"SNS está claramente pior do que antes da pandemia"

Presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, Xavier Barreto, diz ao DN que a crise nos recursos humanos no SNS era previsível, mas as consequências nos utentes é que são preocupantes.

Serviços de Urgência encerrados por falta de médicos e hospitais que desviam médicos da atividade programada, consultas e cirurgias, para não encerrarem Serviços de Urgência. Este tem sido o dia-a-dia de muitas unidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no último mês. A causa indicada é a falta de profissionais, nomeadamente de médicos, mas a razão da causa é a "fuga" destes, sobretudo, para o setor privado, onde dizem ser melhor pagos. Mas a desmotivação e o desalento também atinge a classe da enfermagem, onde têm aumentado os pedidos de escusa de responsabilidade por eventuais falhas que possam surgir na prestação de cuidados aos utentes, devido às condições em que se está a trabalhar no SNS, e a classe dos farmacêuticos

O DN quis saber a opinião de quem gere as unidades do SNS e o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) foi claro: "O SNS está claramente pior do que no período pré-pandemia". Xavier Barreto explicou que, e tal como o referiu na semana passada a ministra, "até estamos a produzir mais do que em 2019 e 2021, mas é à base do trabalho adicional dos profissionais, e isto não recupera nem resolve as situações que não foram atendidas durante a pandemia". Para a APAH, esta é a questão. "Há um conjunto enorme de doentes que não foram diagnosticados, nem tratados atempadamente, e que chegam em pior situação".

O administrador alerta até para o facto de tal não ser uma possível explicação para o excesso de mortalidade registado nos últimos meses, considerando que a questão deveria ser estudada pela Direção-Geral da Saúde. "A causa poderá estar relacionada com a pandemia, com o não termos acelerado a retoma ou pelo facto de não termos criado ferramentas para que esta fosse feita de forma a dar prioridade aos doentes que necessitavam de facto dela".

265 000. Este é o número de consultas a mais realizadas no SNS nos pirmeiros seis meses de 2022. Houve ainda mais 33 mil cirurgias. Os números foram revelados pela ministra da Saúde, na semana passada, no Parlamento.

Xavier Barreto confessa não pertencer ao grupo dos que agora criticam a decisão da tutela de, em 2020, suspender a atividade programada para se tratar a covid-19. "Na altura, vivíamos uma incerteza muito grande e foi normal, mas o que tenho defendido, e a APAH também, é que a retoma da atividade assistencial, sobretudo nos cuidados primários, deveria ter sido feita de forma mais inteligente, priorizando doentes já referenciados de risco pelas suas patologias (obesidade, hipertensão e outras), e que não contactaram o Centro de Saúde durante um ano ou mais".

Ou seja, deveria ter havido uma "estratégia de retoma mais planeada e proativa dirigida a grupos de risco, que incluísse a criação de vias verdes para doentes que não foram diagnosticados, nem acompanhados durante este período. Neste aspeto, a tutela deveria ter feito mais".

Em relação à falta de recursos humanos, o administrador diz que o cenário de agora já "se adivinhava em 2019". "Não aconteceu antes, porque com a pandemia os profissionais de saúde foram impedidos, por lei, de sair do SNS. Agora, há muito mais desânimo e desalento e mais rescisões", diz, justificando: "Os profissionais estão exaustos e as grelhas salariais são as mesmas de há dez anos. Não só para a classe médica, mas também para as outras, e a concorrência, do setor privado e de outros sistemas de saúde estrangeiros, não para".

Para o presidente da APAH, a falta de autonomia das unidades, que não lhes permite, por exemplo, contratar os médicos de que necessitam, é outra das razões para o estado do SNS.

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