialista leva 31 pontos percentuais de vantagem na competência, 27 na solidariedade ou proximidade às pessoas e 67 na influência. E consegue até ultrapassar o social-democrata na honestidade: há um mês, Rio liderava por um ponto, agora perde por dois. Sendo certo que também se repete a resistência dos eleitores a catalogar um político como honesto: metade recusa dar a sua opinião (um dado comum a outros políticos e outras eleições).

Como que a confirmar a tendência, repete-se a cereja no topo do bolo para António Costa: é o candidato em quem os portugueses mais confiam para primeiro-ministro (com uma vantagem de 26 pontos sobre Rui Rio) e, também de forma inequívoca, aquele que, dizem os inquiridos, daria um melhor chefe de Governo (um pouco mais do dobro dos "votos" de Rui Rio).

Forças e fraquezas dos candidatos

António Costa, PS

O líder do PS tem repetido, debate após debate, que a confiança nos seus parceiros de geringonça se perdeu. E, até ver, a afirmação não fez ricochete: Costa continua a seduzir os portugueses que, em 2019, votaram nos partidos que estão à sua Esquerda, com um potencial de voto sempre acima dos 80 pontos percentuais entre os eleitores do BE, CDU e Livre. Quando o que está em causa é a geografia, destaca-se a região Sul (82% de potencial de voto), mas também Lisboa, sobretudo por causa de uns sólidos 35% na firmeza de voto (votariam de certeza). Um valor só superado entre os eleitores com 65 ou mais anos (43%). Os piores resultados do socialista, em termos regionais, são na Área Metropolitana do Porto (31% de taxa de rejeição). No que diz respeito ao género, mantém-se maior popularidade entre o eleitorado feminino.

Rui Rio, PSD

É na Área Metropolitana do Porto (65%) e no Norte (64%) que o líder social-democrata regista o seu maior potencial de voto, com a região urbana a ganhar vantagem se tivermos em conta a firmeza de voto (14%, a mais elevada nos segmentos geográficos). Em espelho com o rival socialista, Rui Rio tem maior potencial entre os homens do que entre as mulheres, mas maior taxa de rejeição no feminino. Ainda no que diz respeito ao potencial de voto, mas nas diferentes faixas etárias, tem os resultados mais prometedores entre os mais jovens e os mais velhos (59% em ambos os casos). No entanto, a firmeza de voto (os mais fiéis) cresce de forma linear à medida que o eleitorado envelhece. Ao contrário de Costa, que não merece tanta indulgência entre quem votou no PSD em 2019, Rio tem mais potencial (51%) do que rejeição de voto (49%) entre os antigos eleitores socialistas.

Catarina Martins, BE

Se excluirmos os segmentos partidários, a líder bloquista regista um potencial de voto superior à taxa de rejeição em dois segmentos: entre os que habitam no Sul do país (46%) e entre os mais jovens (46%). Os piores resultados registam-se a Norte (taxa de rejeição de 60%) e nos eleitores com 65 ou mais anos (72%). O potencial de voto decresce à medida que o eleitor envelhece, registando-se o sentido inverso na taxa de rejeição. Catarina Martins tem um pouco mais de popularidade entre as mulheres do que entre os homens. No que diz respeito aos segmentos partidários, e para além do apoio claro dos que votaram no BE em 2019, consegue resultados razoáveis entre os eleitores do PAN e da CDU no potencial de voto. Mas a melhor notícia, tendo em conta a dimensão do segmento, é mesmo o potencial de voto entre os socialistas (46%).

Jerónimo de Sousa, CDU

O secretário-geral dos comunistas retirou-se momentaneamente da campanha eleitoral, a contas com uma intervenção cirúrgica de urgência. Os eventuais efeitos não entram nas contas desta sondagem e há apenas um segmento em que o potencial de voto de Jerónimo de Sousa é superior à taxa de rejeição: entre os eleitores da CDU de 2019 (83%). Ainda no que diz respeito às escolhas partidárias, quase um terço dos que votaram no PS (31%) admitem que poderiam votar no comunista, ou seja, não partilham da desconfiança que tem sido apregoada por António Costa. Os melhores resultados do líder do PCP registam-se na Área Metropolitana do Porto (39% de potencial de voto) e entre os mais jovens (40%). Os piores na região Centro (72% de rejeição de voto) e entre os eleitores mais velhos (76%).

João Cotrim de Figueiredo, IL

O líder da Iniciativa Liberal está a "morder os calcanhares" do secretário-geral comunista no potencial de voto: soma 29% (um ponto menos que Jerónimo). É certo que tem uma taxa de rejeição (53%) inferior à do líder do PCP (62%), mas parte da explicação estará num problema de notoriedade: 18% dizem não o conhecer (pior só Rui Tavares, do Livre). Se excluirmos os segmentos partidários, João Cotrim de Figueiredo só tem um potencial de voto (38%) superior à taxa de rejeição (37%) entre os eleitores dos 18 aos 34 anos. Aliás, esse potencial vai diminuindo à medida que o eleitor envelhece, enquanto a rejeição de voto vai crescendo, para chegar aos 76% nos que têm 65 ou mais anos. O desequilíbrio de género em favor dos homens explica-se parcialmente pelo maior desconhecimento feminino. Sem surpresa, é nas áreas metropolitanas do Porto (33%) e Lisboa (31%) que revela maior potencial, sendo o Norte o terreno mais cáustico (57% de rejeição). Nos segmentos partidários da amostra, e para além dos eleitores liberais, as perspetivas são muito positivas entre quem votou no CDS em 2019 (78% de potencial de voto). No caso do eleitorado social-democrata, desce para os 39%.

Inês Sousa Real, PAN

Ainda que parta de um patamar ligeiramente mais (27% de potencial de voto na totalidade da amostra), a líder do PAN, consegue, tal como liberal que a precede, um saldo positivo entre os eleitores mais jovens: 38% de potencial e 35% de rejeição. Uma popularidade mais evidente entre os mais novos, que tem como espelho uma taxa de rejeição elevada entre os mais velhos (82% nunca votaria em Inês Sousa Real). O partido animalista e ambientalista tem, como habitualmente, um pendor mais feminino. Consegue o seu melhor resultado regional na Área Metropolitana do Porto (36% de potencial) e o pior no Norte (65% de rejeição). O cartaz da líder do PAN só atrai o eleitorado do partido (96%). O melhor que consegue, para além disso é 29% de potencial de voto entre os eleitores socialistas e liberais de 2019.

Francisco Rodrigues dos Santos, CDS/PP

O líder dos centristas é o único líder partidário na corrida eleitoral que não é capaz de ter um saldo positivo em nenhum dos segmentos da amostra, incluindo os partidários. Ou seja, Francisco Rodrigues dos Santos não está a conseguir convencer nem sequer os que votaram no seu partido em 2019: 56% de rejeição de voto e apenas 44% de potencial de voto. A relativa boa notícia é que, apesar de tudo, consegue gerar alguma simpatia entre os eleitores dos restantes partidos à Direita, com um potencial sempre a rondar os 40 pontos percentuais. Em termos regionais, o resultado mais prometedor consegue-o no Porto (38% de potencial) e o pior em, Lisboa (64% de rejeição). A exemplo de outros líderes, Francisco Rodrigues dos Santos melhora o seu potencial quanto mais jovem o eleitorado e aprofunda a sua taxa de rejeição à medida que o eleitor envelhece (86% entre os que têm 65 ou mais anos).

André Ventura, Chega

O líder da Direita radical, que adotou uma postura beligerante ao longo dos debates, destaca-se dos restantes pela taxa de rejeição: 67% nunca votaria no presidente do Chega, com destaque para as mulheres (mais sete pontos percentuais do que os homens) e os eleitores com 65 ou mais anos (88%). O Centro destaca-se pelo potencial de voto (31%), mas também pelo facto da firmeza de voto (votariam de certeza) chegar aos 14% nesta região (com a exceção de António Costa só Rui Rio consegue igualar este valor, mas na Área Metropolitana do Porto). Os homens e os dois escalões mais jovens são os segmentos mais favoráveis a Ventura, bem como, ao nível partidário, os eleitores do Chega em 2019, mas também os do CDS/PP (77% de potencial de voto neste últimos). No eleitorado de todos os outros partidos a taxa de rejeição fica sempre acima dos 70 pontos percentuais.

Rui Tavares, Livre

O fundador do Livre é o que parte em pior posição, entre os nove principais candidatos ás próximas legislativas. Não só o seu potencial de voto é o mais baixo (20%) como tem uma parcela grande do mercado eleitoral fechada nesta altura, seja por causa da rejeição (53% nunca votaria), seja por desconhecimento dos eleitores (25%), e apesar da participação em oito debates. Rui Tavares tem saldo negativo em todos os segmentos, exceto entre os eleitores do Livre e do PAN de 2019. A exemplo dos candidatos da Iniciativa Liberal, PAN e Bloco, o potencial é mais elevado nos mais jovens (soma 26% entre os que votariam de certeza e os que poderiam votar), e a rejeição (nunca votariam) é mais elevada entre os mais velhos (71%). Ao nível regional, o terreno mais prometedor é a região do Porto (27%), enquanto os habitantes do Norte são os que mais o rejeitam (63%).

rafael@jn.pt

FICHA TÉCNICA DA SONDAGEM

A sondagem foi realizada pela Aximage para o DN, JN, TSF, com o objetivo de avaliar a opinião dos portugueses sobre temas relacionados com a atualidade política.

O trabalho de campo decorreu entre os dias 6 e 12 de janeiro de 2022 e foram recolhidas 807 entrevistas entre maiores de 18 anos residentes em Portugal.

Foi feita uma amostragem por quotas, obtida através de uma matriz cruzando sexo, idade e região (NUTSII), a partir do universo conhecido, reequilibrada por género, grupo etário e escolaridade. Para uma amostra probabilística com 807 entrevistas, o desvio padrão máximo de umaproporção é 0,017 (ou seja, uma "margem de erro" - a 95% - de 3,45%).

Responsabilidade do estudo: Aximage Comunicação e Imagem, Lda., sob a direção técnica de Ana Carla Basílio.