Coração de D. Pedro. Trasladação gera polémica no Brasil

Coração de D. Pedro I vai provisoriamente para o Brasil, para as comemorações do bicentenário da independência. Esquerda brasileira dá sinais de incómodo. Fala-se em iniciativa "quase mórbida".

João Pedro Henriques
Coração de D. Pedro está à guarda da Irmandade da Lapa, no Porto.© Pedro Correia / Global Imagens

Ex-ministro da Educação de Dilma Roussef e atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Renato Janine Ribeiro revelou-se, este sábado, uma das primeiras vozes da elite académica da esquerda brasileira a criticar duramente a trasladação provisória de Portugal para o Brasil do coração de D. Pedro I (IV de Portugal), fundador, há quase 200 anos, da independência daquele país.

O "empréstimo" da real relíquia foi pedido pelas autoridades brasileiras para as comemorações do bicentenário da independência. E a câmara do Porto - cidade onde D. Pedro pediu que ficasse o coração - autorizou, depois de peritagens científicas.

Pormenor da peritagem cientifica feita ao coração de D. Pedro I na Sala de Atos da Venerável Igreja da Lapa (Porto).© DR

Escrevendo na sua página pessoal no Facebook, Renato Janine Ribeiro responsabilizou o Governo de Bolsonaro pela "quase mórbida" iniciativa de trazer um coração "morto há quase duzentos anos e que quase ninguém vai querer olhar" ("não deve ser bonito").

Acrescentou que, quanto a outras iniciativas para comemorar o bicentenário, "nada", da parte do Governo federal. O académico fala mesmo em "necrofilia", recordando o que se passou há cinco décadas: "A extrema-direita é tão necrófila que, para os 150 anos de Brasil, pediu o cadáver de Dom Pedro I - que percorreu o Brasil antes de ser sepultado no Ipiranga, só não passando por Pernambuco, dada a revolta que ainda causava por lá devido à repressão à Confederação do Equador." Agora, afirma o ex-ministro, o Governo pede o coração do monarca e "omite-se de qualquer outra iniciativa importante".

D. Pedro nasceu nasceu no Palácio de Queluz em outubro de 1798, quarto filho do rei D. João VI. Em 1807, acompanhou os pais na mudança destes para o Brasil, fugindo da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão. Em 7 de setembro de 1822 declarou a independência do Brasil, que o aclamou como imperador. Em 1832 regressou a Portugal, comandando as tropas liberais que derrotaram as absolutistas, lideradas pelo seu irmão, D. Miguel. Morreu (no mesmo quarto em que nasceu) em 1834, com 35 anos. Deixou um filho imperador do Brasil (D. Pedro II) e uma filha como rainha de Portugal (D. Maria II).

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