Agravamento da crise espanhola teria impacto em Portugal

Um agravamento significativo da crise económica em Espanha teria um "impacto enorme" sobre Portugal, tendo em conta a importância do país vizinho nos fluxos comerciais portugueses, disseram à Lusa especialistas no tema.

"Se houver uma crise profunda, o impacto será enorme. [Espanha] é o primeiro fornecedor e o primeiro comprador" de Portugal, afirmou o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, Enrique Santos.

"Portugal está muito dependente das relações económicas com Espanha. É natural, é o único vizinho que tem", referiu.

As medidas de austeridade tomadas pelo Governo de Mariano Rajoy para conter a crise da dívida espanhola poderão ter efeitos recessivos acima do previsto. Ora, Espanha foi a origem de 31,6 por cento das importações e o destino de 24,8 por cento das exportações portuguesas em 2011.

"Se as coisas correrem muito mal em Espanha, e se o Estado [espanhol] tiver necessidade, como parece que tem, de aumentar a carga fiscal, e ao mesmo tempo aumentar o desemprego, ficará menos rendimento disponível para as famílias", explicou Óscar Afonso, professor da Faculdade de Economia do Porto.

"Assim, Espanha vai comprar menos, incluindo bens importados, o que vai penalizar as nossas exportaçõe", disse.

Tanto Óscar Afonso como Enrique Santos argumentam ainda que o peso de Espanha nas exportações portuguesas -- quase um quarto -- é de facto real e não um mero efeito estatístico.

"Pode haver certas mercadorias que passam por Espanha e ou levam um valor acrescentado ou são reexportadas para países terceiros, mas a grande maioria [das exportações portuguesas] destina-se mesmo para Espanha", disse o presidente da Câmara de Comércio.

No entanto, apesar do grande peso de Espanha no comércio português e da grande interdependência das duas economias, não é inevitável que a crise em Portugal seja agravada por uma deterioração do outro lado da fronteira.

"Creio que o problema espanhol, apesar de ter contornos semelhantes ao português", não vai ter consequências tão graves como a crise em Portugal, disse o presidente do conselho de administração da Fundação Luso-Espanhola, José António Silva e Sousa.

"A crise espanhola vai ser diferente da portuguesa, porque a Espanha tem mecanismos de defesa que Portugal não tem, ou pelo menos não tinha" antes do programa de assistência acordado com a 'troika', acrescentou Silva e Sousa.

A XXV Cimeira Luso-Espanhola, que decorre na próxima quarta-feira, no Porto, terá entre os objetivos centrais reatar a proximidade nas relações ibéricas e intensificar os laços Portugal/Espanha. Desde 2009 que não se realizavam cimeiras bilaterais entre Portugal e Espanha.

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