A noite em que António Costa quase avançou para a liderança do PS

Livro dos jornalistas do DN Miguel Marujo e Octávio Lousada Oliveira contém informações inéditas sobre os seus 40 anos de atividade política.

Biografia. Miguel Marujo e Octávio Lousada Oliveira, jornalistas do DN, lançam hoje um livro que conta o percurso pessoal e político do secretário-geral do PS, explicando o que pensa ele, com informações inéditas sobre os seus 40 anos de atividade política. Aqui relata-se pela primeira vez toda a intervenção de Costa feita na Comissão Política em que desafiou António José Seguro para depois recuar

Pré-publicação.

Mão esquerda no bolso das calças, de fato cinzento e gravata vermelha, ladeado pelos deputados Ana Catarina Mendes e Francisco Assis, António Costa atravessa o Largo do Rato, em direção à sede do Partido Socialista, em Lisboa. Há muitos jornalistas à porta, câmaras e microfones apontados, que esperam a chegada de quem, nessa tarde, tinha anunciado aos vereadores da Câmara Municipal de Lisboa que era candidato à liderança do seu partido, como avançara o Expresso. Antecipa-se uma madrugada de trabalho na reunião da Comissão Política, que o secretário-geral do PS, António José Seguro, convocou para essa noite pouco fria de 29 de janeiro de 2013.

Em meia hora, Costa ameaça avançar para a liderança do PS e faz saber a Seguro que está ali para isso - mas acaba por não o fazer. Entre duas idas à casa de banho, de cada um deles, entregam ao ainda líder socialista uma cópia de uma notícia da agência Lusa que anuncia que o presidente da Câmara de Lisboa já avançou como candidato a secretário-geral do PS. António José Seguro atira-se a António Costa. Costa está tão surpreendido com a notícia como o seu interlocutor. Não há palavras meigas, o tom é muito desafinado na Sala da Música do Palácio--Praia, a sede do partido: tratam-se por "tu" nas acusações - "Tó Zé", aponta um; "António", responde--lhe o outro. No fim, Costa quer falar, no entanto é Seguro quem remata a reunião. Privilégio de líder.

António Costa tem a prerrogativa de dizer ao que vai: ser candidato, desafiar o líder se este não unir o partido. É chegado o momento, antecipa naquela reunião da Comissão Política. "Vamos lá ser francos sobre o seguinte. Epá, há muita gente na sociedade portuguesa e até há muita gente no PS que acha que eu dava um bom líder do PS." O autarca puxa dos galões e da história, recordando que essa questão lhe foi colocada muitas vezes, mas que sempre teve uma doutrina para si, bebida com uma geração de homens extraordinários acima da sua, "como o Vítor Constâncio, como o Jaime Gama, como o Jorge Sampaio e como o António Guterres", que "durante dez anos se foram esgotando, perdendo energia, fragilizando e muitos deles não tendo dado ao país todo o potencial que podiam ter dado". E remata com o argumento que diz sempre ter respeitado, de que cada um deve pensar em cada momento quem é que está em melhores condições para poder liderar o PS. "Das duas vezes que o problema se colocou, entendi que não era eu quem estava em melhores condições para disputar a liderança do partido."

O presidente da Câmara de Lisboa não perde o fôlego quando defende o passado do partido - uma farpa para Seguro, líder que acusa de viver preocupado com o fantasma do passado ou com o que lhe possa sair ao caminho. Para Costa, o passado precisa de ser assumido como património coletivo do PS. "Se não fizermos isso não ganhamos o futuro do partido. Não é o passado, o passado não se mata, mata-se é o futuro do Partido Socialista." O passado não saiu ainda ao caminho de António Costa e o socialista insiste em desenhar uma linha que o separa de Seguro. Para ele, nesse passado, há o bom e há o mau. "Hoje nós temos de assumir o passado como ele é. Porque podemos mudar o presente, podemos até tentar fazer coisas para o futuro, agora, o passado, meus amigos, está feito. Bem ou mal, está feito."

14 dias antes

A história desta noite começa a 15 de janeiro de 2013, em Viseu, com António José Seguro a encerrar as jornadas parlamentares do partido, dizendo que o PS apresentará as suas propostas "em tempo próprio e sem pressas", mas antecipando os calendários previstos pelo Laboratório de Ideias socialista que prepara o programa eleitoral. Independentemente do que viesse ou não dos lados da coligação governamental, onde pairava a ameaça permanente de uma crise. Na noite de 22 de janeiro, Pedro Silva Pereira tem os microfones abertos na Rádio Renascença e quer também ele acelerar calendários: os do partido. "Se o PS antecipa um conjunto de riscos para a estabilidade política e se acha que é necessário acelerar os calendários para estar preparado, então também conviria que o congresso pudesse realizar se tão rápido quanto possível." Antes das eleições autárquicas, previstas para setembro, remata.

O calendário passa a marcar as conversas nos corredores socialistas. Seguro pergunta cinco vezes "qual é a pressa" em antecipar o congresso, todavia também ele vai acelerar as reuniões do partido. Convoca a reunião da Comissão Política Nacional para a noite de 29 e ao calendário somam-se mais farpas. O congresso é pretexto para questionar a liderança. E Costa é a senha para avançar contra Seguro. Na tarde de 29, o autarca lisboeta convoca os vereadores para lhes anunciar a intenção de ser candidato ao PS. À noite, avança argumentos contra os de Seguro. "Bem, comecei a ver nos jornais que, afinal, havia aqui um problema comigo. Eu não estou cá para dividir ninguém. Mas há um limite para me fazer de parvo relativamente às tentativas de condicionamento dos movimentos políticos neste partido." Costa diz que quem lidera precisa de procurar uma estrada melhor, uma estratégia, e seguir em frente. "É isso que temos de fazer." É isso que ele não vê em Seguro. E é no passado que encontra também exemplos de como ele sempre esteve disponível.

A meses das autárquicas de 2013, o presidente da Câmara de Lisboa recorda aos camaradas da Comissão Política como várias vezes foi autarca. Em 1982 foi eleito pela primeira vez para a Assembleia Municipal. Em 1993, já com António Guterres como secretário-geral, foi convocado de novo, "num momento em que tal como agora se estava à beira de eleições autárquicas, em que tal como agora o partido estava dividido e em que tal como agora era necessário unir o partido". António Guterres chamou-o com as cartas todas na mesa: "Temos aqui quatro câmaras importantes para disputar na área metropolitana de Lisboa. Fizemos quatro sondagens: há duas que ganhamos sem ti e há duas que perdemos sem ti. Testámos quatro nomes, dois são muito conhecidos, são muito fortes candidatos; e dois, um dos quais era eu, são pouco conhecidos e são fracos candidatos. Ainda pensámos pôr os fracos nos concelhos bons e os fortes nos concelhos maus, mas achamos que devemos jogar pelo seguro: vamos pôr os fortes nos concelhos bons e os fracos nos concelhos maus." À lealdade pedida por Guterres, Costa responde com um "vamos a isso". E foi de burro e Ferrari para Loures.

Em 2007, António Costa era ministro de Estado e da Administração Interna no primeiro Governo de José Sócrates. O então secretário-geral do partido disse-lhe: "Temos aqui um problema." A decisão de Helena Roseta de se candidatar à Câmara de Lisboa atrapalhava as contas socialistas e Sócrates com receio de perder de novo a capital, nas eleições autárquicas intercalares, pediu a Costa que fosse candidato por Lisboa. "Foi um pedido que ainda bem me fizeram." Há poucas funções que goste tanto de exercer, observou. Que gostava muito de ser presidente da Câmara de Lisboa - e logo ali, no Rato, disse que era recandidato à autarquia.

Avanços e recuos, madrugada dentro

Voltemos à noite de 29 de janeiro de 2013. No discurso, que já ultrapassa os dez minutos, Costa é aplaudido ao fazer o anúncio da recandidatura enquanto aponta à mesa que tem à sua frente. Há um problema no partido, garante, falta afirmar-se como alternativa e falta confiança entre os socialistas, porque sobra a suspeição quando se ouvem uns aos outros. "Quando eu digo "a luz é bonita", vão começar a pensar "hum, porque é que ele diz que a luz é bonita, deve ter alguma na manga, terá candeeiros para vender ou quer o partido às escuras"?", ironiza, e arranca gargalhadas à plateia.

Na manga, Costa só tem o discurso de que "não há partido nenhum que não saiba viver a integralidade da sua história". "Nós temos de saber viver com a integralidade da nossa história. E não venham cá com socráticos ou meio socráticos porque daqui a uns anos seremos todos tão socráticos como hoje somos todos soaristas, sampaístas, guterristas, e todos estes istas que no passado nos dividiram. Se isso não acontecer é porque o PS perdeu algo fundamental na sua natureza, que é sermos um partido de gente solidária, que pensa pela sua cabeça, que sabe que está neste partido com liberdade, mas que estamos cá todos para as boas e más horas."

A noite permite mais uma viagem no tempo. Em 2002, depois da demissão de António Guterres de primeiro-ministro e da liderança do PS, o secretário-geral Ferro Rodrigues chamou António Costa para a liderança do grupo parlamentar. Costa cita, por ordem alfabética, a "gente extraordinária" que o acompanhava como vice-presidentes - Acácio Barreiros, Afonso Candal, Elisa Ferreira, Guilherme d"Oliveira Martins, José Magalhães, José Sócrates, Manuel Maria Carrilho, Maria de Belém, Maria Santos e Paulo Pedroso - para sublinhar como assim se espelhava "a unidade do PS em toda a sua diversidade, de gerações, de percursos, de formas de pensar".

Perante uma sala que o vai ouvindo quase sempre em silêncio, recorda a legislatura difícil que nessa altura se iniciava, com o primeiro-ministro Durão Barroso a fazer o discurso que o país estava de tanga e que Guterres tinha deixado o país num pântano. "Então, não havia ainda os socráticos. Era a tralha guterrista e era preciso libertar nos da tralha guterrista para podermos seguir em frente. Ó camaradas, um partido que se liberta da tralha guterrista, que se liberta da tralha socrática, que depois um dia se liberta da tralha segurista, da tralha costista e da tralha tralha, é um partido que fica uma tralha. Isso não é um partido."

Arrumada a tralha, Costa toma balanço para o desafio a Seguro, queixando-se de, em dois anos, a direção do partido ouvir tão pouco quem discorda das suas ideias. Recusa que tenham encurralado "este gajo". Ele é o gajo que não aceita qualquer debate interno do PS "em torno da irresponsabilidade, da obstrução permanente, do espírito de fação, da deslealdade ou do cinismo". E desfere o golpe, quase suspira para Seguro: "Tó Zé, epá, depois de tudo isto, não sei como é que és capaz de unir o partido. Eu sei que eu sou capaz de unir o partido. Eu sei que se eu fizer uma divisão, dois meses depois o partido está unido. Eu sempre uni o partido e nunca o dividi."

Os relatos dos jornais darão conta destas perguntas que Costa deixa de rajada, elevando a voz. "Se me disseres aqui que és capaz de unir o partido, que és capaz de assumir a história do partido, que és capaz de pôr os melhores a trabalharem na direção do partido, que és capaz de pôr os melhores a trabalharem na direção do grupo parlamentar, que és capaz de fazer isto que é essencial, Tó Zé, terás o meu apoio e eu vou exercer as minhas funções de presidente da Câmara Municipal de Lisboa, com toda a determinação, empenho, vontade, gosto e satisfação e realização pessoal como tenho feito ao longo destes anos."

Do suspiro à cólera, Costa atira-se à direção por querer fazer um congresso agora para o condicionar. "Se for necessário para a unidade do partido, eu serei candidato a secretário-geral do partido. E serei também candidato à Câmara Municipal de Lisboa" para que o PS ganhe as próximas eleições. É desta: Costa parece candidato, mas depois dos aplausos lança a mão a Seguro. "Gostaria de sair daqui hoje com uma convicção clara de que ou queres unir o partido e queres propor uma metodologia de trabalho para unir o partido." Ou, avisa, será "efetivamente" candidato a secretário-geral do PS. "Mas não o farei por deslealdade. Farei porque considero essencial não só ganhar as autárquicas como também afirmar e construir unidade no PS."

O verniz estala mais de uma hora depois, com uma primeira notícia da Lusa a dizer que "António Costa candidata-se a secretário-geral para "unir o PS"". E uma segunda notícia, já perto da uma da madrugada, a dar conta de uma segunda intervenção de Costa que nunca aconteceu. Uma fonte próxima do autarca antecipa a frase que António Costa não pronunciará nessa noite. "É impossível um entendimento" com António José Seguro. Quando o autarca regressa à sala, depois de ir à casa de banho, é confrontado com a notícia. Já no final da reunião, a fotografia é outra: Seguro e Costa cumprimentam-se, o autarca reconhece aos jornalistas que o secretário-geral socialista foi recetivo à sua proposta.

António Costa recua e deixa desamparados e furiosos os que mais se tinham empenhado em alimentar a sua candidatura a candidato. No final da reunião, já madrugada, há quem não disfarce o desalento. De fato cinzento e gravata vermelha, Costa sai como entrou: presidente da câmara e a defender a unidade do partido. O desafio fica adiado por mais de um ano, mas a semente está lançada.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG