"A minha família e eu fomos julgados sumariamente"

Salgado está a ser ouvido na comissão de inquérito ao caso BES. Antigo presidente do banco diz que não recorrer à linha da troika foi decisão racional.

Ricardo Salgado quebrou esta terça-feira o silêncio. Na comissão parlamentar de inquérito à gestão do grupo BES/GES, o ex-presidente do banco disse que "estava a lutar pela dignidade" da sua família, falando em "histórias falsas, que ocultaram a verdade dos factos" sobre o colapso do banco que liderou durante 22 anos.

Manifestando "total disponibilidade" para cooperar com os trabalhos de investigação da Assembleia da República, Salgado recorreu a um provérbio chinês para ilustrar a sua batalha: "O leopardo quando morre deixa a sua pele. Um homem deixa a sua reputação."

"A minha família e eu fomos julgados sumariamente em praça pública", observou o ex-presidente do BES - falou também em "histórias falsas que ocultaram a verdade" - logo na intervenção inicial, que o presidente da comissão, o social-democrata Fernando Negrão, anunciou que duraria cerca de uma hora.

Pelo meio, o antigo banqueiro sinalizou estar disponível para regressar ao Parlamento para prestar novos esclarecimentos, caso os deputados entendam ser necessário. "Obrigado pela oportunidade que me estão a dar", declarou.

Numa sala em que sobram deputados, assessores e jornalistas, Salgado passou em revista a sua gestão do banco e elencou os principais motivos que levaram ao colapso do banco (e do grupo), destacando que entre o final de 2013 e julho de 2014 - quando deixou aquela entidade bancária - houve "três pontos essenciais": a crise internacional, o seu impacto na economia e a intervenção da troika.

Em todo o caso, Salgado, que chegou à sala seis do Parlamento ladeado pelo seu advogado, Francisco Proença de Carvalho, reconheceu que terá cometido erros na gestão do banco, ao longo dos 22 anos que o liderou. "Poderei ter tomado decisões que podem nem sempre ter sido acertadas", admitiu.

O antigo presidente executivo do BES disse ainda que o banco optou por não recorrer à linha de 12 mil milhões de euros da 'troika' numa "decisão racional" para melhor garantir a estabilidade da entidade.

"A escolha de não recorrer à recapitalização não era um plano secreto", declarou Salgado, sublinhando que tal foi uma "decisão racional que se afigurava a melhor para a estabilidade e o futuro do BES".

O BES, disse Salgado aos deputados, "sempre conseguiu emitir capital e dívida e trazia investimento para Portugal". "Sempre quisemos manter o controlo do banco em mãos portuguesas", sublinhou ainda.

Aquando do programa de ajustamento para a economia portuguesa, a 'troika' (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu) implementou uma linha de capitalização da banca no valor de 12 mil milhões de euros, sendo que o BES foi uma entidade que não utilizou montantes dessa linha.

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