A governante que faz 20 mil km por mês e tem sempre tempo para ouvir o país

Brunch com Ana Abrunhosa, Ministra da Coesão Territorial

Joana Petiz
© André Carrilho

"Tenho tempo. Todo o tempo que precisar. Vamos falar e resolver." Enquanto vai passando espaços dedicados às startups incubadas na UBImedical, projeto com a sua assinatura em pleno centro da Covilhã e com ligação direta às empresas da região e à comunidade, a comitiva de jovens empreendedores das mais diversificadas áreas ligadas à investigação científica que a esperava para a cumprimentar aproveita bem o tempo. Ter ali uma governante não é de desperdiçar. E ainda mais quando sabem que a ministra em causa faz acontecer. Ouve, pensa uns segundos, lembra-se de quem pode ser útil para chegar a uma solução à medida de cada caso e agenda reuniões em que pede já planos de trabalho para que não se perca tempo. Ana Abrunhosa tem-no sempre. "Se precisarem de uma hora, estou uma hora; se precisarem de três ou quatro, estarei também, o tempo que precisarem. Os governos não podem viver longe das pessoas", diz a ministra que todos os meses faz 20 mil km para ir ouvir o país mais profundo.

Não é comum ver tanta disponibilidade - e verdadeiramente empenhada, não fingida nem em sacrifício - quando nem sequer há uma campanha por trás e muito menos quando o motivo que leva a ministra da Coesão à Covilhã não é oficial. Escolheu a UBImedical para a nossa conversa porque ali conseguiu fazer um projeto ímpar em terras do interior e é isso que a move. Essa capacidade de tornar reais coisas em que a maioria nem sequer acredita imagináveis.

Quando enfim nos sentamos na esplanada, a serra a estender-se em todas as direções e à mesa uma seleção dos melhores produtos da região, do sumo de laranja ao queijo da serra, doce e mel, bolos típicos e salgados, café e chá, confessa-se "demasiado teimosa para desistir" quando encontra boas ideias. "Demore o que demorar, custe o que custar - e há mudanças que levam uma eternidade, mas no fim vale a pena." É herança que lhe ficou dos tempos da CCDR Centro, onde passou uma década a fazer acontecer, mergulhada no terreno. E dos tempos em que foi preciso reconstruir o que se foi nos terríveis incêndios que em 2017 atravessaram a região deixando mortos, feridos e muita destruição e ela, então à frente da estrutura de coordenação, frequentemente ligava a António Costa para resolver de imediato o que ameaçava prolongar-se além do que o sofrimento dos que haviam sobrevivido ao fogo mereciam.

"O primeiro-ministro atendia muitas vezes a dizer que eu era a única pessoa que lhe ligava assim", ri-se. Diz que é a única forma que conhece de fazer as coisas e até admite que essa impaciência é traço de "um feito esquisito". Como assim, esquisito? Conta que ralha quando as coisas não são feitas à sua maneira e que muitas vezes se antecipa à equipa e faz em vez de pedir - "era muito mais fácil se eles estivessem dentro da minha cabeça", diz, mais para si própria do que para mim. E depois resume a explicação: "Acho que tenho mau feito com um bom coração."

E talvez tenha sido isso tudo que lhe rendeu o convite para governante, apesar de ter sido nomeada com Pedro Passos Coelho para liderar a CCDR Centro, em 2014. Um momento que a surpreendeu. "Eu nem sequer sou da cor política... não tenho essas afiliações", diz. Conta que foi tão inesperado quanto rápido: "Um dia António Costa ligou-me e eu perguntei o que é que tinha feito. E ele disse: "Nenhuma maldade tão grande como a que lhe vou fazer; eu não a conhecia, mas contactámos próximo nestes anos e vejo como trabalha e quero convidá-la para ministra." Depois explicou-me que seria para a Coesão, para ficar com os programas operacionais regionais, no fundo era fazer no país o que eu fazia na região Centro, através da CCDR. E eu disse que tinha de falar com a família, mas à partida aceitaria. Nem eu fazia ideia do desafio..." O telefonema aconteceu numa segunda-feira à tarde, na terça já anunciavam o seu nome, levando-a a deixar a CCDR Centro nas mãos da grande amiga que ali conheceram quando ambas entraram como vogais, Isabel Damasceno - mais tarde confirmada em eleições para o cargo.

De Cabinda à CCDR Centro

Ana Abrunhosa nasceu em Angola, em Cabinda, "passava a vida na praia e foi muito estranho quando vim para Portugal antes do 25 de Abril, para Meda, na Beira Alta, onde não havia animais na rua", conta. Tinha 4 anos e uma irmã 11 meses mais nova e achavam ambas estranhíssimas aquelas casas escuras, com lareira, a sociedade fechada dos anos 70 para quem já bebia Coca-Cola e comia Nestum. Os piqueniques, continua a fazê-los sempre que pode, tal como aproveita cada furinho que tem para ir à praia. "Sou viciada!"

O pai, militar, ainda ficara por África e a ligação de Ana Abrunhosa com a mãe fortaleceu-se muito desde então, mesmo que aos 15 anos, depois de uma escola cumprida sem espinhas e da vida de campo na Meda, fosse obrigada a sair de casa e a viver um tempo de liceu muito menos feliz do que a infância. "Só havia secundária na Guarda, por isso tive de ir e aprender a viver sozinha, a gerir a vida, o dinheiro, a cozinhar, tornei-me muito autónoma. Mas foi duro porque era uma sociedade ainda mais fechada e dura... não guardo desses tempos as melhores recordações, ainda que fosse um ensino de excelência. Só guardo uma amiga desse tempo, a Madalena", conta. Quando dali seguiu para Coimbra, para a licenciatura em Economia, a vida voltou a ser uma alegria - ali fez amigos a sério e até conheceu o primeiro marido, que apesar de ser da Meda só conheceu na Faculdade. À licenciatura seguiu-se a consultoria na EY, no Porto, que lhe "deu muita disciplina e método", e depois o mestrado e acabou por casar-se só aos 27 anos, já a dar aulas na faculdade. Com o doutoramento cumprido e uma filha nascida, foi convidada para vice-presidente da CCDR Centro e viu-se obrigada a pôr o resto em pausa. Alfredo Marques, que tinha sido seu professor e chegou a ser orientador de doutoramento, era presidente da estrutura e sob a sua alçada fez de tudo: gestão de fundos comunitários, os concurso de dirigentes que estavam há anos por fazer, implementou o SIADAP... Foi também lá que se tornou amiga da então igualmente vogal da CCDR Centro Isabel Damasceno (ex-autarca de Leiria). "Era uma equipa muito unida e foram tempos maravilhosos", assume. Tempos e pessoas que não esquece: "Se há constante na minha vida é que as pessoas com quem trabalho vão-se mantendo, não mudo o que funciona."

Ainda que goste do que consegue fazer, hoje Ana Abrunhosa não tem dúvidas: "O mais difícil na vida é ser ministra." E muito disso vem do processo de longo prazo, de não ver os resultados logo, ainda que as mudanças que se conseguem sejam estruturais e isso seja gratificante. Ainda mais em pandemia, "quando esse é o único tema e traz impedimentos físicos e efetivos à governação e dificuldades de visibilidade aos projetos que queremos lançar". E a dificuldade é acrescida na sua pasta, que toca quase todas as outras, do Trabalho aos Fundos Europeus, da Agricultura ao Ensino Superior - contactos talvez facilitados porque se foi cruzando com alguns desses governantes, entre a universidade e a CCDR, onde foi colega de Manuel Heitor, Nelson de Souza e Maria Manuel Leitão Marques.

No governo enquanto dure

Se a pandemia dificultou o trabalho e a passagem da mensagem obrigou a esforço acrescido, Ana Abrunhosa não parou mais do que 15 dias. "Tinha mesmo de vir. Estar junto das pessoas, dos autarcas, ajustar estes programas às necessidades das regiões, os apoios covid, reprogramámos tudo num mês e conseguimos coisas incríveis como os Heróis dos Testes - uma rede de universitários que veio reforçar as equipas de testes."

Os próximos dois anos entusiasmam-na, agora com a retoma como foco. "É um contexto totalmente diferente e uma forma de fazer política também radicalmente diferente", mas o momento em que garante lutar ainda mais para afirmar o interior e lutar contra preconceitos que ainda o fazem mais longínquo do que verdadeiramente é. "Enerva-me imenso quando estamos a lançar uma medida para a indústria, com inovação, tecnologia, sofisticação e como é no interior a imagem que nos atribuem é a de um campo agrícola", exemplifica. E aceitaria continuar no governo para concretizar essa mudança? "Aprendi com os anos a não planear muito; a realidade mostrou-me - sobretudo os incêndios -, que as minhas grandes preocupações com a vida, a minha filha, o futuro, valiam pouco."

Também por isso vive tranquila o segundo casamento - o divórcio foi tão pacífico que o seu ex-marido era seu vizinho em Lisboa, mesmo depois de casada -, com o dono da farinha Branca de Neve, que em plena pandemia decidiu trocar a capital por Castelo Branco, onde têm casa. "É um amor maduro em que já sabemos que não vamos mudar o nosso companheiro. E vivemos muito bem", diz, quando lhe pergunto como reagiu quando o marido decidiu que já não saía dali, onde agora até tem mais projetos, incluindo na terra.

A filha, essa teve de a empurrar para fora do ninho mas agora fica por Lisboa - onde a mãe praticamente só está às quintas, para a reunião do Conselho de Ministros -, onde está no quarto ano de Medicina.

"Planear é bom mas sem ficar agarrada a isso, porque num minuto a vida muda. Temos de pôr o nosso trabalho, empenho e essência no que fazemos, até para gostar do que fazemos, mas deixar acontecer." E numa resposta mais resumida, a ministra que não tem redes sociais e se assume católica praticante e sempre portadora da carta Fratelli Tutti, do Papa Francisco, a que recorre frequentemente assume que não vive a pensar na política. "Espero não correr o risco de perder essa noção do que é prioritário, que é a minha família, os amigos. Facilmente na política deixamo-nos levar por um mundo de agitação extrema, não desligamos, não temos tempo para férias em família. Isso não é vida. Eu só sou feliz a trabalhar muito mas tendo esse equilíbrio emocional. E não vivo preocupada se o governo fica ou não. Se alguém que eu respeite me convidar e o convite me fizer sentido, posso aceitar voltar a ser ministra", diz sem grande entusiasmo.

Mesmo porque o lugar na faculdade, onde fez carreira académica antes de chegar à CCDR, em 2008, continua à sua espera e há muitos policiais para devorar. E ainda tem outros projeto de vida. Como viver em África, onde nasceu, e tirar Direito. "E gostava de ser avó cedo para aproveitar, ter muitos netos e ter qualidade de vida para trabalhar até morrer. Não tenho medo da morte, sou católica praticante e vivo a vida intensamente, por isso vivo tranquila e sem essa angústuia", garante.