Alunos desiludidos com cancelamento de visita de Cavaco

O cancelamento da visita do Presidente da República à escola António Arroio devido a "um impedimento" desiludiu os alunos, que desde cedo esperavam pelo chefe de Estado à porta do estabelecimento com cartazes.

Pouco depois das 11:00, trinta minutos após a hora prevista para o início da visita, a PSP confirmava aos jornalistas presentes no local que a deslocação do chefe de Estado tinha sido cancelada.

Meia hora depois, fonte da Presidência da República adiantou à Lusa que o cancelamento se tinha devido a "um impedimento", mas que tinha sido "acertado" que o secretário de Estado João Casanova iria realizar à mesma à visita.

Interpelado pela comunicação social, o secretário de Estado desvalorizou a ausência de Cavaco Silva, considerando que por certo o Presidente da República "terá uma razão de fundo" para não se ter deslocado à escola.

"Só pode ter sido um imponderável, não vamos entrar em qualquer tipo de especulação", disse João Casanova.

Questionado se esse "imponderável" poderá estar relacionado com a concentração de alunos que aguardava a chegada de Cavaco Silva, João Casanova pediu para "não se especular sobre nada", referindo não ter tido "oportunidade de observar qualquer a manifestação".

O secretário de Estado admitiu, contudo, que "é normal que a juventude se insurja sobre determinadas medidas", prometendo "a seu tempo" ver o que se passa.

Entretanto, à medida que João Casanova visitava a escola, sempre acompanhado pelo diretor da escola e pela assessora para a área da Educação do Presidente da República, Susana Toscano, alguns dos alunos que estavam pelo menos desde as 10:00 concentrados junto ao portão começaram a entrar para os corredores.

"Governo fascista é a morte do artista" era uma das frases gritadas pelos alunos, que no final confessaram a desilusão pelo cancelamento da visita do Presidente da República.

"Gostava que o Presidente tivesse tido mais respeito por nós", disse à Lusa João Jacinto.

Dércio Alves foi mais longe nas críticas, considerando que o chefe de Estado "deu uma chapada sem mão" aos alunos ao decidir cancelar a visita.

Questionado se entendia que o protesto dos alunos poderia ter sido a razão do "impedimento" de Cavaco Silva, Dércio Alves concordou com a ideia, lamentando que o Presidente da República não tenha tido "o respeito" de ouvir as queixas dos alunos sobre as falhas da escola António Arroio, nomeadamente a ausência de um refeitório.

Mais de hora e meia depois do início previsto para a visita do Presidente da República, dezenas de alunos continuavam concentrados em frente ao portão da escola António Arroio, alguns ainda com os cartazes que fizeram para receber o chefe de Estado, com frases como "sem internet", "fim do passe escolar" ou "sem refeitório".

João, do 12º ano, tinha preferido recuperar a polémica das pensões do Presidente da República, segurando uma cartolina verde onde se lia "Cerca de 10 mil euros de reforma?".

A polémica em torno das pensões do Presidente da República surgiu no final de janeiro, quando Cavaco Silva foi questionado pelos jornalistas sobre o facto de poder receber subsídio de férias e de Natal pelo Banco de Portugal, tendo explicado que, "tudo somado" - o que vai receber do Fundo de Pensões do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações - "quase de certeza que não vai chegar para pagar" as despesas, recordando que não recebe "vencimento como Presidente da República".

No dia seguinte, pela primeira vez desde que chegou à Presidência da República, o chefe de Estado foi vaiado, à chegada à cerimónia de inauguração do ano da Cidade Europeia da Cultura, em Guimarães.

O cancelamento em "cima da hora' da visita de hoje à escola António Arroio, onde em 2009 o então primeiro-ministro José Sócrates também foi recebido com protestos e vaias, também terá sido inédito desde que Cavaco Silva foi eleito para a Presidência da República, em 2006.

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